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Exclusivo ED. NOVO SÉCULO LANÇA PRIMEIRO LIVRO DE EDUARDO SABINO

A editora Novo Século acaba de mandar para as livrarias Idéias noturnas sobre a grandeza dos dias, do jovem escritor mineiro Eduardo Sabino. Trata-se de um competente contista, cujo livro de estréia tive o grande prazer de prefaciar. Eduardo, além de ser um talentoso escritor, com um grande futuro pela frente, é uma pessoa educadíssima. Tem sempre prestigiado os meus lançamentos em Belo Horizonte, no Espaço Letras & Ponto, da poeta Dagmar Braga (que este ano foi indicada para o Jabuti). Leia, com exclusividade, trecho do prefácio que escrevi para Idéias noturnas sobre a grandeza dos dias: INTENSOS E IRÔNICOS
por Rinaldo de Fernandes [...] É sobretudo no poder de significação, na capacidade de manter a tensão/intensidade [categorias cortarzianas], além de certo apego ao fantástico, ao insólito, onde reside o valor de boa parte dos relatos deste livro de estréia de Eduardo Sabino. Isto já pode ser conferido no conto de abertura: “Doce lar”. Curioso e irônico (já no título) conto em que um pai de família torna-se o protetor das baratas que empestam o ambiente doméstico. As baratas, no conto, são o signo da decadência da família de um mineiro aposentado. E funcionam como o principal elemento desagregador da família, não só por provocar a fuga de casa da mulher como por promover a morte do filho caçula do casal (picado por um escorpião, que chega para se alimentar dos insetos). A situação é inteiramente kafkiana e insere o conto entre as principais peças do livro. Em “Purgatório”, a vontade de contato, de comunicação, é o primeiro elemento que chama a atenção. O jovem ascensorista apaixonado angustia-se ao imaginar conversas com a moça que entra e sai do elevador. Um ascensorista sensível, que tem gosto pela poesia e cujo pai castrador no passado o ironizava, impedindo o livre exercício de sua vocação literária. O protagonista do conto está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado – ainda mais desbotado pelo salário miúdo que recebe (tanto que a mãe complementa sua renda no final do mês). Um personagem carente, da galeria de pobres e problemáticos personagens do livro. “Eternas angústias de um imortal” traz uma boa reflexão sobre o tema da imortalidade. O protagonista, angustiado pela impossibilidade de morrer, tudo o que deseja, ao comparar-se aos demais indivíduos, é “ser frágil” e “decadente”. Daí a sua opção (a única que lhe resta e que lhe reserva algum sentido à vida de andarilho num parque) de passar a “admirar e cobiçar os mortais”, todos “abençoados porque morrerão”. O que o pequeno conto ensina é que, se a morte é mesmo a nossa principal angústia, a vida sem ela torna-se um grande pesadelo. A vida eterna não nos resolve a angústia de viver – eis a chave do conto. “Abismo” é narrado como lenda. Uma história de ódio, vingança e reparação. Um relato recortado de crueldade. Para vingar-se da esposa supostamente infiel, um camponês atira a filha do casal (imagem perfeita da mãe) num abismo situado nos fundos do quintal. Mas – e o achado poético vem na voz do narrador – “o abismo falava”. A criança passa então a suplicar, a pedir socorro. O pai, já de vida nova com outra mulher, resgata a filha do abismo – e os três (pai, filha e nova esposa) começam a conviver contentes na mesma casa de fazenda. Narrativa especular, com os papéis femininos permutados (a mulher desleal substituída pela mulher digna ou respeitosa) para recompor a imagem da felicidade familiar perdida. Mas o final feliz soa irônico. É que a harmonia familiar, em muitos casos, só pode ser representada mesmo à maneira de lenda (no sentido de “engodo” ou “fraude” que o termo agrega). Volta o tema da incomunicabilidade humana em “O Jardim”, em que o protagonista Pedro, por sugestão do velho Leôncio, tido entre os vizinhos como louco, passa a achar mais sensato conversar com plantas e flores do que com gente. Pedro, em dificuldades, desempregado, depressivo, deslocando-se até o “jardim encantado” de Leôncio, recebe os olhares de “compaixão” dos vegetais e ainda seus ensinamentos. O jardim termina o reanimando. Em “Invasão” a realidade irrompe no sonho numa situação bem típica dos nossos dias: o recinto em que um risonho casal, comendo pizza, tece planos para o futuro (afagam-se fantasiando um condomínio onde deverão morar “um dia”), é invadido por um mendigo à caça de “uns trocados”. Um incômodo, a súbita presença. De um lado, pessoas de posses; de outro, a penúria. A figura do pobre homem deixa “os clientes constrangidos”. O narrador resume os sentidos da situação quando, ao encerrar o relato, refere-se ironicamente ao mendigo como um “ladrão de sonhos”. Em “Eu, La Sombra e as Sobras” quem passa a operar o cotidiano do protagonista é sua sombra, que se transforma em tirana conselheira: “Aceitei La Sombra e considerei todas as suas palavras”. No fim, curiosamente, a sombra é o próprio ente que narra. Ecoa, assim, a metáfora das existências opacas, obscuras. “Gêneses” é a história de um assalto em que a vítima, transtornada ou tresloucadamente, tenta despistar o assaltante com conselhos e reflexões. Talvez resida aqui uma curiosa alegoria da retórica das elites – notadamente de certa classe média – em relação à violência urbana. O que vemos no pequeno conto são palavras de ordem que, de tão reiteradas, perderam o sentido, o poder de mobilização. Finalmente, “Gana” é um relato realista, quase uma crônica de nossa urbanidade carente e caótica. Um grupo, nas proximidades de uma faculdade, está em torno de uma barraca de cachorro quente, quando chega um menino e, como “pedra”, se senta próximo, no chão. Como “pedra”, fica despercebido – mas deixa um certo desconforto no ar. Após algum tempo, passa a pedir um sanduíche, que lhe é negado, inclusive por uma freira (que está ali também lanchando e dando aula de boas condutas). Irônica situação, de gente que come diante de uma frágil (mas também ameaçadora) figura faminta. Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situações de pobreza, estão entre as boas novidades da literatura brasileira recente. [...]
Escrito por Rinaldo de Fernandes às 08h49
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