Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Maria Alzira Brum Lemos
 Linaldo Guedes
 Rascunho
 Cronópios
 O Muro & Outras Páginas
 Eduardo Sabino
 Amador Ribeiro Neto
 Astier Basílio
 Edson Cruz
 Sibila
 Glauco Mattoso
 PublishNews
 Portal Literal
 Ana Peluso
 Ricardo Soares
 Marcelino Freire
 Paulo Bentancur
 Editora Horizonte (Eliane Alves)


 
BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Informe

 

PALESTRA EM JUIZ DE FORA

Estarei nesta sexta-feira, 26 de novembro, em Minas Gerais, fazendo uma palestra no seminário Euclides da Cunha: Cem Anos Sem, promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora. São os seguintes os palestrantes e os títulos dos trabalhos a serem apresentados no evento (que vai de 25 a 27/11): Daniel Piza (do jornal O Estado de S. Paulo) – “Euclides da Cunha”; Marcos Rogério Cordeiro (da UFMG) – “Euclides da Cunha e a tradição literária brasileira”; Luiz Costa Lima (da PUC-Rio) – “Os Sertões, a antropologia biológica e o nacionalismo”; Flávio René Kothe (da UnB) – “Euclides da Cunha – sintoma do cânone”; Rinaldo de Fernandes (da UFPB) – “A Canudos de Vargas Llosa”; e Aleilton Fonseca (da UEFS) – “Canudos e o Pêndulo de Euclides – novas vozes, outras viagens”. A organização do seminário vai reunir e publicar todos os textos apresentados numa revista acadêmica. Para quem não sabe, fiz meu doutorado na Unicamp sobre o romance A guerra do fim do mundo, do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Sobre Euclides da Cunha organizei, em 2002, para a Geração Editorial, O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões, livro que virou referência nos estudos euclidianos e que é encontrado nas boas livrarias do país.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h21
[] [envie esta mensagem] []



Entrevistado do mês

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA

COM MÁRIO CHAMIE    

  

Mário Chamie é poeta, ensaísta e ficcionista. Lançou, em 1962, o movimento da Poesia Práxis, um dos mais importantes da vanguarda brasileira. Publicou, entre outros, Lavra lavra (1962, do qual consta um manifesto do poema práxis), Intertexto (1970, abordagem dialógica de Macunaíma, de Mário de Andrade), Objeto selvagem (1977, poesia reunida), Caravana contrária (1998, poesia), Caminhos da Carta: uma leitura antropofágica da Carta de Pero Vaz de Caminha (2002), A palavra inscrita (2004, ensaios) e Paulicéia dilacerada (2009, ficção). Ganhou, em 1962, o Prêmio Jabuti. Nasceu em Cajobi (SP) e vive na capital paulista.

 

 

Rinaldo de Fernandes – Você acabou de lançar Paulicéia dilacerada, que tem Mário de Andrade como personagem central. O autor de Macunaíma ocupa bom espaço em sua obra ensaística. Se não me engano, o seu primeiro livro sobre Mário é o hoje ainda aplaudido Intertexto?

Mário Chamie – Posso dizer que, em termos de livro que analisa e interpreta a rapsódia macunaímica, Intertexto, publicado em 1970, é sem dúvida o primeiro que escrevi. Mas o meu interesse pela obra polifônica de Mário vem desde os fins dos anos cinqüenta e permanece ao longo dos anos sessenta. Se considerarmos, por exemplo, os nossos movimentos de vanguarda dos anos 50/60, vamos verificar que o movimento dogmático do Concretismo valorizava unilateralmente Oswald de Andrade, ao passo que a antidogmática Poesia Práxis, sem desconsiderar Oswald, procedia a uma releitura inventiva do multifacetado discurso literário de Mário, em seu espectro cultural mais amplo. Foi dentro desse espectro que escrevi, em 1967, o ensaio “O Militarismo em Caixa Alta”, calcado nos poemas modernistas de Losango cáqui.

 

Rinaldo de Fernandes – Como “a releitura inventiva”, a que você se refere, comparece no livro Intertexto? Esse seu estudo traz alguma contribuição especial, serve-se de fontes ainda não exploradas para a interpretação de Macunaíma, enquanto escrita rapsódica?

Mário Chamie – Aqui, é preciso levar em conta que, até 1970, o livro Macunaíma tinha merecido apenas uma abordagem de fôlego, e de extraordinária importância, que foi e é o pioneiro Roteiro de Macunaíma (1950), escrito por M. Cavalcanti Proença. As bases, os alicerces e a finalidade do trabalho de Cavalcanti Proença restringiram-se ao folclore, ao lendário amazônico e aos traços etnológicos e etnográficos que inspiraram Mário de Andrade na composição de sua obra...

 

Rinaldo de Fernandes – E o seu Intertexto veio então...

Mário Chamie – Bom, Intertexto, a segunda maior abordagem de fôlego de Macunaíma, muda o foco, a direção da pesquisa e o método de análise da rapsódia em questão. Pela primeira vez, essa nossa rapsódia é avaliada como um discurso dialógico, no qual vários textos dialogam entre si e promovem a revelação de camadas e camadas de significados culturais, até então não trazidas à tona pela crítica brasileira. Os efeitos dessa primeira leitura intertextual foram fecundos, como bem o demonstra Gilda de Mello e Souza, em seu livro O Tupi e o Alaúde.

 

Rinaldo de Fernandes – Mas, parece que você não estacionou aí. Essa sua primeira leitura teve desdobramentos e seqüências características. De 1970 para cá, você lançou vários títulos, envolvendo poesia, ensaio e ficção. Entre esses títulos, surgiram mais dois dedicados à escrita de Mário de Andrade. Um, publicado em 1972, intitula-se A transgressão do texto, e outro, publicado em 1975, traz o título de Mário de Andrade: discurso carnavalesco. Trinta e quatro anos depois, você lança, agora, Paulicéia dilacerada. Haveria, aí, embutida a idéia de um processo interpretativo “in progress” da diversificada obra do seu xará modernista?

Mário Chamie – A coisa é mais simples do que parece...



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h25
[] [envie esta mensagem] []



Rinaldo de Fernandes – Pode explicar?

Mário Chamie – As visões acadêmicas, e mais estabelecidas, do que deva ser a prática da inteligência crítica costumam ser reféns passivas de cânones e gêneros literários consagrados pela tradição. Na verdade, os meus dois livros (A transgressão e Discurso carnavalesco), que se seguiram a Intertexto, são ampliações aprofundadas e complementares das pesquisas realizadas por mim sobre o conjunto da escrita marioandradina. Uma escrita, é bom que se diga, que passa à margem de cânones e gêneros fixos. Além disso, esses meus três livros ocupam-se do escritor e do intelectual Mário de Andrade, hábil em esconder-se sob máscaras, personas e personagens. Já Paulicéia dilacerada empenha-se em fisgar o homem Mário sem as roupagens do disfarce.

 

Rinaldo de Fernandes – Essa seria a razão pela qual poderíamos afirmar que o Paulicéia dilacerada não pertence a nenhum gênero literário específico, porque comporta todos ao mesmo tempo?

Mário Chamie – Creio que sim. Afinal, Mário ao se declarar um homem plural (não se dizia um, mas “trezentos e cinqüenta”), confessava-se uma pessoa (não uma personagem) contraditória, ambígua, sofrida, penitente e simulada. A demissão que o afastou do Departamento de Cultura, da cidade de São Paulo, “desnudou” essa sua pessoa subterrânea. Daí que o seu “monólogo póstumo dialogado”, em Paulicéia dilacerada, pode ser lido ou como ficção (conto, narrativa), ou como ensaio (análise de Drummond, Vinicius, Cabral ou Bandeira) ou como poesia e memória. O livro é composto de dezessete momentos e um colofão, tal qual Macunaíma, que é composto de dezessete capítulos e um epílogo. Cada capítulo vale por si, e todos se entrelaçam na formação orgânica de uma narrativa que conjuga fatos e ficção, no andamento da obra.

 

Rinaldo de Fernandes – Mário de Andrade foi um dos idealizadores da Biblioteca Municipal que, hoje, leva o seu nome. Você criou, construiu e inaugurou o Centro Cultural São Paulo. Essa coincidência estabelece alguma afinidade de propósitos entre os dois Mários, já que você comparece, em Paulicéia dilacerada, sob o anagrama de Máior (acento agudo no a) Hacime (com H aspirado)?

Mário Chamie – É uma hipótese a ser pensada, pois acredito que há mários que vem para o bem, e dos mários o menor, que sou eu!

 

 

(Leia as entrevistas anteriores do Blog: Moacyr Scliar em 12/12/2007; Nelson de Oliveira em 17/01/2008; Glauco Mattoso em 11/02/2008; Fabrício Carpinejar em 03/03/2008; André Sant’Anna em 23/03/2008; Luiz Ruffato em 27/04/2008; Fernando Bonassi em 20/05/2008; Marcelo Mirisola em 07/06/2008; Marçal Aquino em 21/07/2008; Ricardo Soares em 18/08/2008; Marcelino Freire em 13/09/2008; Raimundo Carrero em 27/10/2008; Hélio Pólvora em 14/12/2008; Ronaldo Correia de Brito em 30/03/2009; Affonso Romano de Sant’Anna em 26/04/2009; Daniel Piza em 25/05/2009; Lira Neto em 22/06/2009; Luiz Fernando Emediato em 13/07/2009; Deonísio da Silva em 29/08/2009; Manuel da Costa Pinto em 26/09/2009; José Nêumanne Pinto em 31/10/2009)

 

(Próximo entrevistado: Antonio Carlos Secchin)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h17
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

LIVRO DE LUIZ FERNANDO

EMEDIATO VAI VIRAR FILME 

 

  

Luiz Fernando Emediato, autor do livro O outro lado do paraíso 

 

  

O escritor e editor Luiz Fernando Emediato (proprietário da Geração Editorial, pela qual já publiquei três antologias) terá seu livro O outro lado do paraíso adaptado para o cinema por Walter Carvalho (o mesmo diretor de Budapeste, baseado no livro homônimo de Chico Buarque). O período de produção do longa-metragem vai agora do segundo semestre de 2009 até o segundo semestre de 2010, quando ocorrerá a estréia. A Sincrocine, a Amberg Filmes, a Geração Editorial e a Mercado Cultural – Produções e Eventos estão por trás da produção do longa. O filme será “um épico que mostrará Brasília nos dias atuais e, pelas memórias do protagonista, a saga de uma família que saiu de Minas Gerais em 1963, mudando-se para Brasília”. Parabenizo e mando daqui o meu abraço ao Emediato!

 

Mais informações no site da Geração Editorial (é só clicar): http://www.geracaobooks.com.br/ (uma janela, contendo todas as informações acerca do filme, abrirá assim que o acesso ao site for feito). 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h35
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

COMEÇA A “BALADA LITERÁRIA”  

 

Antologia Quartas Histórias, que lançei

na "Balada Literária" de 2006

 

 

Começa hoje, 19 de novembro, e vai até o dia 22, em vários pontos da cidade de São Paulo, a quarta edição da “Balada Literária”, evento criado e organizado pelo pernambucano Marcelino Freire. É um evento cuidadosamente preparado pelo Marcelino, que, além de escritor, é agitador cultural. Em 2006, participei da primeira versão da “Balada”. Compus uma mesa, junto com Flávio Moreira da Costa e Ivana Arruda Leite, que discutiu antologias literárias. Naquele ano, eu tinha organizado as antologias Contos Cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea e Quartas Histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (esta última teve lançamento durante a própria “Balada”, na Mercearia São Pedro). Das Quartas Histórias consta o meu conto “Sariema”, que vai ser publicado na França em breve, na revista bilíngüe Plural/Plurel. Veja a programação – por sinal, excelente – da “Balada Literária” deste ano no site abaixo (é só clicar):

 

http://baladaliteraria.zip.net/

 

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h44
[] [envie esta mensagem] []



Entrevistado do mês

 

MÁRIO CHAMIE BOMBÁSTICO!  

 

 

 

O entrevistado do mês do Blog é o poeta e ensaísta Mário Chamie, que fala de seu novo livro Paulicéia dilacerada e de seus estudos sobre Mário de Andrade. E fala mais:

 

 

“...o movimento dogmático do Concretismo valorizava unilateralmente Oswald de Andrade”

 

 

Entrevista imperdível! Em breve no Blog!



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h49
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

LITERATURA REGIONAL

EM DESTAQUE   

 

O poeta e professor Carlos Gildemar Pontes,

um dos organizadores do I ENCLIR

 

De 08 a 10 de dezembro acontecerá, na Universidade Federal de Campina Grande, no campus de Cajazeiras, o I ENCLIR – Encontro de Literatura Regional: o Popular, o Erudito e suas Interfaces. Recebi o convite (que muito me honrou) do poeta e professor Carlos Gildemar Pontes para fazer a conferência de abertura do Encontro, na qual discorrerei sobre o conceito e a evolução da literatura regionalista no Brasil. Também ministrarei no I ENCLIR, por três dias, um minicurso sobre o mesmo tema da conferência. Qualquer pessoa interessada pode se inscrever para participar do evento no site (é só clicar): http://enclir-ufcg.blogspot.com/



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h06
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

LANÇADA A REVISTA MAMÍFEROS   

       Tércia Montenegro, que edita a revista Mamíferos

 

Tendo como editores Tércia Montenegro, Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Nerilson Moreira, Jesus Irajacy e Glauco Sobreira, e com projeto gráfico e editoração de Saul Ferreira, foi lançada em Fortaleza o primeiro número da revista literária Mamíferos. Trata-se de uma bela publicação, muitíssimo bem editada, com textos de ótima qualidade. Neste primeiro número destaque para um conto inédito de Dalton Trevisan e uma entrevista exclusiva com a escritora cearense Ana Miranda, que acaba de lançar o romance Yuxin pela Companhia das Letras (a revista traz como encarte a reprodução de uma página do texto original do romance, contendo os retoques e riscos feitos pela escritora antes da versão definitiva – página interessante para aqueles que trabalham com crítica genética). Há ainda dois contos curtos de Hemingway e uma matéria sobre a geração Pós-Clã (ou seja, a geração que veio após o Grupo Clã, importante movimento que instaurou o modernismo nas letras cearenses). Vale a pena adquirir a revista Mamíferos pelo e-mail: paramamiferos@gmail.com

Agradeço, e mando daqui o meu abraço, à Tércia Montenegro (excelente ficcionista) pelo envio do primeiro número da revista.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h11
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

LIVROS NA UNIVERSIDADE DO TEXAS

 

 

 

Se você for a qualquer biblioteca pública do Brasil, mesmo às das universidades, dificilmente encontrará todos os títulos de um autor brasileiro contemporâneo. Se for às livrarias universitárias, piorou. Pois veja isto: estão disponíveis em uma das bibliotecas da Universidade do Texas (Austin) praticamente todos os títulos de muitos dos autores brasileiros contemporâneos. Praticamente todos os meus livros, de Rita no Pomar ao Clarim e a Oração, passando pelo Chico Buarque do Brasil (que continua um grande sucesso de vendas – acabou de ganhar mais uma de suas inúmeras reimpressões –, e que, quando lançado em 2004, passou quatro semanas na lista de mais vendidos do Caderno Idéias do JB) e pelos Contos Cruéis (este, além de continuar vendendo bem em livrarias, entrou para o PNBE – Programa Nacional de Biblioteca na Escola de 2008), bom, praticamente todos os meus livros (faltam só dois, dos oito que já lancei) estão disponíveis em uma das bibliotecas da Universidade do Texas. Eis o que nos difere de um país do Primeiro Mundo. Confira abaixo o site da Universidade do Texas (é só clicar):

 

 

http://catalog.lib.utexas.edu/search~S29?/aFernandes%2C+Rinaldo+de./afernandes+rinaldo+de/-3%2C-1%2C0%2CB/exact&FF=afernandes+rinaldo+de&1%2C6%2C

 

 

(PS: A antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século, que preparei em 2001 para o jornalista José Nêumanne Pinto e que foi um outro sucesso de vendas, também consta do site)

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h12
[] [envie esta mensagem] []



Coluna Rodapé

Out./2009

 

A ESTRUTURA DO BESTIÁRIO,

DE CORTÁZAR (3)   

   

Abordando as cenas finais do conto Bestiário, de Julio Cortázar. CENA 6: Descreve os cuidados dos moradores de Los Horneros com relação aos passos do tigre na estância. Os cuidados do capataz, Dom Roberto. A grande confiança que Luís deposita nas informações dele. A necessidade de os membros da família também se comunicarem entre si, de estarem sempre vigilantes. Daí Isabel - que num primeiro momento não ganha tanta confiança, por ser mais jovem que Nino (portanto por parecer mais infantil) - também cumprir as regras da casa, adquirindo com os dias, e do mesmo modo que Nino (sempre "grudado às saias" dela), a necessária confiança dos demais. É uma cena importante, pois Isabel - que nunca quer "passar por boba", sobretudo aos olhos de Rema - é chamada agora para uma responsabilidade: a de, reitere-se, atentar cotidianamente para os passos do tigre. CENA 7: Traz a carta de Isabel à mãe. A descrição de seu cotidiano em Los Horneros. As brincadeiras, o herbário ("muito grande") que ela faz com Nino. O mais importante da carta: o modo como a menina interpreta o temperamento dos Funes (Rema triste; Luís bom, mas também triste). O perigo que representa o tigre, a ação vigilante de Dom Roberto (e até a aflição deste quando uma tarde quase se engana com relação à localização do animal). Isabel silencia na carta alguns dados importantes - o principal deles é que Rema "chora à noite". Há ainda o diálogo que a menina ouve entre Luís e Rema sobre, muito provavelmente, Nenê (em que Luís afirma: "É um miserável, um miserável..."). CENA 8: Descreve o pouso do grande gafanhoto na toalha da mesa. A presença do bicho provoca reações adversas: Rema tem nojo, repulsa (acha-o "horrível"); Luís, o ar de estudioso, considera o inseto "um belo animal", atentando no girar de cabeça dele ("É o único inseto que gira a cabeça") - daí um certo mistério na fala do personagem; Nino, à maneira do pai, quer preservar o inseto para estudo ("Amanhã a gente pode botá-lo no formicário para estudar"); Nenê, entediado, não se importa com a presença do gafanhoto ("Que droga de noite" , comenta). A reação de Isabel é diferente da de todos - "teria preferido decapitar o gafanhoto". Uma reação que, certamente, complementa a repulsa de Rema. Há uma afinidade na reação das duas. A agressividade de Isabel vem como outro índice importante, remetendo à violência da cena final - a qual será engendrada pela menina. CENA 9: Cena final do conto. Hora do almoço, todos reunidos. É o momento em que Isabel, ferindo (ou traindo) os códigos da casa, dá uma informação errada a Nenê, dizendo que o tigre se encontra no escritório deste, quando na realidade está na biblioteca. Nenê então, de posse da informação falsa, segue para a biblioteca - e é pego pelo tigre. A distribuição dos membros da família na mesa é a mesma descrita na cena 2, com Luís à cabeceira (à maneira de Cristo na última ceia). E é Luís quem irá dizer quem "traiu" (as regras/códigos da casa), quando anuncia: "Mas estava [o tigre] no escritório dele [de Nenê]! Ela [Isabel] disse que estava no escritório dele!". Isabel provoca deliberadamente o engano. Empurra Nenê para as garras no tigre, enquanto é acalmada (e silenciosamente aclamada) por Rema. Isabel, numa "desfigurada alegria"; Rema, num "balbuciar como de gratidão". Os caracóis, sobre os quais as duas se voltam no instante em que Nenê é agarrado, talvez remetam (metalinguisticamente) à própria estrutura em ziguezague do conto. Um conto que dá voltas para trazer um desfecho dos mais surpreendentes e originais na história da literatura.

P.S.: Uma análise mais detida da simbologia dos principais animais que aparecem no conto (as formigas, o gafanhoto, os caracóis e o próprio tigre) é tarefa para um outro comentário.

 

 

(Minha coluna de crítica publicada mensalmente no jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, e no Correio das Artes, de João Pessoa; para acessar as demais colunas, clique em www.rascunho.com.br, no link “Rodapé”)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 08h46
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

LIRA NETO LANÇA

BIOGRAFIA DO PE. CÍCERO   

 

Chega esta semana às livrarias, com o selo da Companhia das Letras, a biografia Padre Cícero - poder, fé e guerra no sertão, do jornalista e escritor cearense Lira Neto (já entrevistado pelo Blog). Lira, sempre muito competente, foi meu contemporâneo na Universidade Federal do Ceará (eu fiz Letras e ele Comunicação Social na instituição). Gostava de produzir poemas à la Leminski. Depois, fez carreira no jornal O Povo, de Fortaleza. Já publicou biografias de Castello Branco, José de Alencar e Maysa. Sobre a biografia do Pe. Cícero, confira trecho da matéria, assinada por Sylvia Colombo, publicada na última sexta-feira (06/11) na Folha de S.Paulo:

 

 

Livro nega imagem de líder místico

 

Tudo começou em 1889, quando Cícero, então um jovem sacerdote de Juazeiro do Norte, ao oferecer a comunhão à beata Maria de Araújo, viu a hóstia simplesmente... sangrar. O evento se repetiria inúmeras vezes, com diferentes audiências. Médicos foram chamados, mas não conseguiram explicar o fenômeno, considerado, a partir de então, um milagre pela população local. Os homens da Igreja, porém, não acreditaram no que se passava. Julgaram Cícero um mistificador, um explorador da ingenuidade popular.
Os relatos do livro referentes a passagens supostamente milagrosas são muito vívidos. Apesar de não ser religioso, Lira Neto não nega de modo taxativo esses eventos. "Algo aconteceu ali", diz. No texto, porém, deixa transparecer certa ironia com relação a episódios que parecem delirantes. "Uso um pouco de humor. Por outro lado, alimento um profundo respeito pela devoção alheia."
Para reconstruir tais eventos e o diálogo entre autoridades da Igreja no Brasil e destes com Roma e o tribunal do Santo Ofício, Lira Neto contou com o acervo da Cúria do Crato, onde estão mais de 900 cartas.
Também conseguiu uma fonte de informações valiosa no Vaticano, que não revela. O livro mostra como, suspenso das atividades sacerdotais, Cícero voltou-se para a política. Lira Neto acha que, assim, demonstrou capacidade de reinvenção. "Cícero foi engolfado pelo instante histórico que o gerou. Mas soube se posicionar e sobreviveu a outros beatos, varridos pela história."

Samba e cachaça

O biógrafo diz querer desconstruir a imagem de místico caricato do líder. Considera-o um homem inteligente e sagaz ao fazer alianças. E muito, mas muito conservador. Era obcecado por reconstituir famílias desagregadas. Posicionava-se contra o samba e a cachaça. O tom de seus discursos, muitas vezes, era apocalíptico.
O autor chama a atenção para os dois universos diferentes que o formaram. "Tinha um pé no universo sertanejo, mas carregava a rigidez do seminário em que estudou. Não era culto, mas lia livros de autores ocultistas. Tinha dificuldade na articulação das ideias e concebia o mundo com simplicidade.
Mas era hábil nas relações e, com isso, manteve-se." Lira Neto trabalhou mais de dez anos no jornal "O Povo" como repórter e, depois, como ombudsman da publicação. Também é autor das biografias "Maysa" e "Castello".
Conta que sempre sonhou em escrever a história do Padre Cícero, mas que achava o personagem "grande demais". A perspectiva de mexer com documentos inéditos o estimulou a ir em frente com o projeto. O jornalista não tem dúvida de que Cícero será absolvido.
Considera que o interesse da Igreja Católica no processo é o de deter o avanço da Igreja Evangélica no Brasil ao atrair para si um ícone popular que costuma levar mais de 2,5 milhões de peregrinos todos os anos a Juazeiro do Norte.
Enquanto isso, a biografia alça voo. Já foi feito um acordo com o produtor Rodrigo Teixeira para uma versão cinematográfica. O filme, planejado para 2011, será dirigido por Sergio Machado ("Cidade Baixa").



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h19
[] [envie esta mensagem] []



Exclusivo

 

ED. NOVO SÉCULO LANÇA

PRIMEIRO LIVRO DE EDUARDO SABINO  

 

A editora Novo Século acaba de mandar para as livrarias Idéias noturnas sobre a grandeza dos dias, do jovem escritor mineiro Eduardo Sabino. Trata-se de um competente contista, cujo livro de estréia tive o grande prazer de prefaciar. Eduardo, além de ser um talentoso escritor, com um grande futuro pela frente, é uma pessoa educadíssima. Tem sempre prestigiado os meus lançamentos em Belo Horizonte, no Espaço Letras & Ponto, da poeta Dagmar Braga (que este ano foi indicada para o Jabuti). Leia, com exclusividade, trecho do prefácio que escrevi para Idéias noturnas sobre a grandeza dos dias:    

 

 

INTENSOS E IRÔNICOS

 

      por Rinaldo de Fernandes

 

 

 

[...] É sobretudo no poder de significação, na capacidade de manter a tensão/intensidade [categorias cortarzianas], além de certo apego ao fantástico, ao insólito, onde reside o valor de boa parte dos relatos deste livro de estréia de Eduardo Sabino. Isto já pode ser conferido no conto de abertura: “Doce lar”. Curioso e irônico (já no título) conto em que um pai de família torna-se o protetor das baratas que empestam o ambiente doméstico. As baratas, no conto, são o signo da decadência da família de um mineiro aposentado. E funcionam como o principal elemento desagregador da família, não só por provocar a fuga de casa da mulher como por promover a morte do filho caçula do casal (picado por um escorpião, que chega para se alimentar dos insetos). A situação é inteiramente kafkiana e insere o conto entre as principais peças do livro.

Em “Purgatório”, a vontade de contato, de comunicação, é o primeiro elemento que chama a atenção. O jovem ascensorista apaixonado angustia-se ao imaginar conversas com a moça que entra e sai do elevador. Um ascensorista sensível, que tem gosto pela poesia e cujo pai castrador no passado o ironizava, impedindo o livre exercício de sua vocação literária. O protagonista do conto está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado – ainda mais desbotado pelo salário miúdo que recebe (tanto que a mãe complementa sua renda no final do mês). Um personagem carente, da galeria de pobres e problemáticos personagens do livro.

“Eternas angústias de um imortal” traz uma boa reflexão sobre o tema da imortalidade. O protagonista, angustiado pela impossibilidade de morrer, tudo o que deseja, ao comparar-se aos demais indivíduos, é “ser frágil” e “decadente”. Daí a sua opção (a única que lhe resta e que lhe reserva algum sentido à vida de andarilho num parque) de passar a “admirar e cobiçar os mortais”, todos “abençoados porque morrerão”. O que o pequeno conto ensina é que, se a morte é mesmo a nossa principal angústia, a vida sem ela torna-se um grande pesadelo. A vida eterna não nos resolve a angústia de viver – eis a chave do conto. 

“Abismo” é narrado como lenda. Uma história de ódio, vingança e reparação. Um relato recortado de crueldade. Para vingar-se da esposa supostamente infiel, um camponês atira a filha do casal (imagem perfeita da mãe) num abismo situado nos fundos do quintal. Mas – e o achado poético vem na voz do narrador – “o abismo falava”. A criança passa então a suplicar, a pedir socorro. O pai, já de vida nova com outra mulher, resgata a filha do abismo – e os três (pai, filha e nova esposa) começam a conviver contentes na mesma casa de fazenda. Narrativa especular, com os papéis femininos permutados (a mulher desleal substituída pela mulher digna ou respeitosa) para recompor a imagem da felicidade familiar perdida. Mas o final feliz soa irônico. É que a harmonia familiar, em muitos casos, só pode ser representada mesmo à maneira de lenda (no sentido de “engodo” ou “fraude” que o termo agrega). 

Volta o tema da incomunicabilidade humana em “O Jardim”, em que o protagonista Pedro, por sugestão do velho Leôncio, tido entre os vizinhos como louco, passa a achar mais sensato conversar com plantas e flores do que com gente. Pedro, em dificuldades, desempregado, depressivo, deslocando-se até o “jardim encantado” de Leôncio, recebe os olhares de “compaixão” dos vegetais e ainda seus ensinamentos. O jardim termina o reanimando.

Em “Invasão” a realidade irrompe no sonho numa situação bem típica dos nossos dias: o recinto em que um risonho casal, comendo pizza, tece planos para o futuro (afagam-se fantasiando um condomínio onde deverão morar “um dia”), é invadido por um mendigo à caça de “uns trocados”. Um incômodo, a súbita presença. De um lado, pessoas de posses; de outro, a penúria. A figura do pobre homem deixa “os clientes constrangidos”. O narrador resume os sentidos da situação quando, ao encerrar o relato, refere-se ironicamente ao mendigo como um “ladrão de sonhos”.

Em “Eu, La Sombra e as Sobras” quem passa a operar o cotidiano do protagonista é sua sombra, que se transforma em tirana conselheira: “Aceitei La Sombra e considerei todas as suas palavras”. No fim, curiosamente, a sombra é o próprio ente que narra. Ecoa, assim, a metáfora das existências opacas, obscuras.

“Gêneses” é a história de um assalto em que a vítima, transtornada ou tresloucadamente, tenta despistar o assaltante com conselhos e reflexões. Talvez resida aqui uma curiosa alegoria da retórica das elites – notadamente de certa classe média – em relação à violência urbana. O que vemos no pequeno conto são palavras de ordem que, de tão reiteradas, perderam o sentido, o poder de mobilização.       

Finalmente, “Gana” é um relato realista, quase uma crônica de nossa urbanidade carente e caótica. Um grupo, nas proximidades de uma faculdade, está em torno de uma barraca de cachorro quente, quando chega um menino e, como “pedra”, se senta próximo, no chão. Como “pedra”, fica despercebido – mas deixa um certo desconforto no ar. Após algum tempo, passa a pedir um sanduíche, que lhe é negado, inclusive por uma freira (que está ali também lanchando e dando aula de boas condutas). Irônica situação, de gente que come diante de uma frágil (mas também ameaçadora) figura faminta.

Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situações de pobreza, estão entre as boas novidades da literatura brasileira recente. [...]

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 08h49
[] [envie esta mensagem] []



Entrevistado do mês

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA

COM JOSÉ NÊUMANNE PINTO     

 

 

José Nêumanne Pinto é jornalista, poeta e ficcionista. Nasceu em Uiraúna (PB), em 1951. Atualmente, vive em São Paulo, onde exerce as atividades de editorialista do Jornal da Tarde (do grupo de O Estado de S. Paulo) e de comentarista diário da Rádio Jovem Pan (“Direto ao assunto”) e do Jornal do SBT (primeira edição). Lançou os livros de poesia As tábuas do sol, Barcelona, Borborema e Solos do silêncio (poesia reunida). É autor ainda dos romances Mengele, a natureza do mal, Veneno na veia e O silêncio do delator, da reportagem Atrás do palanque e dos ensaios políticos Reféns do passado e A República na Lama. Organizou a antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século para a Geração Editorial/SP (2001).

 

 

Rinaldo de Fernandes – A poesia significa para você o quê? Como cria um poema?

José Nêumanne Pinto – A poesia é a loucura de minha lucidez e a lucidez de minha loucura. Se não fosse por ela, estaria em tratamento psiquiátrico – o que seria natural, porque, na prática, resulto de um incesto: meus pais são primos carnais. Já fiz poemas de várias formas. Uma vez, sonhei um poema inteiro, acordei no meio da noite e, para não incomodar minha mulher, escrevi-o sentado no vaso sanitário. Foi o caso do poema 25 da série Borborema, de Barcelona, Borborema. E isso se repetiu quando escrevi Poeira de estrelas, cuja primeira estrofe Zé Ramalho transformou em letra de nossa parceria Do norte do norte. Outra vez, não sonhei com o poema, mas apenas com seu ritmo. Desci para a sala e escrevi Verde. Como qualquer ex-adolescente, já fiz poemas sobre o amor velho, o amor novo e a rejeição. Há alguns soprados de um fôlego só e outros extraídos a fórceps ao longo de anos: a metade Barcelona é inteirinha trabalhada e a metade Borborema resulta toda da inspiração, nesse livro que acabo de citar. Pensei que jamais escreveria um poema por encomenda até que você me pediu um sobre Euclydes da Cunha para celebrar os 100 anos da primeira edição de Os sertões e escrevi Aboio do semi-árido.

 

Rinaldo de Fernandes – Como foi o processo criativo do romance O silêncio do delator? É mais prazeroso escrever prosa ou poesia?

José Nêumanne Pinto – A poesia é indolor. Vindo no jorro orgástico ou trabalhado no cinzel, o poema não resulta do sofrimento do parto criativo, mesmo que expresse a dor da alma ou do cotovelo. Prosa, para mim, é pior que extração de dente. O processo é todo dolorido, meu caro. Do começo ao fim. A primeira consciência deste prosador que lhe fala é a de que o livro não será escrito. Isso valeu para O silêncio do delator, que ganhou o prêmio de melhor livro de 2004 da Academia Brasileira de Letras, ou para Ninguém faz sucesso sozinho, que é de meu patrão Tuta Carvalho e do qual só escrevi o texto final. No meio do processo de escrita, sonho com outros projetos, o interrompo por qualquer besteira, finjo que não quero mais nem saber. Quando o retomo, é sempre com desconfiança. Do meio para o fim melhora um pouco, mas a angústia só passa no ponto final. Meu inimigo de infância Bráulio Tavares me ensinou um truque para lidar com essa maluquice: nunca fazer como a mulher de Lot e dar uma olhadinha para trás. É pegar o texto e ir em frente, mesmo que venha um trem. A receita de Bráulio que sigo à risca é só olhar para trás depois do ponto final. Tem dado certo, mas a tentação de virar estátua de sal é imensa. Quando termino o livro, me dá uma euforia de terça-feira de carnaval, logo seguida de uma náusea de quarta-feira de cinzas. Nunca li nenhum livro meu impresso.

 

Rinaldo de Fernandes – Que autores você mais leu, que lhe deram a base para produzir literatura? Ainda os lê até hoje?

José Nêumanne Pinto – Li Ulisses na adolescência na casa de meus pais na rua Rui Barbosa, no centro de Campina Grande. Foi uma leitura dolorosa, aos trancos e barrancos. Mas a porcaria do livro de James Joyce nunca me abandonou. Quando comecei O silêncio do delator, tinha a ilusão de que, enfim, meu lado Jorge Luis Borges, cujos textos leio com prazer enorme, afloraria. Que nada! Meu lado Joyce prevaleceu. É uma praga da qual nunca sei se um dia me livrarei. Adoraria escrever como J. D. Salinger, meu herói literário, mas tenho consciência de minhas limitações e acho que seria humilhante imitá-lo. Gostaria de escrever como Gay Talese, o colega jornalista que mais admiro, mas me falta sua elegância. No fundo, vivo fugindo do Winnetou, de Karl May, que li na adolescência no seminário redentorista de Bodocongó. Respondendo a sua pergunta, de repente descubro algo que não sabia: minha especial predileção pelos alemães. Os romancistas que mais devo ter lido na vida foram Karl May e Thomas Mann. Caramba, adoro A montanha mágica e José e seus irmãos. E dois de meus textos favoritos são O 18 brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx, e Psicopatologia da vida cotidiana, de Sigmund Freud. Adoro As palavras, de Jean-Paul Sartre, mas detesto o autor, um filósofo que se tornou um abjeto fâmulo de canalhas como Stalin e Mao Tse-tung. Sou absolutamente fissurado em Albert Camus. O estrangeiro é minha bíblia profana. Um dia ainda relerei As minas de prata, de José de Alencar, e também escreverei sobre minha infância algo semelhante ao que escreveram os Josés Lins do Rego (Meus verdes anos) e Américo de Almeida (Antes que me esqueça). Afinal, eu também não sou José, ora?



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h28
[] [envie esta mensagem] []



Rinaldo de Fernandes – O que é para você o regionalismo em literatura? O regionalismo atual o atrai? Por quê?

José Nêumanne PintoFogo morto, de José Lins do Rego, é uma obra-prima. Aquilo é regionalismo? Um dos livros mais bem escritos em língua portuguesa em todos os tempos é A bagaceira, de José Américo de Almeida, sempre citado como o iniciador do regionalismo na literatura brasileira. Será? O quinze, de Rachel de Queiroz, tem o que de regionalista? A paisagem? A palavra? Desculpe, rapaz, mas esse negócio de regionalismo me cheira a calhordice crítica. Regionalista é Joyce, que concentra seus temas em Dublin? Ou Borges, fascinado pelos compadritos dos subúrbios de Buenos Aires? Dickens, certamente, descrevendo os bairros miseráveis de Londres na virada da Revolução Industrial, haveria de sê-lo? A que regionalismo atual você se refere? Lêdo Ivo falando dos manguezais de Maceió a pretexto da morte? Ou a crônica mineirinha na cidade grande de Luiz Ruffato? Em matéria de regionalismo, eu nego que os bons o sejam e combato os maus - como fez Diogo Mainardi em seu excelente romance anti-regionalista nordestino.

 

Rinaldo de Fernandes – O que ficou da experiência de escrever um livro sobre Luiza Erundina? Que personagem é esta da política, que, partindo do sertão paraibano, chegou a ser prefeita de São Paulo?

José Nêumanne Pinto – A história de minha amiga e conterrânea uiraunense é espetacular. Muito melhor que aquele meu livro e olha que eu gosto muito dele, apesar de ser um dos poucos a gostarem. Imagine uma mulher pobre, sem atrativos sexuais, migrante e tenaz ganhar uma eleição municipal primeiro contra os preconceitos do PT e depois contra Paulo Maluf para a prefeitura da maior cidade da América do Sul. É barra, nêgo! É claro que, depois, ela foi dissolvida, absorvida, porque para completar além de tudo ela é honesta. E honestidade na política é defeito, não é qualidade. Sou amigo dela, admirador dela, eleitor dela. Apesar de sermos antípodas ideológicos, temos em comum uma honestidade intelectual, que herdamos de nossos pais, sertanejos de couro duro e coração mole. O dela, seleiro. O meu, motorista de caminhão. É incrível que o pai dela fabricava um utensílio para uso em transporte por animal e o meu transportava cargas Brasil afora. Ela está provando a enorme mobilidade social deste país imenso e eu tento registrar isso com o parco talento que Deus me deu.

 

Rinaldo de Fernandes – Para você, o que é ser jornalista? O que definiria, efetivamente, o fazer jornalístico?

José Nêumanne Pinto – Em julho de 1970, quando entrei pela primeira vez numa redação de jornal grande, a Folha de S.Paulo, levado pela mão por Eurícledes Formiga, que, na infância, ouvia meu pai adolescente tocar Os pobres de Paris no trompete em São João do Rio do Peixe, J. B. Lemos, meu pai jornalístico, me mandou ler o livro Aos olhos da multidão, do coleguinha americano Gay Talese. O livro, reeditado no Brasil sob o título de Fama e anonimato, deveria ser adotado por todos os cursos de jornalismo. O resumo dos perfis de personalidades e operários desconhecidos, fundando o chamado new journalism (novo jornalismo), para mim, passou a reunir a mais completa e precisa definição de jornalismo: é fugir das aparências, procurar a insignificância e revelar o aparentemente sem importância para contar a essência das coisas. Um dia destes, 39 anos depois daquele dia revelador para mim, me deparei com uma entrevista de meu ídolo, que veio para o piquenique literário de Paraty e eu nem fui ver, na qual ele me fez a revelação definitiva sobre a missão do jornalista. “Os jornalistas precisam ser lidos, vistos e ouvidos pelo público porque eles geralmente mentem menos”. Não é uma missão maravilhosa, esta nossa?

 

Rinaldo de Fernandes – Você se sente constrangido quando o consideram um jornalista conservador? O que é ser conservador em jornalismo?

José Nêumanne Pinto – Mas eu não sou um jornalista conservador. Muito ao contrário, meu caro. Meu herói ideológico é aquele espanhol anarquista da piada: “Hay gobierno, soy contra”. Não acredito em jornalismo domesticado. Meu lema, como comentarista de jornal, rádio e televisão, é parecido com o citado acima: todo bom jornalismo é hostil à autoridade. Por um motivo muito simples: mesmo nas democracias mais avançadas do mundo, as autoridades monarquistas ou republicanas, direitistas ou esquerdistas, tirânicas ou tolerantes, abusam do poder e massacram o cidadão com sua intolerância. E a missão da imprensa é ficar ao lado do cidadão contra a autoridade, ou melhor, a altoridade ou ainda a otoridade. Sou reconhecido, abraçado e cumprimentado na rua por tentar ser a voz do cidadão. Os domesticados, os bestalhões de botequim e, sobretudo, os apaniguados dos grupos no poder me detestam, não porque eu seja conservador, mas porque costumo por o dedo na ferida. Agora, por exemplo, identificam-me como um inimigo feroz de Lula. Lula é meu amigo pessoal, não sei de ninguém que tenha arrancado dele uma palavra ruim a meu respeito. Cláudio Lembo, quando governava São Paulo, ouviu dele, ao contrário, excelentes referências a meu respeito. Lula é esperto. Eu digo sempre que ele é o maior líder político que o Brasil já teve em todos os tempos. Mas para isso ele tem de se aliar com a rafameia da politicagem nacional: Jader Barbalho, José Sarney, Severino Cavalcanti. Ele se junta com essa gente e é de esquerda, um revolucionário? O conservador sou eu, é? Veja agora essa palhaçada em Honduras. Um latifundiário com seu ridículo chapelão e uma ficha corrida de matador de camponês virou herói da esquerda só porque é sabujo de Hugo Chávez, este por sua vez um ex-coronel golpista, que virou referência de esquerda porque lambe as botas do mais longevo tirano do planeta, o farsante cubano Fidel Castro, que de fiel não tem nada. Não aceito essas lorotas. Se ser conservador é isso, sou com muito orgulho. Não bajulo poderoso, não me associo com bandido. Lula precisa disso para governar? Tudo bem. Problema dele. Eu não preciso governar para viver bem. Vivo muito bem batendo no governo. Aceito com humildade as críticas que ouço e leio a meu respeito, embora, como Ariano Suassuna, preferia que falassem mal de mim apenas pelas costas. Mas isso não me incomoda nem me desvia do caminho. Sou independente, orgulho-me disso, não dependo de político canalha nenhum para sobreviver. Ao contrário, sobrevivo denunciando a canalhice deles. Depois, o significado das palavras é algo muito controverso. Dia destes, fiquei sabendo que os adversários de Anthony Garotinho no Estado do Rio de Janeiro passaram a acusá-lo de ser clone de Leonel Brizola. Antes de responder, ele teve a prudência de mandar pesquisar o que o povo achava. E descobriu que para a grande maioria do eleitorado fluminense clone significa inimigo. E agora sua diversão favorita é dizer que é mesmo clone do Brizola. E aí? Que tal? Num país onde mais de 80% do eleitorado acredita nas bazófias de Lulinha, seria uma tolice contar com a exatidão verbal como instrumento de comunicação. Noço líder é deus do lambão de caçarola porque sabe exatamente o que cada palavra significa para o povaréu. Ao contrário de alguns bestalhões da oposição que acham que ainda vivem nos tempos em que Jânio Quadros era popular porque falava difícil. Neste país de poucos alfabetizados, meu querido, dicionário é obra de ficção. E o pior é que não serve nem para fricção.

 

 

(Leia as entrevistas anteriores do Blog: Moacyr Scliar em 12/12/2007; Nelson de Oliveira em 17/01/2008; Glauco Mattoso em 11/02/2008; Fabrício Carpinejar em 03/03/2008; André Sant’Anna em 23/03/2008; Luiz Ruffato em 27/04/2008; Fernando Bonassi em 20/05/2008; Marcelo Mirisola em 07/06/2008; Marçal Aquino em 21/07/2008; Ricardo Soares em 18/08/2008; Marcelino Freire em 13/09/2008; Raimundo Carrero em 27/10/2008; Hélio Pólvora em 14/12/2008; Ronaldo Correia de Brito em 30/03/2009; Affonso Romano de Sant’Anna em 26/04/2009; Daniel Piza em 25/05/2009; Lira Neto em 22/06/2009; Luiz Fernando Emediato em 13/07/2009; Deonísio da Silva em 29/08/2009; Manuel da Costa Pinto em 26/09/2009)

 

(Próximo entrevistado: Mário Chamie*)

 

 

* Por motivo de força maior, houve uma reprogramação: Mário Chamie, que seria o entrevistado de outubro, será o de novembro; e José Nêumanne Pinto, que seria o de novembro, passou a ser o de outubro.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h23
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

MAIS UM LANÇAMENTO

DA EDITORA HORIZONTE  

 

Recebi da simpática Eliane Alves, proprietária da Editora Horizonte, de Vinhedo (SP), o belo livro Carinhas(os) Urbanas(os), dos fotógrafos Luciana Fátima e Arlindo Gonçalves. A editora de Eliane vem crescendo e está cada dia melhor, já com alguns títulos bastante interessantes nas áreas de arte, comunicação social, crítica literária, cultura, literatura e pedagogia. Confira o release de Carinhas(os) Urbanas(os) e dos outros títulos da editora no site (é só clicar): www.editorahorizonte.com.br



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h39
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]