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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Ficção infanto-juvenil

 

O GRANDE GATO DA ILHA LAÇADO

                  (Um conto de amor paterno) 

 

 

 

por Rinaldo de Fernandes

 

        (para Júlio de Fernandes)

 

Uma ilha ontem abotoou o meu sono. Uma ilha onde um velho tinha que cuidar, sozinho, de nove crianças. Nove crianças que lhe chegaram uma noite de barco. Um barco que veio, o velho não sabe de onde – porque nenhuma das crianças tinha pensamento encadeado para dizer de onde elas procediam. O velho, já viúvo, e infectado pela antiga paixão de ter filhos, ao invés de esquecê-las, de largá-las à míngua nos escuros e escavados da ilha, adotou as nove crianças. Cresceu então dentro da ilha um amor desmedido. Cresceu um zelo que cuidava de braços, canelas, cabelos. Que fazia colher catarro empoeirado, que pingava entre os dedos. Que fazia rolar futebol na praia com um coco seco. Que matava mosquito antes de ele zunir. Que afogava choro antes de ele correr nos queixos. Que limpava dente antes de ele torrar. Um amor que vigiava a ilha de tudo quanto é peçonha. Que espiava os mares à cata de jangadas que pudessem vir sequestrar uma das crianças, que viessem lavar o rosto do velho de padecimento. As crianças se agarravam à saúde do velho para puxá-lo para a praia, para tomarem banho com o vermelho do sol fervendo no horizonte. E a vida era feliz como as areias onde folgavam branquelos siris. A vida confortava o suor que semear roçado espreme. Até que o único leão que havia na ilha, jogado ali por um barco de panos puídos que atravessava da África, começou a imprimir suas pegadas nas areias da praia. Começou a rugir de dentro da terra ao entardecer. O velho não sabia onde o leão se enterrava. Apenas se apavorava com o esturro – as patas do bicho empurrando força que faziam tremer as grandes pedras da ilha. E o leão uma madrugada meteu os olhos pela janela da cabana onde o velho vivia com as crianças. O velho, no susto, tomou a espingarda e chegou fogo contra a testa do bicho. Porém o leão pendeu para o lado e escapou, foi de novo para o seu refúgio. Dia seguinte, as crianças encontraram pelos, muitos pelos, nas cercanias da cabana. E passaram a amontoá-los, fizeram deles uma bola. E disputavam a bola, cheiravam a bola, dormiam com a bola. Uma das crianças, a única que não sabia jogar bola, queria saber, um tanto descontente, de onde tinham vindo os pelos – “de um grande gato, um bicho alegre”, adoçou-a o velho. Mas o que era diversão para as crianças vinha agora para o velho como um barulho. Porque ele ficou vigilante aos esturros e aos tropeços do leão pelos caminhos da ilha. O grande gato de pelos largados, perdidos, que botaram um brinquedo leve e empolgante nos pés das crianças, era o chamado maior do velho. Que passou a empunhar todas as madrugadas uma vara, com uma corda na ponta, que continha um laço. Enquanto as crianças ressonavam, sonhando sabidamente com tufos de pelos, com a bola prodigiosa, o velho esperava o esturro, os passos que viriam. E, com o laço pronto, mirava a janela. Sabia que os olhos do leão apareceriam ali. Sabia que o grande gato iria meter a cabeça na janela, tentando invadir a cabana. E essa seria a hora exata. A hora de laçar o leão. De alcançá-lo e, em seguida, mesmo com dificuldade, mesmo já sem muita força nos braços, enovelá-lo com a corda, amarrá-lo a um tronco lá fora. E deixá-lo preso, rendido. E depois domar o grande gato com a mão. Fazê-lo adormecer. Fazer de tudo para o grande gato dormir, engolir o esturro, e esperar o dia amanhecer. Para o velho então ir acordar as suas crianças. Ir buscá-las para ver o grande gato. Para elas lhe passarem as mãos. Para lhe possuírem os pelos. Para provarem do presente que só o imenso amor de um pai é capaz de amansar.   



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 16h44
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