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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Pesquisa

 

LITERATURA E VIOLÊNCIA:

ENTREVISTA A PESQUISADOR DA UFBA

 

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Trecho de entrevista que acabo de conceder ao pesquisador Murilo Melo, que está fazendo um estudo na Universidade Federal da Bahia sobre a coletânea Contos cruéis, que organizei em 2006 para a Geração Editorial e que, em 2009, foi um dos livros escolhidos do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do Ministério da Educação. Segue:

 

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- Quais imagens de violência e crueldade escolhidas para o livro Contos cruéis mais chamaram a sua atenção?

Rinaldo de Fernandes – As do conto “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, com bandidos estuprando e matando impiedosamente os indivíduos que participam de uma festa de réveillon. A cena do tiro para testar se o atingido gruda na parede é, de fato, muito cruel. Há também a cena do conto da Lygia Fagundes Telles, em que um indivíduo deixa a ex-namorada presa num cemitério. São, aí, dois tipos de violência, igualmente impiedosas – a que decorre das desigualdades sociais e a que o individuo carrega consigo, a que nos é inerente e que pode se manifestar a qualquer momento.

 

- O que o senhor analisa de semelhante entre o livro Contos cruéis e O professor de piano?

 

Rinaldo de Fernandes – A crítica já apontou meu conto “Ilhado”, que consta de O professor de piano, como uma narrativa que dá prosseguimento à linha da literatura da violência urbana inaugurada, desde os anos 60, por Rubem Fonseca. Para mim é uma honra dar prosseguimento a essa vertente proposta por um autor da minha mais profunda admiração. Nesse quesito, sugiro a leitura do artigo “Literatura da violência”, de Marcelo Coelho, da Folha de S. Paulo, no qual ele aponta os autores da literatura brasileira contemporânea que dariam prosseguimento, em certos textos, à vertente violenta inaugurada por Rubem Fonseca. Seriam autores da escola fonsequiana: Patrícia Melo, Paulo Lins, Ferréz, Marçal Aquino, Fernando Bonassi e eu. Esse artigo foi produto de uma palestra que Marcelo Coelho proferiu numa universidade americana. Creio que ele percebeu bem a questão da escola da violência que tem Rubem Fonseca como mestre. Em O professor de piano, há varias modulações da violência. Além da violência decorrente de problemas sociais, como é o caso de “Ilhado”, há aquela decorrente de frustrações amorosas e que envolvem, por exemplo, o machismo: caso de “Você não quis um poeta” e mesmo o conto “O professor de piano”. Aqui a frustração individual, a rejeição, desencadeia a brutalidade. Ou seja, a violência vem de fora mas também parte de dentro do indivíduo. Todos somos potencialmente vítimas e sujeitos da violência.

 

- Como surgiu essa predileção pelo tema "violência"? Por que o senhor acha importante trabalhar com a violência dentro da literatura?

 

Rinaldo de Fernandes – Minha predileção pelo tema veio, seguramente, de minha leitura de Rubem Fonseca. Este autor me ofereceu modos mais brutais, sem meios tons, para retratar a violência. Ele tem uma literatura que, por assim dizer, dá uma porrada na cara da vida brasileira. E eu queria fazer algo parecido. Rubem Fonseca me permitiu enfrentar o tema sem muitas vacilações, indo direto ao ponto, criando personagens e situações cruas, duras, intensas em seu realismo. A literatura, para nos humanizar, tem que mostrar a vida ou “fazer viver”, como defende Antonio Candido no seu notável ensaio “Direito à literatura”. E fazer viver é mostrar também, de forma crua, o quanto de cruel há no real, no cotidiano das grandes cidades.

 

- Acha que a violência é pouco retratada na literatura?

 

Rinaldo de Fernandes – Não, sempre houve violências, de vários matizes, configuradas na literatura. Machado de Assis, no conto “Pai contra mãe”, trata da violência decorrente do regime escravocrata. Euclides da Cunha, em Os sertões, denuncia a violência da República, a violência do Estado brasileiro contra uma população sertaneja indefesa. Guimarães Rosa mostra a violência que decorre da cultura de defesa da honra no conto “A hora e vez de Augusto Matraga”. Paulo Honório, protagonista do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, carrega consigo a violência de classe, a do burguês contra o individuo que ele explora. E por aí vai.


- Existe incômodo ao retratar o assunto no meio literário?

 

Rinaldo de Fernandes – Não. A violência está na vida, na sociedade. E a literatura traz sempre uma imagem da vida. Sobretudo depois de Rubem Fonseca o tema da violência entrou de vez na literatura brasileira, tornou-se um tema primordial.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h15
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