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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


DOIS GÊNIOS SEM HERDEIROS

            por Marjorie Rodrigues*

(Matéria a sair em breve no Jornal do Campus, da USP)

 

Um deles é cético, cruel, de narrativa certeira. O outro, um malabarista da linguagem, criador de neologismos como “amormeuzinho” e “circuntristeza”. As histórias do primeiro se passam na cidade. As do outro, no sertão mineiro. Um é avesso ao misticismo, o outro é pura mágica. Mas, mesmo diferentes, Machado de Assis e Guimarães Rosa investigam a alma humana como pouquíssimos outros. Ambos mostram que, tanto no ralo cotidiano da classe média-alta do século XIX quanto no lento andar de um carro de bois, latejam questões universais. E mal nascia um, já morria o outro. Apenas três meses separam o nascimento de Rosa da morte de Machado, há 100 anos.

E eles não deixaram herdeiros. É o que pensa João A. Hansen, professor do departamento de Letras e estudioso do diabo em Grande Sertão: Veredas. “Machado e Rosa são buracos negros que chupam para dentro deles tudo o que está à sua volta. Suas obras são singulares, impossíveis de imitar sem que o ridículo seja imediato”, diz. “Como Dante e Joyce, Rosa se recusa a escrever numa língua degradada, a nossa, e reescreve a língua portuguesa”. Quanto a Machado, Hansen acha que lê-lo nos deixa “mais livres, porque ele não tem esperança nem medo”. A variedade que Rosa apresenta na forma, Machado apresenta no estilo. “Ele não é só realista. É tragicômico, paródico, humorado, terrível”. Mas não caia na besteira de tentar eleger o melhor. “É como eu disse a um repórter da Folha que me perguntou qual dos dois era o maior”, diz Hansen. “A literatura não é um concurso de Miss Geléia Real”.

Se compará-los ou imitá-los é ser ridículo, Rinaldo de Fernandes, professor da UFPB, não vê problema em reescrevê-los. Ele convidou vários autores – entre eles, Fernando Bonassi e Silvano Santiago – a criar sua própria versão para contos de Sagarana ou partes do Grande Sertão. A coletânea, chamada Quartas Histórias (Garamond), foi publicada em 2006. “Sempre reúno escritores consagrados, emergentes e jovens promessas. E não dou exclusividade ao eixo Rio-São Paulo”, conta. O resultado o surpreendeu. “Há escritor que pôs Rosa no morro carioca”. Para comemorar o centenário, Rinaldo preparou também uma coletânea sobre Machado. Em julho, ele lança “Capitu mandou flores” (Geração Editorial), com ensaios e recriações. Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Marcelo Coelho são alguns dos nomes presentes no livro.

Diferentemente de Rinaldo, para quem “a literatura atual não está em entressafra coisa nenhuma”, Georg Ottes, professor da UFMG que estuda o diário de Guimarães Rosa à época da 2ª Guerra Mundial (quando ele era cônsul-adjunto em Hamburgo), acha que falta “amor pela diferença”. “O estranho atrai Rosa. O amor pela diferença permeia sua obra literária e o diário. Hoje, a diferença é exibida – na literatura gay, por exemplo - com precisão anatômica. Parece que a literatura se tornou playground da transgressão. Mas a transgressão em si, como a diferença em si, não vale nada se não despertar um interesse que vá além do voyerismo”, diz. Para Otte, ninguém abordou melhor a homossexualidade do que Rosa, com Riobaldo e Diadorim. “Diadorim pode ser um jagunço falso, mas as dúvidas de Riobaldo quanto à própria ‘macheza’ são verdadeiras”. Sua companheira na análise do diário, Eneida de Souza, também admira o amor de Rosa pela diferença. “Ele trazia em si o gosto pela aventura, pelo novo e o inusitado, computando tudo que passasse por suas mãos”. Eneida diz que, no diário, já está o “germe do escritor”.

Há, porém, quem reclame da complexidade das obras de Rosa e Machado, geralmente identificadas como “livros de vestibular”. João Hansen acha que o interesse pelos dois está restrito a “pequenos grupos, como os especialistas da universidade”, o que lamenta. “Eles não ensinam nada, mas o que escrevem é tão condensado de história que a leitura deles vale por muita universidade”, diz. O segredo é vencer o estranhamento inicial. “É sempre difícil, mas ao mesmo tempo prazeroso”, diz Eneida. Já Ottes, que é alemão, encarou o Grande Sertão assim que chegou ao Brasil, aos 28 anos. “É difícil para quem quer entender tudo na primeira leitura e não aceita não entender uma série de coisas. Somos todos estrangeiros ao ler o Grande Sertão“, afirma.

 

* Marjorie Rodrigues é estudante da ECA-USP e escritora.

 

(O Blog voltará a ser atualizado na próxima quinta-feira, 26/06; bom São João!)

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h01
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PRÊMIO PORTUGAL TELECOM

 

LISTA DOS LIVROS VOTADOS - 2008

 

Título

Autor

Editora

Categoria

A cara da mãe

Livia Garcia-Roza

Companhia das Letras

CONTO BRASILEIRO

20 poemas para seu walkman

Marília Garcia

Cosac Naify / 7Letras

POESIA BRASILEIRA

A arte de semear estrelas

Frei Betto

Rocco

CONTO BRASILEIRO

A chave de casa

Tatiana Salem Levy

Record

ROMANCE BRASILEIRO

A copista de Kafka

Wilson Bueno

Editora Planeta do Brasil

ROMANCE BRASILEIRO



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 08h14
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Todos os dias

Jorge Reis-Sá

Record

ROMANCE PORTUGUÊS

Um rio corre na lua

Ruy Espinheira Filho

Editora Leitura

ROMANCE BRASILEIRO

Vale tudo - O som e a fúria de Tim Maia

Nelson Motta

Objetiva

BIOGRAFIA BRASILEIRA

Visão do térreo

Ruy Proença

Editora 34

POESIA BRASILEIRA



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 06h13
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Rakushisha

Adriana Lisboa

Rocco

ROMANCE BRASILEIRO

Rilke shake

Angélica Freitas

Cosac Naify / 7Letras

POESIA BRASILEIRA

Rio dos bons sinais

Nelson Saúte

Língua Geral

CONTO MOÇAMBICANO

Sobre pessoas

Antônio Torres

Editora Leitura

CRÔNICA BRASILEIRA

Blues à Tarde

José Antonio Muassab França

Multifoco

POESIA BRASILEIRA

Toda terça

Carola Saavedra

Companhia das Letras

ROMANCE BRASILEIRO



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 06h13
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O texto ou a vida - uma trajetória literária

Moacyr Scliar

Bertrand Brasil

AUTOBIOGRAFIA BRASILEIRA

Ódio sustenido

Nelson de Oliveira

Língua Geral

CONTO BRASILEIRO

Olympia

Fausto Wolff

Editora Leitura

ROMANCE BRASILEIRO

Os da minha rua

Ondjaki

Língua Geral

CONTOS ANGOLANOS

Página órfã

Régis Bonvicino

Martins Editora

POESIA BRASILEIRA

Quaradouro

Iacyr Anderson Freitas

Nankin Editorial

POESIA BRASILEIRA



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 06h12
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O homem da quitinete de marfim

Marcelo Mirisola

Record

CRÔNICA BRASILEIRA

O outro lado

Ivan Junqueira

Record

POESIA BRASILEIRA

O príncipe maldito

Mary Del Priore

Objetiva

BIOGRAFIA BRASILEIRA

O romance morreu

Rubem Fonseca

Companhia das Letras

CRÔNICA BRASILEIRA

O sabor da fome

Salim Miguel

Record

CONTO BRASILEIRO

O sol se põe em São Paulo

Bernardo Carvalho

Companhia das Letras

ROMANCE BRASILEIRO



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 06h10
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Longe de Manaus

Francisco José Viegas

Record

ROMANCE PORTUGUÊS

Meu filho, minha filha

Fabrício Carpinejar

Bertrand Brasil

POESIA BRASILEIRA

Morder-te o coração

Patrícia Reis

Língua Geral

ROMANCE PORTUGUÊS

Na multidão

Luiz Alfredo Garcia-Roza

Companhia das Letras

ROMANCE POLICIAL BRASILEIRO

O amor não tem bons sentimentos

Raimundo Carrero

Iluminuras

ROMANCE BRASILEIRO

O filho eterno

Cristovão Tezza

Record

ROMANCE BRASILEIRO



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 06h10
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Era no tempo do rei

Ruy Castro

Objetiva

ROMANCE BRASILEIRO

Eu hei-de amar uma pedra

António Lobo Antunes

Objetiva

ROMANCE PORTUGUÊS

Histórias de literatura e cegueira

Julián Fuks

Record

CONTO BRASILEIRO

Invenção do desenho

Alberto da Costa e Silva

Nova Fronteira

BIOGRAFIA BRASILEIRA

Joaquim Nabuco

Angela Alonso

Companhia das Letras

BIOGRAFIA BRASILEIRA

Laranja seleta

Nicolas Behr

Língua Geral

POESIA BRASILEIRA



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 06h09
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Baque

Fabio Weintraub

Editora 34

POESIA BRASILEIRA

Casa entre vértebras

Wesley Peres

Record

ROMANCE BRASILEIRO

Conspiração de nuvens

Lygia Fagundes Telles

Rocco

MEMÓRIA BRASILEIRA

Corta a noite um gemido

Reynaldo Valinho Alvarez

Myrrha

POESIA BRASILEIRA