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Entrevistado do mês ENTREVISTA EXCLUSIVA COM JOSÉ NÊUMANNE PINTO
José Nêumanne Pinto é jornalista, poeta e ficcionista. Nasceu em Uiraúna (PB), em 1951. Atualmente, vive em São Paulo, onde exerce as atividades de editorialista do Jornal da Tarde (do grupo de O Estado de S. Paulo) e de comentarista diário da Rádio Jovem Pan (“Direto ao assunto”) e do Jornal do SBT (primeira edição). Lançou os livros de poesia As tábuas do sol, Barcelona, Borborema e Solos do silêncio (poesia reunida). É autor ainda dos romances Mengele, a natureza do mal, Veneno na veia e O silêncio do delator, da reportagem Atrás do palanque e dos ensaios políticos Reféns do passado e A República na Lama. Organizou a antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século para a Geração Editorial/SP (2001). Rinaldo de Fernandes – A poesia significa para você o quê? Como cria um poema? José Nêumanne Pinto – A poesia é a loucura de minha lucidez e a lucidez de minha loucura. Se não fosse por ela, estaria em tratamento psiquiátrico – o que seria natural, porque, na prática, resulto de um incesto: meus pais são primos carnais. Já fiz poemas de várias formas. Uma vez, sonhei um poema inteiro, acordei no meio da noite e, para não incomodar minha mulher, escrevi-o sentado no vaso sanitário. Foi o caso do poema 25 da série Borborema, de Barcelona, Borborema. E isso se repetiu quando escrevi Poeira de estrelas, cuja primeira estrofe Zé Ramalho transformou em letra de nossa parceria Do norte do norte. Outra vez, não sonhei com o poema, mas apenas com seu ritmo. Desci para a sala e escrevi Verde. Como qualquer ex-adolescente, já fiz poemas sobre o amor velho, o amor novo e a rejeição. Há alguns soprados de um fôlego só e outros extraídos a fórceps ao longo de anos: a metade Barcelona é inteirinha trabalhada e a metade Borborema resulta toda da inspiração, nesse livro que acabo de citar. Pensei que jamais escreveria um poema por encomenda até que você me pediu um sobre Euclydes da Cunha para celebrar os 100 anos da primeira edição de Os sertões e escrevi Aboio do semi-árido. Rinaldo de Fernandes – Como foi o processo criativo do romance O silêncio do delator? É mais prazeroso escrever prosa ou poesia? José Nêumanne Pinto – A poesia é indolor. Vindo no jorro orgástico ou trabalhado no cinzel, o poema não resulta do sofrimento do parto criativo, mesmo que expresse a dor da alma ou do cotovelo. Prosa, para mim, é pior que extração de dente. O processo é todo dolorido, meu caro. Do começo ao fim. A primeira consciência deste prosador que lhe fala é a de que o livro não será escrito. Isso valeu para O silêncio do delator, que ganhou o prêmio de melhor livro de 2004 da Academia Brasileira de Letras, ou para Ninguém faz sucesso sozinho, que é de meu patrão Tuta Carvalho e do qual só escrevi o texto final. No meio do processo de escrita, sonho com outros projetos, o interrompo por qualquer besteira, finjo que não quero mais nem saber. Quando o retomo, é sempre com desconfiança. Do meio para o fim melhora um pouco, mas a angústia só passa no ponto final. Meu inimigo de infância Bráulio Tavares me ensinou um truque para lidar com essa maluquice: nunca fazer como a mulher de Lot e dar uma olhadinha para trás. É pegar o texto e ir em frente, mesmo que venha um trem. A receita de Bráulio que sigo à risca é só olhar para trás depois do ponto final. Tem dado certo, mas a tentação de virar estátua de sal é imensa. Quando termino o livro, me dá uma euforia de terça-feira de carnaval, logo seguida de uma náusea de quarta-feira de cinzas. Nunca li nenhum livro meu impresso. Rinaldo de Fernandes – Que autores você mais leu, que lhe deram a base para produzir literatura? Ainda os lê até hoje? José Nêumanne Pinto – Li Ulisses na adolescência na casa de meus pais na rua Rui Barbosa, no centro de Campina Grande. Foi uma leitura dolorosa, aos trancos e barrancos. Mas a porcaria do livro de James Joyce nunca me abandonou. Quando comecei O silêncio do delator, tinha a ilusão de que, enfim, meu lado Jorge Luis Borges, cujos textos leio com prazer enorme, afloraria. Que nada! Meu lado Joyce prevaleceu. É uma praga da qual nunca sei se um dia me livrarei. Adoraria escrever como J. D. Salinger, meu herói literário, mas tenho consciência de minhas limitações e acho que seria humilhante imitá-lo. Gostaria de escrever como Gay Talese, o colega jornalista que mais admiro, mas me falta sua elegância. No fundo, vivo fugindo do Winnetou, de Karl May, que li na adolescência no seminário redentorista de Bodocongó. Respondendo a sua pergunta, de repente descubro algo que não sabia: minha especial predileção pelos alemães. Os romancistas que mais devo ter lido na vida foram Karl May e Thomas Mann. Caramba, adoro A montanha mágica e José e seus irmãos. E dois de meus textos favoritos são O 18 brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx, e Psicopatologia da vida cotidiana, de Sigmund Freud. Adoro As palavras, de Jean-Paul Sartre, mas detesto o autor, um filósofo que se tornou um abjeto fâmulo de canalhas como Stalin e Mao Tse-tung. Sou absolutamente fissurado em Albert Camus. O estrangeiro é minha bíblia profana. Um dia ainda relerei As minas de prata, de José de Alencar, e também escreverei sobre minha infância algo semelhante ao que escreveram os Josés Lins do Rego (Meus verdes anos) e Américo de Almeida (Antes que me esqueça). Afinal, eu também não sou José, ora?
Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h28
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Rinaldo de Fernandes – O que é para você o regionalismo em literatura? O regionalismo atual o atrai? Por quê? José Nêumanne Pinto – Fogo morto, de José Lins do Rego, é uma obra-prima. Aquilo é regionalismo? Um dos livros mais bem escritos em língua portuguesa em todos os tempos é A bagaceira, de José Américo de Almeida, sempre citado como o iniciador do regionalismo na literatura brasileira. Será? O quinze, de Rachel de Queiroz, tem o que de regionalista? A paisagem? A palavra? Desculpe, rapaz, mas esse negócio de regionalismo me cheira a calhordice crítica. Regionalista é Joyce, que concentra seus temas em Dublin? Ou Borges, fascinado pelos compadritos dos subúrbios de Buenos Aires? Dickens, certamente, descrevendo os bairros miseráveis de Londres na virada da Revolução Industrial, haveria de sê-lo? A que regionalismo atual você se refere? Lêdo Ivo falando dos manguezais de Maceió a pretexto da morte? Ou a crônica mineirinha na cidade grande de Luiz Ruffato? Em matéria de regionalismo, eu nego que os bons o sejam e combato os maus - como fez Diogo Mainardi em seu excelente romance anti-regionalista nordestino. Rinaldo de Fernandes – O que ficou da experiência de escrever um livro sobre Luiza Erundina? Que personagem é esta da política, que, partindo do sertão paraibano, chegou a ser prefeita de São Paulo? José Nêumanne Pinto – A história de minha amiga e conterrânea uiraunense é espetacular. Muito melhor que aquele meu livro e olha que eu gosto muito dele, apesar de ser um dos poucos a gostarem. Imagine uma mulher pobre, sem atrativos sexuais, migrante e tenaz ganhar uma eleição municipal primeiro contra os preconceitos do PT e depois contra Paulo Maluf para a prefeitura da maior cidade da América do Sul. É barra, nêgo! É claro que, depois, ela foi dissolvida, absorvida, porque para completar além de tudo ela é honesta. E honestidade na política é defeito, não é qualidade. Sou amigo dela, admirador dela, eleitor dela. Apesar de sermos antípodas ideológicos, temos em comum uma honestidade intelectual, que herdamos de nossos pais, sertanejos de couro duro e coração mole. O dela, seleiro. O meu, motorista de caminhão. É incrível que o pai dela fabricava um utensílio para uso em transporte por animal e o meu transportava cargas Brasil afora. Ela está provando a enorme mobilidade social deste país imenso e eu tento registrar isso com o parco talento que Deus me deu. Rinaldo de Fernandes – Para você, o que é ser jornalista? O que definiria, efetivamente, o fazer jornalístico? José Nêumanne Pinto – Em julho de 1970, quando entrei pela primeira vez numa redação de jornal grande, a Folha de S.Paulo, levado pela mão por Eurícledes Formiga, que, na infância, ouvia meu pai adolescente tocar Os pobres de Paris no trompete em São João do Rio do Peixe, J. B. Lemos, meu pai jornalístico, me mandou ler o livro Aos olhos da multidão, do coleguinha americano Gay Talese. O livro, reeditado no Brasil sob o título de Fama e anonimato, deveria ser adotado por todos os cursos de jornalismo. O resumo dos perfis de personalidades e operários desconhecidos, fundando o chamado new journalism (novo jornalismo), para mim, passou a reunir a mais completa e precisa definição de jornalismo: é fugir das aparências, procurar a insignificância e revelar o aparentemente sem importância para contar a essência das coisas. Um dia destes, 39 anos depois daquele dia revelador para mim, me deparei com uma entrevista de meu ídolo, que veio para o piquenique literário de Paraty e eu nem fui ver, na qual ele me fez a revelação definitiva sobre a missão do jornalista. “Os jornalistas precisam ser lidos, vistos e ouvidos pelo público porque eles geralmente mentem menos”. Não é uma missão maravilhosa, esta nossa? Rinaldo de Fernandes – Você se sente constrangido quando o consideram um jornalista conservador? O que é ser conservador em jornalismo? José Nêumanne Pinto – Mas eu não sou um jornalista conservador. Muito ao contrário, meu caro. Meu herói ideológico é aquele espanhol anarquista da piada: “Hay gobierno, soy contra”. Não acredito em jornalismo domesticado. Meu lema, como comentarista de jornal, rádio e televisão, é parecido com o citado acima: todo bom jornalismo é hostil à autoridade. Por um motivo muito simples: mesmo nas democracias mais avançadas do mundo, as autoridades monarquistas ou republicanas, direitistas ou esquerdistas, tirânicas ou tolerantes, abusam do poder e massacram o cidadão com sua intolerância. E a missão da imprensa é ficar ao lado do cidadão contra a autoridade, ou melhor, a altoridade ou ainda a otoridade. Sou reconhecido, abraçado e cumprimentado na rua por tentar ser a voz do cidadão. Os domesticados, os bestalhões de botequim e, sobretudo, os apaniguados dos grupos no poder me detestam, não porque eu seja conservador, mas porque costumo por o dedo na ferida. Agora, por exemplo, identificam-me como um inimigo feroz de Lula. Lula é meu amigo pessoal, não sei de ninguém que tenha arrancado dele uma palavra ruim a meu respeito. Cláudio Lembo, quando governava São Paulo, ouviu dele, ao contrário, excelentes referências a meu respeito. Lula é esperto. Eu digo sempre que ele é o maior líder político que o Brasil já teve em todos os tempos. Mas para isso ele tem de se aliar com a rafameia da politicagem nacional: Jader Barbalho, José Sarney, Severino Cavalcanti. Ele se junta com essa gente e é de esquerda, um revolucionário? O conservador sou eu, é? Veja agora essa palhaçada em Honduras. Um latifundiário com seu ridículo chapelão e uma ficha corrida de matador de camponês virou herói da esquerda só porque é sabujo de Hugo Chávez, este por sua vez um ex-coronel golpista, que virou referência de esquerda porque lambe as botas do mais longevo tirano do planeta, o farsante cubano Fidel Castro, que de fiel não tem nada. Não aceito essas lorotas. Se ser conservador é isso, sou com muito orgulho. Não bajulo poderoso, não me associo com bandido. Lula precisa disso para governar? Tudo bem. Problema dele. Eu não preciso governar para viver bem. Vivo muito bem batendo no governo. Aceito com humildade as críticas que ouço e leio a meu respeito, embora, como Ariano Suassuna, preferia que falassem mal de mim apenas pelas costas. Mas isso não me incomoda nem me desvia do caminho. Sou independente, orgulho-me disso, não dependo de político canalha nenhum para sobreviver. Ao contrário, sobrevivo denunciando a canalhice deles. Depois, o significado das palavras é algo muito controverso. Dia destes, fiquei sabendo que os adversários de Anthony Garotinho no Estado do Rio de Janeiro passaram a acusá-lo de ser clone de Leonel Brizola. Antes de responder, ele teve a prudência de mandar pesquisar o que o povo achava. E descobriu que para a grande maioria do eleitorado fluminense clone significa inimigo. E agora sua diversão favorita é dizer que é mesmo clone do Brizola. E aí? Que tal? Num país onde mais de 80% do eleitorado acredita nas bazófias de Lulinha, seria uma tolice contar com a exatidão verbal como instrumento de comunicação. Noço líder é deus do lambão de caçarola porque sabe exatamente o que cada palavra significa para o povaréu. Ao contrário de alguns bestalhões da oposição que acham que ainda vivem nos tempos em que Jânio Quadros era popular porque falava difícil. Neste país de poucos alfabetizados, meu querido, dicionário é obra de ficção. E o pior é que não serve nem para fricção. (Leia as entrevistas anteriores do Blog: Moacyr Scliar em 12/12/2007; Nelson de Oliveira em 17/01/2008; Glauco Mattoso em 11/02/2008; Fabrício Carpinejar em 03/03/2008; André Sant’Anna em 23/03/2008; Luiz Ruffato em 27/04/2008; Fernando Bonassi em 20/05/2008; Marcelo Mirisola em 07/06/2008; Marçal Aquino em 21/07/2008; Ricardo Soares em 18/08/2008; Marcelino Freire em 13/09/2008; Raimundo Carrero em 27/10/2008; Hélio Pólvora em 14/12/2008; Ronaldo Correia de Brito em 30/03/2009; Affonso Romano de Sant’Anna em 26/04/2009; Daniel Piza em 25/05/2009; Lira Neto em 22/06/2009; Luiz Fernando Emediato em 13/07/2009; Deonísio da Silva em 29/08/2009; Manuel da Costa Pinto em 26/09/2009) (Próximo entrevistado: Mário Chamie*) * Por motivo de força maior, houve uma reprogramação: Mário Chamie, que seria o entrevistado de outubro, será o de novembro; e José Nêumanne Pinto, que seria o de novembro, passou a ser o de outubro.
Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h23
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Informe MAIS UM LANÇAMENTO DA EDITORA HORIZONTE

Recebi da simpática Eliane Alves, proprietária da Editora Horizonte, de Vinhedo (SP), o belo livro Carinhas(os) Urbanas(os), dos fotógrafos Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves. A editora de Eliane vem crescendo e está cada dia melhor, já com alguns títulos bastante interessantes nas áreas de arte, comunicação social, crítica literária, cultura, literatura e pedagogia. Confira o release de Carinhas(os) Urbanas(os) e dos outros títulos da editora no site (é só clicar): www.editorahorizonte.com.br
Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h39
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Informe NILTO MACIEL LANÇA SEUS “CONTOS REUNIDOS”

O escritor cearense Nilto Maciel acaba de lançar, pela editora Bestiário, de Porto Alegre, seus Contos reunidos – vol. 1, que reúne os livros Itinerário (1974 – 1990), Tempos de mula preta (1981 – 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). Na coletânea de Nilto há pelo menos uma obra-prima – “Punhalzinho cravado de ódio”. Conto extraordinário! Extremamente cinematográfico. Todo um universo da miséria urbana do Nordeste, com seus tipos e ambientes soturnos, é deflagrado em apenas duas páginas. A protagonista, a anã Ana, é um pobre-diabo. Mora na periferia de Fortaleza – a periferia pobre e penumbrosa do Pirambu. Ana cria galinhas e, diariamente, se dirige à mercearia de Bodinho para comprar milho para suas criações. Solitária, humilde das humildes criaturas, foi ficando áspera com a vida – daí armazenar “todos os ódios do Pirambu”. Um dia, cedo da tarde, sofre uma investida (um estupro, com a anuência de Bodinho, presente no ato) do cafajeste Pêu, um tipo bebedor, com o qual ela no passado “experimentou as primeiras dores” do sexo, e que, ao reencontrá-la na pequena e suja mercearia (“salpicada de escarros” e onde zunem “moscas alvoroçadas” e “pegajosas”), arreganha “os dentes podres”. Ana, nesse dia da mais cruel humilhação, do mais terrível rebaixamento, crava na virilha de Pêu um “punhalzinho enferrujado e cheio de ódio”. Poucos contos, na literatura brasileira contemporânea, têm a força de “Punhalzinho cravado de ódio”. Poucos pobres-diabos foram tão bem retratados em nossa ficção!
Escrito por Rinaldo de Fernandes às 20h12
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