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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Quartas Histórias na Sorbonne

 

SAIU NO DIÁRIO DE PERNAMBUCO

 

  

 

Quartas histórias, organizado pelo contista e professor

Rinaldo de Fernandes e editado pela Garamond, no ano

passado, será objeto de leitura nas aulas de Literatura

Brasileira na Sorbonne. Jacqueline Penjon, titular da

matéria, fez da obra de Guimarães Rosa tema de sua tese

de doutorado e está curiosa para ver como os autores desse

livro idealizado por Rinaldo releram e revisitaram contos ou

novelas do autor de Grande sertão: veredas.”

(In: Coluna “Letras às Terças”, de Luzilá Gonçalves – 08/01/2008)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h57
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ENTREVISTA EXCLUSIVA

COM LUIZ RUFFATO

 

 

Luiz Ruffato é contista e romancista. Autor, entre outros, de

Eles eram muitos cavalos (2001 – Prêmio da APCA/Associação

Paulista dos Críticos de Arte), Mamma, son tanto felice (2005),

O mundo inimigo (2005 – Prêmio da APCA) e Vista parcial da

noite (2006 – finalista do Prêmio Jabuti). Tem pronto O livro das

impossibilidades. Nasceu em Cataguases (MG).

 

Rinaldo de Fernandes – O que significa Cataguases para você?

Sua literatura parece se alimentar muito da memória. A memória

é até que ponto importante para o escritor?

Luiz Ruffato – Sempre digo que foi um privilégio para mim ter

nascido em Cataguases. Não por causa do movimento literário

modernista que lá houve na década de 20 ou pelo começo do

cinema brasileiro com o Humberto Mauro, à mesma altura. Isso

não faz parte do meu mundo afetivo. Mas sim pelo fato de

Cataguases ser, desde a primeira década do séc. XX, uma cidade

industrial no meio de um decadente mundo rural. Com isso,

acompanhei efetivamente a mais importante mudança política,

econômica e social da História do Brasil, o vertiginoso processo

de industrialização (e conseqüente urbanização), que resultou

nesse país contemporâneo, onde o ultramoderno convive (mal,

evidentemente) com o primitivo. Só para exemplificar, no mesmo

espaço a medicina de ponta convive com a morte por diarréia;

pessoas gastam milhões de reais em shoppings de luxo, enquanto

ao lado outras não têm onde morar decentemente... Ou,

resumindo, com Caetano Veloso: “aqui neste país o

que está em construção já é ruína”.

 

Rinaldo de Fernandes – Como surgiu a idéia do romance Eles

eram muitos cavalos, já traduzido para algumas línguas? Os

ensaístas que, recentemente, produziram o livro Uma cidade

em camadas, no qual interpretam o seu romance, conseguiram

lhe agradar? Por quê?

Luiz Ruffato – Desde meu primeiro livro, queria escrever algo

sobre São Paulo, uma espécie de tributo à cidade que me recebeu

sem perguntar filho de quem eu era, como em Minas, e acredito

que em outras partes do país, é comum. Só que achava, ainda acho,

São Paulo uma cidade inapreensível. Ela cresce desordenadamente

e a paisagem muda da noite para o dia, literalmente. Não podia

então usar as formas convencionais do romance burguês para tentar

captar essa dinâmica. Então, busquei maneiras alternativas de

compreendê-la, trazendo para as páginas do livro as várias

linguagens em que a cidade pode ser traduzida: a publicidade, o

jornalismo, o teatro, o cinema, a música, as artes plásticas, a

descrição, a narração, a poesia... Eu não nomeio Eles eram muitos

cavalos como “romance”, mas sim como “instalação literária”.

Quanto ao livro Uma cidade em camadas, organizado pela

professora norte-americana Marguerite Harrison e com ensaios

de quinze críticos de vários países, considero-o uma homenagem

ao livro, que, em seis anos, emplacou seis edições (portanto,

uma por ano), virou peça de teatro (Mire Veja, pela Companhia

do Feijão, de São Paulo), ganhou prêmios importantes e foi

traduzido. As interpretações? Quando um livro vai para o mercado,

ele não pertence mais ao autor. Todas as interpretações são

válidas e a do autor passa a ser apenas mais uma... Nem a

melhor, mas apenas mais uma...

 

(continua abaixo a entrevista)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h07
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Rinaldo de Fernandes – Você enveredou pelo ensaio, escrevendo

Os Ases de Cataguases contribuição para a história dos

primórdios do Modernismo? Pode falar sobre esse texto?

Luiz Ruffato – Eu só vim a descobrir que Cataguases era uma

cidade importante para a história da literatura, do cinema e da

arquitetura brasileiras depois que saí de lá. Então, muitos e muitos

anos depois, tentei fazer uma reflexão sobre a minha cidade, mas

para buscar explicações... Todos os críticos que lia falavam num

“fenômeno” Cataguases, como se houvesse algo na água, no solo

ou no ar da cidade que proporcionasse a ela uma população

diferenciada... Ora, isso, para mim, nunca passou de uma grande

imbecilidade... Devia haver explicações razoáveis... E foi o que

empreendi: mostrei (provisoriamente, claro, porque alguém pode

fazer outras pesquisas e chegar a conclusões diferentes ou

aprofundar as minhas), mostrei neste livro que havia condições

objetivas para que lá nascesse uma revista modernista, um

arremedo de cinema e, posteriormente, a implantação de uma

espécie de laboratório de arquitetura moderna. As condições

objetivas eram fartura de capitais (a burguesia industrial havia

se aliado à antiga aristocracia cafeeira) e uma classe média ávida

para impor seus gostos...

 

Rinaldo de Fernandes – Você tem formação em jornalismo. Como

pensa a relação jornalismo e literatura dentro de sua obra? O

jornalismo foi bom para a sua literatura?

Luiz Ruffato – Minha literatura não mantém nenhuma relação com

o jornalismo. Fui jornalista como alguém é médico ou engenheiro

e escreve prosa de ficção. Sempre tive muito claro para mim que

não deveria misturar os canais. O jornalismo, do ponto de vista

estético, não me ensinou nada, não me ajudou em nada. Mas não

me atrapalhou também. Foi uma profissão como outra qualquer.

O que o jornalismo me deu foram ganhos extraliterários, como, por

exemplo, disciplina para escrever, e principalmente a certeza de

que é possível, e extremamente digno, viver de escrever...

 

Rinaldo de Fernandes – Fale do projeto Inferno provisório, que

envolve a produção de uma narrativa em vários volumes, alguns

deles já publicados pela Ed. Record. Você pretende com esse

projeto escrever mesmo um painel do Brasil moderno, as suas

relações de trabalho, a sua cultura que mescla, não sem tensões,

o universo rural com o urbano?

Luiz Ruffato – Eu acredito na capacidade de a literatura modificar

o mundo, modificando cada um dos leitores. Foi assim comigo: eu

tive uma epifania ao ler meu primeiro livro e percebi que dali para

a frente nada mais seria igual. A realidade brasileira se impõe a

mim, porque o que me move é o olhar da indignação. Não sou

cúmplice da miséria que se alastra pelo país, não sou cúmplice da

violência, filha do desenraizamento, que toma o Brasil. A minha

obra tenta uma reflexão sobre a seguinte pergunta: como chegamos

onde estamos? O Inferno provisório é um convite para repensar

a história do Brasil nos últimos 50 anos. Serão cinco volumes os

três primeiros já publicados (eles estão saindo também quase

simultaneamente na França): Mamma, son tanto felice trata da

questão do êxodo rural nas décadas de 50 e 60; O mundo inimigo

discute a fixação do primeiro proletariado numa pequena cidade

industrial (década de 60 e começo da de 70); Vista parcial da noite

descreve o embate entre os imaginários rural e urbano, nas

décadas de 70 e 80. O quarto volume, a ser publicado este ano,

O livro das impossibilidades, registra as mudanças comportamentais

das décadas de 80 e 90. E, finalmente, o quinto e último volume

chega até os nossos tempos, começo do séc. XXI.

 

(continua abaixo a entrevista)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h00
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Rinaldo de Fernandes – Algumas narrativas suas já publicadas

reaparecem em outros livros. Essa “intratextualidade” lhe é um

recurso importante?

Luiz Ruffato – Meu texto nunca me satisfaz. Por isso, reescrevo

sempre. Os meus dois primeiros livros, Histórias de remorsos e

rancores e (os sobreviventes) foram totalmente reescritos e

reaproveitados no Inferno provisório. E assim que qualquer livro

meu é publicado, imediatamente separo um exemplar, de trabalho,

e começo a revê-lo... Por isso digo que não sou escritor, mas

reescritor. Não me interessa nunca fixar o porquê, mas sim o como.

 

Rinaldo de Fernandes – Que autores você destacaria na ficção

brasileira contemporânea? Por quê?

Luiz Ruffato – A literatura brasileira contemporânea é um vasto

oceano, do qual conheço umas pouquíssimas ilhas... E se citar

nomes, vou citar dos meus amigos, o que pode ser simpático,

mas talvez não justo... Por isso, prefiro me omitir.

 

(Leia as entrevistas anteriores do Blog: Moacyr Scliar em

12/12/2007; Nelson de Oliveira em 17/01/2008; Glauco

Mattoso em 11/02/2008; Fabrício Carpinejar em 03/03/2008;

André Sant’Anna em 23/03/2008)

 

(Próximo entrevistado: Fernando Bonassi)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h55
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