Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 Maria Alzira Brum Lemos
 Linaldo Guedes
 Rascunho
 Cronópios
 O Muro & Outras Páginas
 Eduardo Sabino
 Amador Ribeiro Neto
 Astier Basílio
 Edson Cruz
 Sibila
 Glauco Mattoso
 PublishNews
 Portal Literal
 Ana Peluso
 Ricardo Soares
 Marcelino Freire
 Paulo Bentancur
 Editora Horizonte (Eliane Alves)


 
BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Artigo

 

CEGUEIRA E LINCHAMENTO

 

   

por Raduan Nassar*

 

 

O inglês Robert Fisk, em artigo no jornal londrino "The Independent", afirma que, segundo as duras conclusões do relatório Chilcot sobre a invasão do Iraque, o ex-primeiro ministro Tony Blair e seu comparsa George W. Bush deveriam ser julgados por crimes de guerra, a exemplo de Nuremberg, que se ocupou dos remanescentes nazistas.

O poodle Blair se deslocava a Washington para conspirar com seu colega norte-americano a tomada do Iraque, a pretexto de este país ser detentor de armas de destruição em massa, comprovado depois como mentira, mas invasão levada a cabo com a morte de meio milhão de iraquianos.

Antes, durante o mesmo governo Bush, o brutal regime de sanções causou a morte de 1,7 milhão de civis iraquianos, metade crianças, segundo dados da ONU.

Ao consulado que representava um criminoso de guerra, Bush, o então deputado federal Michel Temer (como de resto nomes expressivos do tucanato) fornecia informações sobre o cenário político brasileiro. "Premonitório", Temer acenava com um candidato de seu partido à Presidência, segundo o site WikiLeaks, de Julian Assange.

Não estranhar que o interino Temer, seu cortejo de rabo preso e sabujos afins andem de braços dados com os tucanos, que estariam governando de fato o Brasil ou, uns e outros, fundindo-se em um só corpo, até que o tucanato desfeche contra Temer um novo golpe e nade de braçada com seu projeto de poder -atrelar-se ao neoliberalismo, apesar do atual diagnóstico: segundo publicação da BBC, levantamento da ONG britânica Oxfam, levado ao Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, a riqueza acumulada pelo 1% dos mais ricos do mundo equivale aos recursos dos 99% restantes. Segundo o estudo, a tendência de concentração da riqueza vem aumentando desde 2009.

O senador Aloysio Nunes foi às pressas a Washington no dia seguinte à votação do impeachment de Dilma Rousseff na exótica Câmara dos Deputados, como primeiro arranque para entregar o país ao neoliberalismo norte-americano.

Foi secundado por seu comparsa tucano, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, também interino-itinerante que, num giro mais amplo, articula "flexibilizar" Mercosul, Brics, Unasul e sabe-se lá mais o quê.

Além de comprometer a soberania brasileira, Serra atira ao lixo o protagonismo que o país tinha conseguido no plano internacional com a diplomacia ativa e altiva do chanceler Celso Amorim, retomando uma política exterior de vira-lata (que me perdoem os cães dessa espécie; reconheço que, na escala animal, estão acima de certos similares humanos).

A propósito, o tucano, com imenso bico devorador, é ave predadora, atacando filhotes indefesos em seus ninhos. Estamos bem providos em nossa fauna: tucano, vira-lata, gato angorá e ratazanas a dar com pau...

Episódio exemplar do mencionado protagonismo alcançado pelo Brasil aconteceu em Berlim (2009), quando, em tribunas lado a lado, a então poderosa Angela Merkel, depois de criticar duramente o programa nuclear do Irã, recebeu a resposta de Lula: os detentores de armas nucleares, ao não desativá-las, não têm autoridade moral para impor condições àquele país. Lula silenciou literalmente a chanceler alemã.

Vale também lembrar o pronunciamento de Lula de quase uma hora em Hamburgo (2009), em linguagem precisa, quando, interrompido várias vezes por aplausos de empresários alemães e brasileiros, foi ovacionado no final.

Que se passe à Lava Jato e a seus méritos, embora supostos, por se conduzirem em mão única, quando não na contramão, o que beira a obsessão. Espera-se que o juiz Serio Moro venha a se ocupar também de certos políticos "limpinhos e cheirosos", apesar da mão grande do inefável ministro do STF Gilmar Mendes.

Por sinal, seu discípulo, o senador Antonio Anastasia, reproduz a mão prestidigitadora do mestre: culpa Dilma e esconde suas exorbitantes pedaladas, quando governador de Minas Gerais.

Traços do perfil de Moro foram esboçados por Luiz Moniz Bandeira, professor universitário, cientista político e historiador, vivendo há anos na Alemanha. Em entrevista ao jornal argentino "Página/12", revela: Moro esteve em duas ocasiões nos EUA, recebendo treinamento. Em uma delas, participou de cursos no Departamento de Estado; em outra, na Universidade Harvard.

Segundo o WikiLeaks, juízes (incluindo Moro), promotores e policiais federais receberam formação em 2009, promovida pela embaixada norte-americana no Rio.

Em 8 de maio, Janio de Freitas, com seu habitual rigor crítico, afirmou nesta Folha que "Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador, talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo".

Lula não assumiu a Casa Civil, foi rechaçado no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Gilmar Mendes, um goleirão sem rival na seleção e, no álbum, figurinha assim carimbada por um de seus pares, Joaquim Barbosa, popstar da época e hoje estrela cadente: "Vossa Excelência não está na rua, está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro... Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar".

Sugiro a eventuais leitores, mas não aos facciosos que, nos aeroportos, torciam o nariz ao ver gente simples que embarcava calçando sandálias Havaianas, que acessem o site Instituto Lula - o Brasil da Mudança.

Poderão dar conta de espantosas e incontestes realizações. Limito-me a destacar o programa Luz para Todos, que tirou mais de 15 milhões de brasileiros da escuridão, sobretudo nos casebres do sertão nordestino e da região amazônica. E sugiro o amparo do adágio popular: pior cego é aquele que não quer ver.

A não esquecer: Lula abriu as portas do Planalto aos catadores de matérias recicláveis, profissionalizando-os, sancionou a Lei Maria da Penha, fundamental à proteção das mulheres, e o Estatuto da Igualdade Racial, que tem como objetivo políticas públicas que promovam igualdade de oportunidades e combate à discriminação.

Que o PT tenha cometido erros, alguns até graves (quem não os comete?), mas menos que Fernando Henrique Cardoso, que recorria ao "Engavetador Geral da República", à privataria e a muitos outros expedientes, como a aventada compra de votos para sua reeleição.

A corrupção, uma enfermidade mundial, decorre no Brasil do sistema político, atingindo a quase totalidade dos partidos. Contudo, Lula propiciou, como nunca antes, o desempenho livre dos órgãos de investigação, como Ministério Público e Polícia Federal, ao contrário do que faziam governos anteriores que controlavam essas instituições.

A registrar ainda, por importante: as gestões petistas nunca falaram em "flexibilizar" a CLT, a Previdência, a escola pública, o SUS, as estatais, o pré-sal inclusive e sabe-se lá mais o quê, propostas engatilhadas pelos interinos (algumas levianamente já disparadas), a causar prejuízo incalculável ao Brasil e aos trabalhadores.

Sem vínculo com qualquer partido político, assisto com tristeza a todo o artificioso esquema de linchamento a que Lula vem sendo exposto, depois de ter conduzido o mais amplo processo de inclusão social que o Brasil conheceu em toda a sua história.

 

________________

* Raduan Nassar é autor dos livros Lavoura arcaica (1975), Um copo de cólera (1978) e Menina a caminho e outros textos (1997). Obteve este ano o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa.

 

(O artigo acima foi publicado na Folha de S. Paulo, em 21/08/2016. Clique aqui para lê-lo no site do jornal)  



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h12
[] [envie esta mensagem] []



Miniconto

OS TRÊS FILHOS

 

por Rinaldo de Fernandes

 

Eu tenho três filhos e cuido deles. Três surtos de um amor que não vingou. Três ramos que avançam a cada manhã para as minhas pernas, se emaranham, me pregam peças. Neste momento, observando os olhinhos ligeiros deles, eu os amo com toda devoção. Neste momento eu não queria ter três, queria ter seis. Chove muito hoje e eles foram ali ver a rua escorrendo. Os três, bem juntinhos na janela, vendo as águas. São meus filhos diante da tempestade. São meus filhos mais que amados. De repente, os três se viram, me olham. Me olham forte, sem alarde. Como se adivinhando que, em meio a todas as enchentes e frios, eu serei o barco que os vestirá.

 

[Miniconto que escrevi em homenagem aos verdadeiros pais]



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 08h06
[] [envie esta mensagem] []



Lançamento

 

O NOVO LIVRO DE EDUARDO SABINO

 

 

Tenho acompanhado de perto a produção ficcional de Eduardo Sabino, jovem escritor mineiro, de Nova Lima, cujo primeiro livro, Ideias Noturnas – sobre a grandeza dos dias, publicado em 2009 pela Novo Século, tive a honra de prefaciar. Eduardo sempre foi leitor de minha ficção e eu da dele – por conta disso, dessa admiração mútua, travamos uma boa e respeitosa amizade. Eduardo, com o conto “Sombras”, foi, em 2015, o grande vencedor do concurso Brasil em Prosa, promovido pelo jornal O Globo e pela Amazon. E acaba de publicar, pela Patuá, o livro de contos Naufrágio entre amigos (do qual consta o “Sombras”). O conto-título já torna o livro uma obra de primeira linha, de um autor de fato de muito talento. “Naufrágio entre amigos” é uma metáfora do mundo contemporâneo. É a história de um jovem que vive plugado na internet, que interage intensamente com as redes sociais, que substitui os caminhos da vida pelas veredas virtuais. O modo de vida deformado do protagonista, de isolamento diante da tela do computador, infiltrado em blogs e bate-papos, o leva a ‘conhecer’ e se apaixonar por uma figura virtual: uma jovem paulista, poeta, com a qual troca mensagens, poemas e mantém – sempre virtualmente – relações eróticas. A própria mãe do protagonista, com quem, de tanto estar enfurnado vivendo as emoções do ciberespaço, ele tem uma relação rala, residual, a própria mãe dele em certo momento procura saber acerca do seu ‘relacionamento’ com a namorada paulista. Até que ele tem a notícia, que certamente o deixa atônito, atordoado, de que a namorada poeta morreu, atropelada em sua bicicleta a caminho do trabalho. Na sequência, outros poetas também morrem, e do mesmo modo – atropelados de bicicleta. Certa madrugada, o protagonista se depara com a namorada num site – as coisas se misturam, o deixam perplexo. Então descobre que a namorada, com quem trocou tantas confidências, com quem fez reflexões vanguardistas acerca de arte, com quem fez sexo virtual, por quem, enfim, estava vivamente apaixonado, não existia – tratava-se de um heterônimo, entre outros, de um poeta. Um poeta que, cínico, ainda lhe pede os direitos para publicar em livro as confidências e reflexões trocadas. O final do conto traz uma bela alegoria – a das cigarras. É que, no entorno da casa do protagonista, as cigarras explodem num canto imenso, perturbador, que toma conta de tudo. E ele sempre adiava fazer uma pesquisa sobre a vida e/ou o modo de viver das cigarras. Após descobrir que foi enganado/sabotado virtualmente, ele enfim realiza a pesquisa. E fica acentuado para o leitor que têm muito mais vida e fazem muito mais sentido as cigarras do que o engodo, e a solidão profunda, da vida virtual.

Recomendo a leitura do novo livro de Eduardo Sabino, que você pode encomendar pelo site da Patuá, clicando aqui.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 15h50
[] [envie esta mensagem] []



Informe

ARTIGO SOBRE O CONTO "ILHADO"

 

 

Substanciosa pesquisa acaba de ser feita sobre meu conto "Ilhado" pelos mestrandos Silvanna Oliveira e Olavo Barreto, orientados por José Mário da Silva Branco, professor de Literatura Brasileira e Portuguesa da Universidade Federal de Campina Grande. Silvanna e Olavo já vêm pesquisando minha ficção há algum tempo, sendo que no meu Contos Reunidos há um belo artigo dos dois acerca da violência no conto "O perfume de Roberta". Agora, eles estendem o estudo da violência em minha ficção ao "Ilhado", conto que, até hoje, não sei bem como o escrevi. Foi num estado de transe mesmo. O conto mistura violência extremada e lirismo – e tudo ocorrendo numa praia, numa noite de lua. Agradeço a Silvanna e Olavo pelo ótimo artigo sobre o "Ilhado". Parabenizo-os daqui! Leia o artigo na íntegra clicando aqui, no site das revista Letras & Ideias, da Universidade Federal da Paraíba.

Leia um trecho do "Ilhado" (que se encontra no Contos Reunidos à pág. 140):

O garçom cochila, a cortina de tiras na porta da cozinha se retorce com o vento. A cozinheira, agora recostada ao balcão, estira o olhar morto na extensão do restaurante. A sombra de um dos coqueiros azula a areia próxima a um velho balanço de criança.

De repente aparece um barco branco, vem vindo no rumo do restaurante. Um pequeno barco no mar rumoroso, iluminado pela lua. O garçom permanece parado, a cabeça agora pendida para trás. A cozinheira, pensativa, roça a mão no braço. Mas, atrás da planta, a mulher na mesa se movimenta, afasta as pernas. Ergue-se, recolhe a garrafa de refrigerante, põe do lado. Um homem desce do barco, sai arrastando-o para as areias secas da praia, amarra-o em algo e vem, atlético, os tênis amarelos, na direção da mulher. Bebo mais um gole do uísque. O homem, camiseta clara, chega na mesa, puxa a mulher para si, beija-a fundo. Os dois ficam abraçados alguns segundos. O garçom enfim percebe a presença do homem, levanta-se para atendê-lo. A praia brilha.

O homem, a voz vem no vento, pede uma cerveja e um camarão. A cozinheira, já a postos, mete o rosto na janelinha, recebe o pedido do garçom. O casal, atrás da planta, se apalpando. Ele tira os tênis, põe perto do jarro, roça, animado, os pés na areia. Ela volta a recompor os cabelos, recolhendo-se nos braços do outro:

– O vento tá me deixando com frio.

  



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h39
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

LIVRO O PROFESSOR DE PIANO ESTUDADO

NA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

 

 

 

Acontece agora, de 16 a 18/05, no Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, o SePesq2016 – Seminário de Pesquisa Estudantil em Letras, que terá palestras sobre as diversas linhas de pesquisa do Curso de Letras da UFBA, apresentações de trabalhos de alunos de graduação e pós-graduação, minicursos ministrados por professores e atividades afins. Pois bem, na quarta-feira, 18/05, na sala 5 de Letras, compondo a mesa intitulada “Judith Grossmann: o escritor e seus múltiplos”, a pesquisadora Jozianne Camatte Vieira Andrade apresentará a comunicação O Professor de Piano: um estudo da poética urbana nos contos de Rinaldo de Fernandes”. É uma grande honra ter meu livro O Professor de Piano, de 2010, como objeto dessa pesquisa de Jozianne Camatte, que resultou de um PIBIC que ela fez sobre os contos do meu livro orientado pela Profª/Drª Lígia Guimarães Telles, do Instituto de Letras da UFBA. Só tenho que agradecer, de coração, à pesquisadora e à orientadora da pesquisa! Uma grande honra mesmo! Clique aqui para ver a programação completa do SePesq2016.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h33
[] [envie esta mensagem] []



Informe

 

LANÇAMENTO E RELANÇAMENTO

 

        

   

A convite, que muito me honrou, do Centro Cultural Banco do Nordeste, da cidade de Souza (Pb), irei na próxima quarta-feira, 27/04, às 19h30, no "VII ABRIL PARA LEITURA", proferir uma palestra e relançar a coletânea de ensaios O Clarim e a Oração, que organizei em 2002 para a Geração Editorial e que se tornou livro de referência para os estudos euclidianos. Livro com ensaios de vários e importantes pesquisadores brasileiros e com textos de renomados escritores e jornalistas, como Ariano Suassuna e Roberto Pompeu de Toledo. O título da palestra em Souza será "Euclides da Cunha: itinerário de um evolucionista e revolucionário" e prestará homenagem aos 150 anos de nascimento de Euclides. Na quinta-feira, 28/04, estarei na cidade de Cajazeiras, no Curso de Letras da UFCG, batendo um papo com professores e estudantes, tratando de minha trajetória de escritor, e lançando meu livro Contos Reunidos (Novo Século). Aproveito para agradecer ao caro Sérgio e ao professor e poeta Carlos Gildemar Pontes.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 08h14
[] [envie esta mensagem] []



Depoimento

 

SOBRE O CONTO “A POEIRA AZUL”

  

 

 

por Rinaldo de Fernandes

 

         Fiquei pensando recentemente no conto “A poeira azul”, que se encontra à pág. 49 do meu livro Contos reunidos. Pensei após ver que o professor e escritor Cristhiano Aguiar o destacou como um de seus preferidos, na entrevista que lhe concedi para o site Vacatussa (leia a entrevista aqui). Esse conto é dedicado à querida amiga e colega de UFPB Glória Gama, pesquisadora que fez seu doutorado sobre meu livro O perfume de Roberta. Esse conto me foi forte escrever. Escrevi-o num transe lírico e profundamente dilacerado. Trouxe para ele todos os meus padecimentos amorosos – que foram tantos, embora também tenha tido tantas glórias nas minhas paixões. Mas na minha literatura cabem mais os padecimentos do que as glórias, sempre. O personagem do conto não sou eu – mas também sou eu. Sua poesia, sua busca, sua angústia (e que angústia!), seus refúgios. Ele é um hippie, um mochileiro, que viaja pelas praias do país – mas que não consegue escapar ou sair de si mesmo. A paisagem mais bonita, a areia mais alva, a onda mais espumosa... nada atenua o que se passa no coração do personagem, o que ele tem de sofrido, de desiludido. Um personagem em crise abissal, com um mal-estar incurável. Esse conto atravessou meu romance Romeu na estrada. É posto, embora de forma fragmentada, e com algumas adaptações, como um ‘flashback’ da juventude de Romeu. Tive que aproveitar essa história em uma outra história – tamanha é a força com que ela ainda agora bate em mim. Os que já leram ou vão ler esse conto, gostaria que partilhassem comigo a experiência de leitura. Tem um momento em que o personagem diz que tinha muito medo de perder Ângela, a sua grande paixão. Conclui: “E perdi”...

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h50
[] [envie esta mensagem] []



Entrevista

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA

AO CORREIO DAS ARTES

 

 

O Correio das Artes, suplemento literário do jornal paraibano A União, trouxe como matéria de capa de sua edição de março de 2016 uma entrevista que concedi ao jornalista e poeta Linaldo Guedes. Uma entrevista que aborda o lançamento do meu livro Contos reunidos, pela editora Novo Século, e em que trato de minha trajetória de ficcionista. Leia a entrevista na íntegra:

 

 

ENTREVISTA A LINALDO GUEDES

 

– Você está lançando seus Contos reunidos pela Editora Novo Século. Fale um pouco sobre a obra. Como ela está estruturada e por que você resolveu lançar uma antologia.

Rinaldo de Fernandes – A coletânea reúne meus livros O perfume de Roberta (2005), O professor de piano (2010), Confidências de um amante quase idiota (2013) e textos selecionados de O livro dos 1001 microcontos, projeto de escrita criativa que desenvolvo desde 2013 no facebook. Consta ainda da coletânea, numa seção final, um conjunto de 18 estudos críticos sobre os contos. Normalmente, os contistas, como os poetas, costumam, em determinado momento de sua trajetória, reunir num só volume a sua produção – ou para facilitar o acesso de leitores ou porque as obras já estão esgotadas. No meu caso, foi mesmo para facilitar o acesso de leitores, além de permitir a pesquisadores e estudiosos de minha contística – que já são inúmeros – um material crítico substantivo, de relevo, como é o que consta da seção final do Contos reunidos.

 

– A Regina Zilberman o classificou como “mestre do conto”. Como você vê esse e outros elogios que sua ficção vem recebendo de várias partes do país?

Rinaldo de Fernandes – Regina Zilberman, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é uma crítica literária de extremo valor – das mais respeitadas deste país, com inúmeros livros publicados e adotados nos cursos de Letras. Além disso, e a conheço bem, é uma figura muito responsável, empenhada, meticulosíssima no que faz. Regina Zilberman não me deu esse título do nada – foi a partir da leitura rigorosa que ela fez dos 11 contos que constam do meu livro O professor de piano. Ela percebeu uma unidade, uma coerência em todos os contos de O professor de piano, os quais, segundo ela disse no posfácio que escreveu para o livro, “estão assinalados por grande condensação dramática e impacto narrativo”. Disse ainda, entre outras coisas, que meus contos exercem “um forte efeito sobre o leitor”, que eles tematizam questões centrais da sociedade atual, como a violência. Portanto, foi um título dado a partir de um viés rigorosamente crítico. E isto me deixou muito feliz. Por outro lado, os elogios que chegam sobre a minha ficção me deixam contente, claro, mas nunca envaidecido ao ponto de não ver o texto literário como resultado de muita transpiração, de muito empenho por parte do seu criador.

 

– Na antologia, há também microcontos. Fale sobre eles.

Rinaldo de Fernandes – Sempre me interessei pelo minimalismo. No meu primeiro livro, O Caçador (1997), incluí uma série de minicontos, muitos deles já haviam sido publicados neste Correio das Artes. Depois, nos anos 2000, quando começou a emergir uma intensa produção de microcontos na internet, me interessei pelo gênero. Comecei escrevendo-os no twitter e depois migrei para o facebook, onde escrevo, com quatro a cinco postagens semanais, O livro dos 1001 microcontos. Já publiquei no facebook mais de 700 microcontos e deverei chegar, como o próprio título do projeto indica, às 1001 micronarrativas. Acho um grande desafio escrever microcontos – tanto que do projeto que desenvolvo no facebook só selecionei, rigorosamente, 50 textos para incluir no Contos reunidos. Como é um projeto de escrita criativa que às vezes leva em conta a recepção, a instantaneidade das curtições e comentários de leitores que acompanham as postagens, nem tudo ali está pronto, acabado. E eu penso a literatura, sempre, como artesanato, como algo que demanda muito esforço na sua elaboração.  

 

– Seus contos são, digamos assim, crus. Abordam a violência, como em “Ilhado”, de forma explícita, mas com uma linguagem apurada e às vezes irônica. Como é escrever sobre a violência urbana sob o ângulo da ficção?

Rinaldo de Fernandes – Marcelo Coelho, da Folha de S. Paulo, no artigo “Literatura da violência”, publicado em 2011 e que resultou de uma palestra que ele proferiu para estrangeiros, teceu um comentário importante sobre o conto “Ilhado”. Marcelo no artigo citou, além de Rubem Fonseca, que seria o pai do que o articulista chamou de “escola da literatura da violência”, outros seis autores: eu, Patrícia Melo, Férrez, Paulo Lins, Marçal Aquino e Fernando Bonassi. Meu conto que ele cita e que integraria essa escola é justamente o “Ilhado”. E você tem razão, nesse conto e noutros em que trato de violência, como “Duas margens”, “Pássaros”, “O último segredo” e “Você não quis um poeta”, há uma crueza, um modo muito duro de narrar. A literatura testemunha a realidade – e se o cotidiano é brutal, e ele o é, o escritor tem que representar em suas ficções essa brutalidade. Mas precisa também elaborar seu texto, mergulhar na linguagem. Sou de fato muito cuidadoso com a linguagem, cada palavra de uma frase minha é pensada, posta com muito rigor, e querendo expressar com justeza a natureza da situação narrada.  

 

– E sobre sexo. É difícil escrever sobre o tema sem se tornar pornográfico ou vulgar?

Rinaldo de Fernandes – Erotismo é uma vertente forte na literatura, desde sempre. Repito o que disse há alguns meses numa entrevista que concedi ao jornal Cândido, de Curitiba: no erotismo, diferente da pornografia, a cena não mostra tudo. Ou mostra escondendo. O pornográfico está no texto, no revelado; o erótico, no subtexto, no indiciado. Quando, numa cena, revelação e indício se submetem a um mesmo regime, temos a expressão atual mais consagrada do que seja erotismo. É assim que eu penso na hora de escrever uma cena erótica, como aquela do conto “O perfume de Roberta”.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h30
[] [envie esta mensagem] []



– A propósito, quais são seus temas preferidos em seus contos?

Rinaldo de Fernandes – Escrevi recentemente um texto intitulado “O contista”, em que afirmo: “O contista detesta aparências – e adora as essências. Sobretudo as não muito cheirosas. Sim, porque somos feitos de amores e de odores. Somos um rio descendo a existência – às vezes amargurados, atormentados, com sentimentos esquisitos, desejos recônditos, irreveláveis; solitários, caídos diante das paixões; levantados à altura das esperanças; com perdas, frustrações, pequenezas da alma; débeis diante da morte; rancorosos, capazes de arrancar com todos os dentes um tampo do outro. É esse o rio onde o contista bebe”. E é esse o rio em que também costumo beber para produzir as minhas ficções.

 

– Você também escreveu e publicou romances com boa repercussão, como Rita no pomar e Romeu na estrada. Você prefere algum gênero? Qual a diferença básica entre escrever romance e conto?

Rinaldo de Fernandes – Nenhuma, a não ser aquela do tempo da escrita mesmo. Um romance, em princípio, leva mais tempo para ser escrito do que um conto. Mas isto não significa que ele seja melhor, tenha mais qualidade do que um conto. Há contos de Machado de Assis, verdadeiras obras primas, que não se igualam em qualidade à maioria dos romances feitos no Brasil. Rita no pomar teve uma recepção enorme, surpreendente, tendo sido objeto de vários estudos, de ensaios, artigos acadêmicos, tendo caído em vestibulares e sido roteirizado para virar um longa-metragem de Marcus Vilar – o mesmo ocorreu com o meu conto “Duas margens”, também já muito estudado e que já virou um filme de Ian Abé que participou de vários festivais de cinema brasileiro. Se você me perguntar qual dessas duas obras eu acho melhor – não saberei lhe responder, sinceramente. Dentro do regime e da estrutura de cada gênero, creio que são duas obras em que fui muito feliz ao escrevê-las. Sou um ficcionista, um narrador – tenho prazer em narrar. Assim, fico contente tanto escrevendo contos como romances.      

 

– Sua obra vem sendo constantemente estudada no universo acadêmico. Qual a importância disso para a disseminação do seu trabalho literário?

 

Rinaldo de Fernandes – A crítica acadêmica tem valores mais ligados à permanência, à ‘duração’ da obra. Ela tem uma importância capital para tornar a obra viva, centro de atenções. E isto ocorre porque os pesquisadores, a partir de determinados pressupostos teóricos-analíticos, retomam/reavaliam a obra, não deixando que ela caia no esquecimento. Para o autor isso é muito importante – é fator de reconhecimento, de inserção de seu trabalho no sistema literário.

 

– Sua obra vem tomando cada vez mais fôlego junto a crítica e leitores de todo o país. Mas ela começou lá atrás. Como e quando você decidiu que seria um ficcionista?

Rinaldo de Fernandes – Na faculdade de Letras da Universidade Federal do Ceará. Creio que ali eu me tornei escritor, ali eu despertei de verdade para a escrita – sobretudo depois que conheci e me tornei amigo do professor Moreira Campos, que foi um extraordinário contista. Moreira Campos foi um dos primeiros leitores de meus contos – e foi um incentivador decisivo. Eu tinha muita admiração por ele – e ele me achava um leitor obsessivo, curioso de tudo. De fato, era uma época de descobertas – e eu lia de tudo que caía nas minhas mãos.   

 

– Quais foram suas primeiras leituras e os primeiros autores que lhe influenciaram ou criaram em você o desejo de escrever também?

Rinaldo de Fernandes – Influenciado por Moreira Campos, eu li Machado de Assis, Tchekhov, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Dalton Trevisan. Foram autores muito importantes na minha formação literária. Depois descobri Rubem Fonseca e Cortázar – também fundamentais para mim. Mas, ainda adolescente, no Maranhão, eu lia com gosto alguns cronistas e sobretudo as memórias de Humberto de Campos. Eu coloquei o “de” em meu nome por causa do Humberto de Campos, que é meu conterrâneo. Coisas de adolescente. Mas me acostumei com a preposição – e o meu nome literário pegou. 

 

– Romancista, contista, professor de literatura... quem é Rinaldo de Fernandes?

Rinaldo de Fernandes – Um apaixonado pelo que faz. Nada me deixa mais feliz do que escrever um bom texto ficcional ou dar uma boa aula de literatura.  

 

– Como conciliar a vida acadêmica com a atividade de escritor?

Rinaldo de Fernandes – O escritor aprende com o professor e o professor se vale não raro do escritor. São atividades afins, complementares. Além da escrita, a vida literária exige viagens, lançamentos, contato permanente com o público. A atividade de professor me permite um contato mais intenso com as obras, pois estou cotidianamente interpretando textos literários com os alunos. E interpretar/analisar textos é, sem dúvida, uma atividade muito enriquecedora. 

 

– Você organizou antologias memoráveis, sobre autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa e Chico Buarque, entre outros. Fale um pouco sobre elas.

Rinaldo de Fernandes – Foi através de minhas antologias, tanto as de ensaios como as de contos, que entrei no mercado editorial brasileiro. Praticamente todas, e cito O clarim e a oração: cem anos de Os Sertões, Chico Buarque do Brasil, Contos cruéis, Capitu mandou flores, Chico Buarque: o poeta das mulheres, dos desvalidos e dos perseguidos e 50 versões de amor e prazer (esta de contos eróticos), foram sucesso de vendas. O antologista abriu portas para o ficcionista no mercado editorial. É muito comum um ficcionista ter dificuldade de acesso ao mercado editorial. O fato de ser desconhecido é um problema – os editores raramente querem apostar num autor sem referência no mercado. Por isso investi primeiro no antologista. Quando publiquei em 2005 O perfume de Roberta, meu primeiro livro de ficção lançado por uma editora nacional, a Garamond, do RJ, eu já tinha entrado na lista de mais vendidos com a antologia Chico Buarque do Brasil. Esta antologia abriu portas certamente para a publicação de O perfume de Roberta. De todo modo, o editor Ari Roitman, que é também um dos principais tradutores do país, ainda hoje enaltece o livro O perfume de Roberta. Agora mesmo, quando do lançamento do Contos reunidos, recebi dele o seguinte e-mail: “Lembrando seus textos, confirmo seu nome na primeira linha do conto brasileiro contemporâneo”. É bom, não é, ter esse reconhecimento de alguém com o preparo do editor Ari Roitman, hoje o principal tradutor de Vargas Llosa no Brasil?    



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h30
[] [envie esta mensagem] []



– Como você avalia o conto brasileiro na contemporaneidade?

Rinaldo de Fernandes – Muito bom, diverso, inventivo. Escrevi o longo ensaio “O conto brasileiro do século 21”, que abre meu livro Vargas Llosa – um Prêmio Nobel em Canudos – ensaios de literatura brasileira e hispano-americana. Nesse ensaio, que produzi a partir de minha experiência como antologista, crítico e professor de literatura, reconheço cinco vertentes do conto atual: a da violência no espaço público, a da violência no espaço privado, a de modulações fantásticas, a de dicção regionalista e a de extração pós-moderna. Nele comento contos de autores como Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna, Antonio Carlos Viana, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Marília Arnaud, Tércia Montenegro, Altair Martins, Sérgio Fantini, Pedro Salgueiro, Carlos Ribeiro, etc.

 

– Que autores contemporâneos de ficção podem ser destacados entre os demais?

Rinaldo de Fernandes – No Brasil, gosto do Altair Martins, que disputou comigo o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria romance e venceu. Do João Gilberto Noll, da Tércia Montenegro. Estou sempre relendo Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, que ainda estão aí produzindo ficção. Sempre volto a Raduan Nassar. Gosto também do Philip Roth, do Gonçalo M. Tavares. Mas leio outros autores e sempre estou voltando também aos clássicos: Machado, Graciliano, Rosa, Clarice. Eu venho escrevendo em minha coluna de crítica no jornal Rascunho, que é reproduzida neste Correio das Artes, uma longa série sobre romances brasileiros e estrangeiros. São autores de que gosto, e com temas e estilos variados.  

 

– Como acontece o seu processo criativo?

Rinaldo de Fernandes – Eu sempre me utilizo de imagens para produzir minhas ficções. Sobretudo imagens ambientais. Há certas imagens que exercem em mim uma força imensa, que me conduzem decididamente à escrita literária. Eu fui um domingo à praia do Jacaré, em João Pessoa, e, ao retornar, vi a imagem de umas areias na lateral da pista. Parei o carro e fiquei vendo aquelas areias, os seus montículos, as ramas ressecadas que as cortavam. Foi aí a gênese do meu conto “Duas margens”. Eu costumo dizer que os contistas são uns perturbados – e que os seus leitores são mais perturbados ainda. O que leva as pessoas a gostarem tanto do conto “Duas margens”, tão trágico, e que trata de duas mulheres traídas que enterram uma criança viva? Juro que não sei explicar.

 

– Quanto tempo leva em média para escrever um conto ou um romance?

Rinaldo de Fernandes – Meses e até anos. Eu levei oito anos para escrever a versão final do conto “A morta”. Todo esse tempo convivendo com o ambiente do conto, com os seus personagens. Aqui e ali eu escrevia um parágrafo, reescrevia – e a história não avançava. Até que, um dia, me dei por satisfeito – mas oito anos já tinham se passado. Os microcontos, até pela dimensão, é que eu escrevo mais rápido.

 

– Já escreveu ou pensou em escrever poesia também?

Rinaldo de Fernandes – Jovem, ainda no Ceará, na faculdade de Letras, ainda cometi uns poemas. Mas eram tão ruins que, certa manhã, incinerei todos. Foi isso mesmo: eu toquei fogo no poeta que havia em mim. Tive essa lucidez [risos].

 

– Após esse Contos reunidos, algum novo projeto em mente?

Rinaldo de Fernandes – Deverei publicar no próximo ano, pela Novo Século, a segunda edição do romance Rita no pomar. Uma edição que, além do posfácio de Silviano Santiago e um artigo de Silvia Marianecci publicado na Itália, trará estudos críticos dos professores/doutores Ravel Paz, Luiz Antonio Mousinho e Rosângela Melo Rodrigues.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h29
[] [envie esta mensagem] []



Conto

 

CERVA

 

 

 

por Amanda Barreto*

 

Como uma cerva assustada eu corria mata adentro, sendo estilhaçada por árvores apressadas que viam apenas um vulto passar. O descanso se fazia por poucos instantes olhando para trás com a esperança de não o encontrar. A sua força corpulenta era mais poderosa do que a minha capacidade de fuga, tive ainda a curiosidade sobre aquilo que me perseguia. Talvez os machucados que por ele poderiam vir a ser produzidos ainda me deixassem viva, talvez a dor fosse menor do que a de correr contra o tempo. Menor do que a perda da paisagem de forma minuciosa, a perda dos sabores com que rapidamente me alimentei, de um choro de desespero que nem ao menos me permiti ter. Seguindo direções diferentes me perdi em uma aldeia de grande habitação, recebendo cuidados e a perfeição da paz, mas a incerteza continuava, a curiosidade daquele ser perpetuava em sonhos. Vieram as propostas dos outros lindos cervos, e em troca lhes ofereci as minhas histórias – cantaram, dançaram, festejaram ao redor de fogueiras –, mas queriam mais do que um objeto falado, talvez o puro sentimento de uma forasteira assustada. Era ali uma aldeia protegida, alimentos em abundância, machos de uma composição biológica capaz de gerar uma prole saudável, para futuras corridas, que sem a minha ajuda materna escapasse da morte. Mas o sentido de tudo foi se esvaindo aos poucos. Perdi a capacidade de voar em quatro pernas, sentir o disparo no peito, ansiedade de chegar no lugar, sem saber qual, sorrir por desviar do vulto, por almejar a vida do amanhã, por aventurar-me em goles de água, que a única proteção era o aviso desesperado do canto de atentos pássaros. Parece tudo tão fácil, sinto algo inquietante, é a monotonia de um descanso. Penso naquele vulto, nos olhos negros de um grande animal esfomeado, que deixei para trás. Talvez fosse ele o medo do não arriscar. Já de madrugada, todos dormiam pesadamente, e aquele que tanto me acariciava possuía um sorriso prosaico no rosto como se em seus sonhos houvesse uma reciprocidade de sua paixão. Decidi então abandonar a certeza de um futuro farto, com a paz de alcance, e fugir para o desconhecido, para sentir novamente o coração pulsar, a boca ressecada, o sorriso desesperado para aquele vulto, por mim lutar. E era tudo o que queria, uma correnteza atenção. Ao voltar aos antigos costumes, eu me tornei uma presa usual, e soube que o vulto nunca quis me abocanhar, apenas exercitar o seu pesado músculo, mas ele percebeu que eu não mais hesitava, foi aí que perdeu toda atração que outrora remetia à verdadeira essência da caça. E assim procurou em outro bosque uma jovem cerva disposta a correr milhas e milhas, gritar de medo e aceitar o clássico matrimônio em sua aldeia. Perdi a minha segurança, meu fácil alimento, e nem ao menos vislumbrei de perto os negros olhos, pelos quais por toda a minha vida fui perseguida. Agora durmo sem objetivo, apenas correndo para desfazer o silêncio. O grande erro foi me encontrar em outra espécie, ser passível não é ser possível. Eu estava perturbada com a lembrança daquela respiração ofegante, que escapava de suas narinas o calor do poder. Em um dia de frio me encolhi para dentro de uma calcificada caverna, já em descanso senti o calor de uma presença, o meu radar auditivo mediu um corpo de peso elevado, mantive os meus olhos fechados, logo senti a sua língua passar nos pelos do meu rosto, despertando o movimento volumoso do meu coração, as minhas orelhas se mexiam com uma disparada velocidade, como se alertassem para o perigo iminente, o meu corpo temia, mas já não tinha a opção de correr, e quando eu já me colocava de pé, com a vontade de demonstrar a minha fome de alimentar, ele foge, sumindo para um lugar qualquer, sem o meu cheiro, em uma velocidade que só os guepardos conseguem alcançar. Agora que me arrisquei, tremo pela abstinência daquele perigo que aquele animal me oferecia. Era vida, eram orgãos em pulsação, fome desvairada. Agora a passividade atrofia os meus músculos, e os sonhos morrem em sua própria utopia.

 

--------------

* Amanda Barreto é escritora e estudante de Letras da UFPB. É autora de Como uma deusa camponesa, disponível na Amazon (acesse aqui para adquiri-lo). Já publicou neste blog “Quando tem chuva” (prosa poética).



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 07h34
[] [envie esta mensagem] []



Lançamento

BATE-PAPO E LANÇAMENTO DE CONTOS REUNIDOS NO RIO DE JANEIRO, NO ESTAÇÃO DAS LETRAS

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 21h08
[] [envie esta mensagem] []



Miniconto

 

A MULHER

 

      

  

 

por Rinaldo de Fernandes

 

  

Quando falta água, vamos os dois juntos buscar o banho. Quando sobram incêndios, inventamos com nossas astúcias o frio. Quando sobra poesia, vamos de mãos dadas lacrar os jardins. Quando do inevitável, provamos um da lágrima do outro. E nos avisamos dos perigos de certas portas. E nos amamos no espaço de uma folha. A saliva de um é a do outro. A luz que bate nas palavras é a nossa saúde. A estrada que está ali é a nossa hora. E vamos – um posto no outro, como a cor na carne da fruta.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 13h45
[] [envie esta mensagem] []



Artigo

 

DUAS PALAVRAS SOBRE

O CONTO DE RINALDO DE FERNANDES

 

  

    

 

 

 

por Amador Ribeiro Neto*         

 

 

Desde seu surgimento, no tempo em que ainda era meramente oral, o conto tem passado por constituições tão diversas quanto inesperadas. Sua mutabilidade é tamanha que ainda hoje indagamos sobre a forma e a fôrma conto. É o conto aquele relato de poucas páginas? Aquele em que a ação é única, acontecendo num único local e num tempo reduzido?

        Edgard Allan Poe estabeleceu algumas noções interessantes para o conto como: 1. brevidade narrativa; 2. tensão associada à surpresa localizada no epílogo e, 3.  unidade de efeito.

        Cortázar partiu de Poe e chegou a associar, quanto à estrutura, o romance ao cinema, e o conto à fotografia.  Isto para dizer que no conto não há tempo para divagações. Já o romance, pede desenvolvimentos de várias variantes.

        Nesse emaranhado de teorias, Mário de Andrade definiu o conto com um chiste: “Em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto”.

 

        Desde seu livro de estreia, O Caçador, Rinaldo de Fernandes vem trilhando e retrilhando as múltiplas possibilidades do conto. Sem ater-se a preocupações teóricas. Atitude essencial aos mais expressivos criadores.

        Uma constante na contística de Rinaldo são as descrições que recortam e recobrem os espaços geográficos das ações. Em flashes cinematográficos, com ponderada concisão, o leitor é convidado a montar as sequências. Sequências estas que apontam para a realidade sócio-psicológica das personagens. O prazer que o leitor sente de ser co-autor é quase inenarrável.

        Aqui tocamos num dos aspectos mais palpáveis do conto de Rinaldo: o relato-denúncia das atrocidades sociais intricadas na complexidade psíquica das personagens. Este elo entre o pessoal e o social, entre o emocional e o político, num mordente trabalho de linguagem, cria várias redes de tensão que prendem o leitor, das primeiras às últimas linhas de cada conto.

Por isso mesmo ele é considerado um Mestre do conto, não somente por Regina Zilberman, mas por todos aqueles que têm, na literatura, uma fonte de conhecimento associada ao entretenimento. Num meticuloso trabalho com a palavra.

Sendo conciso, para ser isomórfico ao texto do Rinaldo – e rápido, para não tirar-lhes, ainda mais, o tempo no bar – é o que me cabe observar sobre seu conto.  Boa noite. Obrigado.

 

----------------------

* Amador Ribeiro Neto é Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor de literatura da UFPB. Autor de Barrocidade (poesia) e Turbilhões do tempo: notas e anotações sobre poesia digital (crítica de poesia), entre outros. O texto acima foi lido no lançamento nacional, em João Pessoa, do Contos reunidos.  

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 07h56
[] [envie esta mensagem] []



Artigo

 

O CONTISTA

 

 

      

 

 

 

 

por Rinaldo de Fernandes

 

 

 

O contista é uma figura atípica. Ele atua por disfarces. Ele se mistura às pessoas, conversa, ri, fala asneiras na mesa do bar, à porta do cinema. Mas cuidado com esse sujeito que se achega às gentes, que conversa, ri e fala asneiras – ele está te observando. Qualquer gesto teu que revele uma dimensão estranha, não convencional, da tua personalidade – ele flagra, anota. O contista trata, como bem disse o escritor e amigo Cristhiano Aguiar, “daquilo que nem sempre gostamos de encontrar em nós mesmos”.

O palavrão do traído, a lágrima da lembrança, o sexo insosso, sem suspiros, a frase, carregada de suspeitas (e tão evocada pelo meu mestre Moreira Campos), dita à porta do elevador: “ah, esse menino tão loirinho é teu mesmo?” – tudo são achados, são verdadeiras pérolas para o contista.

O contista detesta aparências – e adora as essências.  Sobretudo as não muito cheirosas. Sim, porque somos feitos de amores e de odores. Somos um rio levando a existência – às vezes amargurados, atormentados, com sentimentos esquisitos, desejos recônditos, irreveláveis; solitários, caídos diante das paixões; levantados à altura das esperanças; com perdas, frustrações, pequenezas da alma; débeis diante da morte; rancorosos, capazes de arrancar com todos os dentes um tampo do outro. É esse o rio onde o contista bebe.

Machado de Assis, em “Missa do Galo”, para mim o modelo perfeito de conto, põe em cena uma mulher casada que ‘conversa’ por alguns bons minutos com um adolescente que vai para a missa. É, ele vai para a missa. E que conversa aquela do conto machadiano! As aparências da situação – a mulher é casada, o adolescente quer missa. Mas leia o conto e me diga se ele fala de relacionamento bem sucedido e de missa. Não, Machado de Assis, o Bruxo, põe passinhos miúdos nos pés da mulher casada, põe umidades nos olhos dela, e sobretudo põe perturbações na mente do adolescente – e de tal modo, que, decorridos vários anos, ele não se esqueceu da casada. Se esqueceu da missa.

É que o contista costuma se esquecer das rezas. Ele é uma figura muito pouco religiosa.       

Eu sou amigo de todos vocês. Eu converso com vocês, eu rio e falo asneiras. Mas, pelo amor de Deus, não me convidem para ir à missa. Não adianta.

Eu também sou um esquecido das rezas.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h07
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]