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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Entrevistado do mês

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA

COM SILVIANO SANTIAGO  

 

 

Silviano Santiago é ensaísta e ficcionista. Autor, entre outros, de Uma literatura nos trópicos (ensaios, 1978), Em liberdade (romance, 1981 – Prêmio Jabuti), Vale quanto pesa (ensaios, 1982), Nas malhas da letra (ensaios, 1989), Uma história de família (romance, 1992 – Prêmio Jabuti), Keith Jarrett no Blue Note (contos, 1996 – Prêmio Jabuti), Histórias mal contadas (contos, 2005) e Heranças (romance, 2008). Seus ensaios mais recentes estão reunidos em O cosmopolitismo do pobre (2004) e Ora (direis) puxar conversa! (2006).

 

 

Rinaldo de Fernandes – Em Heranças, seu mais recente romance, você procura fazer um painel da burguesia brasileira. Pode comentar as linhas de força do livro?

Silviano Santiago A linguagem ficcional. Quis recriar no novo milênio uma linguagem que chamaria de realista, na falta de outra palavra, ou de depois-de-Rosa-e-Clarice. Tem algo a ver com a linguagem que fundamenta o grande romance burguês do século XIX, onde me encostei quando estudante de Letras e onde de novo me encosto como criador. A composição de um narrador forte. Ao contrário do que profetizou Ítalo Calvino, julgo que a prosa do novo milênio terá de ser - acabará por sê-lo? - menos leve e menos leviana. Em Heranças, o peso da História e o pesado de qualquer trajetória individual recaem sobre o narrador/personagem. O mapa da contemporaneidade. Quis que o leitor reconhecesse a(s) cidade(s) e o(s) país(es) onde se passa a ação do romance.

 

Rinaldo de Fernandes – O que é o romance para você? Que gênero é este que, aqui e ali, anunciam a sua morte?

Silviano Santiago – Para mim, o romance corresponde ao hábito (de ler e) de escrever. Antes de ser um gênero literário, com história, forma e regras definidas pelas retóricas, o romance é o hábito que habito diariamente para trabalhar preocupações concretas de ordem física, moral e intelectual, mas que só me seduzem obsessivamente se vistas à sorrelfa e de esguelha, sob a consistência de linguagem a armar e enunciar drama entre personagens. Ao evadir-me da linguagem e dos enunciados que no cotidiano me identificam social e profissionalmente, neles me acorrento artisticamente. Passo a ser, na escrita do romance, o significado em tocata e fuga da vida que, sem o ser completamente, me é própria. Por confundir hábito e escrita e por não distinguir escrita e leitura, resta-me a crença de que a morte do romance se dará no dia em que o hábito não se repete. Dia do curto-circuito final. Na melhor das hipóteses, virei volume, volumes na estante. Na condição de gênero literário, o romance é sempre póstumo, corresponde ao momento em que não mais habito o hábito.

 

Rinaldo de Fernandes – Quais são as principais vertentes do romance brasileiro, o de ontem e o de hoje?

Silviano Santiago – Se o romance é o modo como o ser humano habita o hábito de escrever prosa de ficção, não acredito que exista o romance “de hoje”. Só existe o “de ontem”. Se a pergunta restringe o referido hábito de escrever, que é ocidental, ao do “brasileiro”, terei de acrescentar que é fácil configurar suas vertentes. A primeira delas se confunde com o reconhecimento da identidade sócio-política do povo que o escritor quer distinguir dos demais a fim de melhor se identificar a si mesmo. O romance é emissário de verdades relacionadas ao sentido amplo de independência (ela é sempre tardia). A segunda delas refere-se ao mal-estar diário do indivíduo em rebeldia contra as forças que uniformizam o modo brasileiro de ser e de viver. Ao habitar o hábito de escrever dito brasileiro, o romancista questiona o adjetivo que se lhe opõem por comodidade expositiva. O romance é um recado pessoal e intransferível, prenúncio de catástrofes humanas, políticas e sociais previsíveis, mas até então silenciosas. A terceira vertente refere-se à descoberta da matéria-prima que é o instrumento de trabalho que funda o hábito diário. Tudo já está, e desde sempre, na linguagem e na língua portuguesa. Ao tudo falta o fraseado, que é dado pelo dedo do escritor no teclado da máquina de escrever. Ao definir a finalidade do hábito de escrever, a impressão digital do datilógrafo define escrita literária. O romance é língua e linguagem surpreendidas em trânsito. No pega pra capá da história literária, vale o que vale um clique de máquina fotográfica. Mas em gesto de prepotência, ele afiança rebeldia e escombros. Joga pedra em todos os telhados de vidro. Nos casos exemplares do romance brasileiro, as três vertentes co-existem.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h15
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Rinaldo de Fernandes – Você tem uma projeção internacional como ensaísta. Como definiria o seu ensaísmo? Literatura e sociedade, literatura e história, estudos culturais... acha que se afina mais com que vertente teórico-crítica?

Silviano Santiago – Antes de mais, definiria meu ensaísmo como uma atividade profissional do romancista. Todo meu ensaio foi escrito de encomenda e, de modo geral, foi bem remunerado, direta ou indiretamente. Não me lembro de um só caso em que tomei assento, deliberadamente, para escrever um ensaio. Como ensaísta, não chego aos pés dos bons nomes da minha geração, como Davi Arrigucci, Luiz Costa Lima e Roberto Schwarz. Em segundo lugar, o ensaísmo corresponde a uma forma úmida de esquizofrenia na formação do meu caráter. O ensaísta se distancia do escritor para se confundir com o professor. Meu ensaísmo (não me refiro, é claro, a tudo que existe de ensaio nos meus romances e poemas) é, portanto, universitário. Gostaria de crer que é um saber de boa qualidade, altamente especializado, que procura escapar-se das amarras da especialização. Ele se enquadra e se deixa enquadrar por metodologias de leitura que estão à disposição de todo e qualquer professor/ensaísta, interessado em passar uma (nova) informação ao público universitário, levar o aluno a refletir sobre a análise e a interpretação de textos literários, ou não, aguçar seu sentido crítico, expô-lo em público a partir das sucessivas teses universitárias. No sentido platônico da palavra, meu ensaísmo sempre foi dialético. Peripatético. Tem algo, e muito, a ver com as andanças em frente ao quadro-negro, com o diálogo entre professor e aluno na sala de aula. Reativo um lugar comum: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende” (Guimarães Rosa).

 

Rinaldo de Fernandes – Como é seu processo criativo? O que o leva a produzir um romance, um conto?

Silviano Santiago – O processo criativo é produto do número de horas em que consigo manter a bunda sentada na cadeira. Depende, portanto, do tempo que posso roubar das minhas atividades propriamente profissionais e mais rentáveis. Ultimamente, o processo criativo tem-se regalado com as horas de lazer do aposentado. Ele também tem algo a ver com as horas em que aquela senhora dá-se ao luxo de se sentar para se dedicar à leitura de muitíssimos livros variados. Tem, ainda, a ver com a disponibilidade da imaginação em momentos de lusco-fusco, antes de adormecer e ao acordar. Pode ter a ver com as caminhadas pelos corredores dos museus e das galerias de arte (a figura e a cor), ou com a atenção dada em exclusividade ao ouvido (o som, fonético ou musical). Etc.

 

Rinaldo de Fernandes – Que diferenças identificaria entre o resenhista e o crítico universitário?

Silviano Santiago – O resenhista resenha e o crítico literário ensaia. Há que consultar os sentidos do verbo ensaiar. Consulte-se o Houaiss, bem à mão. 1: Ele experimenta, põe à prova seu conhecimento. 2: Analisa o objeto para descobrir o quilate. 3: Testa sua capacidade, trabalhando por um sistema de prova e contraprova. 4: Repete o texto até o saber de cor. 5: Tenta avançar, treina repetidas vezes. 6: Aprimora-se. 7: Está pronto, julga-se apto. - Em mãos hábeis, a resenha é uma brincadeira de bom gosto; em mãos perversas, pode ser uma brincadeira de mau gosto. Depende, portanto, das condições climatéricas tanto do indivíduo-crítico quanto da vida literária nacional e internacional. É um cheque, datado e assinado. Como diz Pound, se a assinatura for dum Rockfeller, sabe-se que o cheque tem valor. Se for de una cualquiera, acaba-se sempre por ter um borrachudo em mãos.

 

 

Rinaldo de Fernandes E a relação do escritor com a política? O que pensa sobre esta questão?

Silviano Santiago Para o escritor, a melhor maneira de pensar sua relação com a política é não pensá-la. Delega ao narrador ou ao personagem o ato de pensá-la. Compete, pois, a outros a tarefa de pensar a relação do escritor com a política. Continuo: compete a ele, romancista, enquanto cidadão pensar a relação entre escritor e política. Em seguida: compete ao ideólogo do partido refletir sobre a função e o papel políticos da arte e exigir, ou não, o alinhamento do escritor e de sua escrita aos ditames. É o caso clássico de Andrei Zhdanov como porta-voz do Partido Comunista. Outro exemplo: compete ao crítico literário engajado amadurecer seu pensamento teórico com a ajuda de exemplos tomados da literatura. É o caso de um bom número de pensadores marxistas britânicos. Outro mais: compete ao estreante submisso às ordens partidárias dramatizar as relações pessoais da perspectiva sócio-política e econômica. E la nave va.

 

 

(Leia as entrevistas anteriores do Blog: Moacyr Scliar em 12/12/2007; Nelson de Oliveira em 17/01/2008; Glauco Mattoso em 11/02/2008; Fabrício Carpinejar em 03/03/2008; André Sant’Anna em 23/03/2008; Luiz Ruffato em 27/04/2008; Fernando Bonassi em 20/05/2008; Marcelo Mirisola em 07/06/2008; Marçal Aquino em 21/07/2008; Ricardo Soares em 18/08/2008; Marcelino Freire em 13/09/2008; Raimundo Carrero em 27/10/2008; Hélio Pólvora em 14/12/2008; Ronaldo Correia de Brito em 30/03/2009; Affonso Romano de Sant’Anna em 26/04/2009; Daniel Piza em 25/05/2009; Lira Neto em 22/06/2009; Luiz Fernando Emediato em 13/07/2009; Deonísio da Silva em 29/08/2009; Manuel da Costa Pinto em 26/09/2009; José Nêumanne Pinto em 31/10/2009); Mário Chamie em 21/11/2009; Antonio Carlos Secchin em 15/01/2010)

 

(Próximo entrevistado: W. J. Solha)

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h09
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Coluna Rodapé

Fev./2010

 

JOSÉ LINS DO REGO

– A OBRA E OS CRÍTICOS (4)

 

 

   Menino de engenho (de início, o propósito do escritor era produzir uma biografia de seu avô), primeiro romance de José Lins Rego, publicado 11 anos antes de Fogo morto, fixa um elemento que será fundamental em vários livros do paraibano – a memória. Com efeito, é a memória, a lembrança do mundo da infância em engenho que irá compor o cerne dessa narrativa de linguagem espontânea, natural (estratégia do escritor, que quer, como já atentou Silviano Santiago, que seu relato crie no leitor uma “ilusão do real”, ou seja, que, contornando os artifícios da ficção, pareça mais um livro de memórias e menos um romance), marcadamente lírica. O narrador do livro, nostálgico, é angustiado, atribulado em suas recordações. O comentário, consistente, é de Neroaldo Pontes de Azevedo: “A narrativa em primeira pessoa proporciona uma contaminação entre o adulto narrador e a criança protagonista. A criança, por sua vez, contamina o narrador, que se mostra nostálgico do tempo que passou, buscando na arte a recuperação do tempo perdido. Mas a descrição do mundo vivido pela criança é feita pela ótica de alguém que pertencia à classe dominante e que fruíra dos favores da situação. A distância temporal confere ares místicos a esse mundo que já então se desagregara. É o narrador adulto contaminando o mundo da criança. Não se vê caracterizado o nível de tensão entre as classes em conflito. A figura do patriarca José Paulino, senhor de engenho, avô do menino Carlos de Melo, é retocada com pinceladas destinadas a mostrá-lo como amigo dos cabras do eito. O nível de tensão resvala do social para o psicológico [...]”. Mesmo sendo o foco centrado nas angústias do menino examinadas por um narrador adulto, é entrevista em Menino de engenho a degradação do mundo em volta. Em José Lins, opina Otto Maria Carpeaux, e está de acordo Sérgio Milliet, há uma exata aderência de “assunto com estilo”. Milliet aprofunda a questão: “Assim como suas personagens se movem com naturalidade e universalidade, sua língua se evidencia despida de gongorismos, e seu estilo se revela inteiramente funcional”. Vai nessa direção a pesquisa pioneira de Sônia Lúcia Ramalho de Farias sobre Pedra Bonita e Cangaceiros (romances postos fora do ciclo da Cana-de-Açucar, nos quais José Lins, “pela primeira vez”, recorta como tema principal “dois fenômenos da cultura dominada” – o messianismo e o cangaço). Sônia Lúcia aborda dois aspectos centrais no estilo dessas duas obras: a oralidade e a redundância. Nesses dois romances, ao tema popular corresponde uma forma narrativa baseada em expressões populares. Neles, via de regra, “a apreensão das experiências relatadas se dá pela recorrência a uma técnica narrativa que visa, através de determinados recursos estilísticos, incorporar, no produto literário erudito, as formas lingüísticas e estéticas peculiares à comunidade nordestina e às suas manifestações culturais”. Um desses recursos consiste, justamente, em “representar o traço de oralidade e a marca da redundância, características das mais marcantes na literatura popular”. José Lins do Rego, para concluir, além de ficcionista, foi cronista esportivo. Traduzido em vários países, teve obras levadas para o cinema. Tomou posse na Academia Brasileira de Letras em 1956, ano anterior ao de sua morte.

 

 

(Minha coluna de crítica publicada mensalmente no jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, e no Correio das Artes, de João Pessoa; para acessar as demais colunas, clique em www.rascunho.com.br, no link “Rodapé”)

 

 

A seguir: entrevista exclusiva com Silviano Santiago

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 07h17
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“Memórias da sauna finlandesa”

 

ESCLARECIMENTO DE MIRISOLA  

 

 

Recebo outro e-mail do escritor Marcelo Mirisola em que ele esclarece o seguinte trecho que escrevi na postagem anterior: Não sei se, no presente caso, por se sentir prejudicado, Mirisola procurou esse direito [o de resposta na Folha de S. Paulo à resenha do professor Alcir Pécora]”. Eis o novo e-mail de Mirisola:

 

 

Não procurei a Folha, Rinaldo, porque achei que a “crítica” não estava à altura do livro. Não tinha necessidade de responder, entende? No entanto, como você me perguntou o que eu havia achado da “crítica”, e o seu blogue é um lugar em que se discute literatura com seriedade, achei oportuno sugerir a publicação do e-mail. 

      

          abraço,

         

          Marcelo Mirisola

 

 

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h51
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Exclusivo!

 

MIRISOLA RESPONDE A PÉCORA 

 

O livro que gerou a polêmica

 

 

Recebi um e-mail do escritor Marcelo Mirisola no qual ele trata de resenha recente, produzida pelo professor e crítico Alcir Pécora, da Unicamp, e publicada na “Ilustrada” da Folha de S. Paulo em 23/01/2010. Resolvi publicá-lo na íntegra, com a devida autorização (e mesmo sugestão, como fica claro no final do e-mail) de Mirisola. Resolvi publicar o e-mail por se tratar, antes de tudo, de um comentário que, creio, contribui para o debate acerca da produção literária contemporânea, da relação criador e crítico, dos equívocos (pela pressa para julgar) de certos resenhistas. Devo dizer, por outro lado, que a discordância que tive com o professor Pécora, no que se refere à resenha que ele escreveu sobre meu romance Rita no Pomar, se tornou pública, já que a Folha de S. Paulo à época (num gesto ético e justo da editoria da “Ilustrada”) me deu o direito de resposta. Não sei se, no presente caso, por se sentir prejudicado, Mirisola procurou esse direito. Eis o e-mail do escritor:

 

 

Tudo bem, Rinaldo?

 

Você também foi “vítima” dos achaques do Pécora, da Unicamp, né? Aliás, acho que o nome não é achaque, mas - no meu caso - chilique mesmo.

Ele caiu nas minhas armadilhas mais óbvias. Tem um conto no meu Memórias da sauna finlandesa cujo título é “Nunca mais o lixinho do biombo”. Eu dou uma zoada no mundo acadêmico. Philiph Roth vive fazendo isso. Coetzze idem.

A diferença é que os acadêmicos de Coetzze e Roth são refinados. Eu acho que o que envenenou o professor da Unicamp (e talvez tenha lhe causado furores inconfessáveis de identidade) foi o fato de que o meu professor é um brega. Confesso que a reação ingênua travestida de crítica me constrangeu. Pra que tanta ginástica cerebral? Imagina que ele termina o tonitruante raciocínio “acusando” o autor-narrador de chafurdar da mediocridade que condena. Claro que sim!

E é a partir daí que vem a liberdade de escrever o que for preciso. O cara não entendeu nada, mandou um sorvete na testa. Ficou puto com o lixinho do biombo (deve ter se achado lá em meio aos buços da Marcia Tiburi) e a raiva dele o cegou. Só faltou escrever: “como se atreve?”.

E eu fico aqui pensando e me perguntando: como somos atrasados, por que nossos “pensadores” são tão tímidos e recalcados? São esses os parâmetros que eles usam para fazer a listinha do vestibular, para dizer que o Chico Buarque é um gênio da literatura?

Se quiser, pode publicar isso no seu blogue,

         

Abraço,

 

Marcelo Mirisola      

 

 

PS: Para ler a resenha – objeto da discordância de Mirisola – que o professor Alcir Pécora escreveu sobre Memórias da sauna finlandesa, clique aqui. Se o professor Pécora quiser responder ao e-mail de Mirisola, o blog, claro, democraticamente, estará aberto.   

 

 

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h51
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Informe

 

CONTO COLETIVO   

 

 

Um dos seqüestradores, na hora em que a camionete desceu da pista e rolou pela estrada esburacada, pôs a mão pesada sobre o homem, forçando-o a meter a cabeça debaixo do banco. Então o homem não viu mais nada – mesmo porque os vidros escuros da camionete o impediam de ver qualquer coisa mais nítida, apenas as botas brilhosas do seqüestrador que vinha de seu lado. Jogaram-no, na madrugada, num quarto cheirando a urina, amarraram-lhe pernas e pescoço, puseram-lhe uma fita grossa na boca. Na manhã seguinte, ao despertar, ainda todo amarrado, e com o cheiro de urina agora insuportável, impregnando tudo, viu pela pequena janela entreaberta do quarto uma cena que o estranhou. No alto da rampa, um carro dependurado numa árvore. Um carro dependurado numa árvore? O homem, virando de lado para aplacar a dor terrível da corda passando-lhe pelo pescoço, começou a chorar. Um choro tão forte que um passarinho lá fora, de repente, passou a piar.

 

 

(O texto acima, de minha autoria, integra um conto coletivo - um conto policial - que o escritor pernambucano Homero Fonseca está publicando aos pedaços em seu blog a partir de uma foto insólita captada à beira de uma rodovia do litoral de Pernambuco. Homero convidou vários escritores para produzirem o conto. Confira a foto e o conto coletivo clicando aqui)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h16
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Informe

 

RUY ESPINHEIRA LANÇA NOVO LIVRO 

 

 

 

Recebi – e aproveito para agradecer ao autor pelo envio – o novo livro de poemas de Ruy Espinheira Filho. Intitulado Sob o céu de Samarcanda, o livro é editado pela Bertrand Brasil (clique aqui para ter detalhes). Já agraciado com o Prêmio Jabuti (em 2005, com Elegia de agosto e outros poemas), Ruy Espinheira vive em Salvador e é professor da Universidade Federal da Bahia. Já colaborou com uma das coletâneas de contos que organizei (a Quartas Histórias). Eis o trecho inicial de um (belo) poema que integra Sob o céu de Samarcanda:

 

 

VISITA

 

Sempre quis fazer esta visita

todas as vezes que estive

na cidade,

mas havia a pressa, os compromissos, os outros

amigos. Assim é

o Tempo,

sabemos,

sempre escasso.

                              O Tempo

que certa vez não

existiu.

 

Longamente não

existiu. Era só

uma palavra (em alguns casos,

por certo,

advertência)

que não ouvíamos enquanto

brincávamos ao sol, ou noite

adentro.

 

 

[...]

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h08
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Coluna Rodapé

Janeiro/2010

 

JOSÉ LINS DO REGO

– A OBRA E OS CRÍTICOS (3)  

 

 

Fogo morto é composto de três partes, cada uma sendo protagonizada por um personagem. Na primeira, o foco recai sobre o ressentido José Amaro – mestre seleiro, homem branco, pobre, que repudia os ricos e é, de regra, ríspido com a mulher e a filha. Em vários aspectos ele se parece com o personagem que domina a segunda parte do romance, o proprietário rural, dono de engenho decadente, Lula de Holanda. Comparando-os, afirma Antonio Candido: “Como o Coronel Lula de Holanda, Zé Amaro tem um grande e doloroso sofrimento de inferioridade, do qual nascem a desconfiança com tudo e com todos e a doença do prestígio. Para ambos, acabou o mundo em que quereriam viver. Estão irremediavelmente perdidos na sua decadência, entre as suas mulheres que lhes fogem e as filhas murchando. Na casa de ambos campeia a loucura, e o ambiente é de tragédia”. A terceira parte do livro traz como destaque o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, o “Papa-Rabo”, como é apelidado pelos moleques. Um dos grandes personagens de José Lins – quixotesco, humano, digno. Um personagem que brada contra as injustiças, a má política, que condena corajosamente a conduta dos poderosos. É ainda Antonio Candido quem afirma: “Tem [como o Quixote, de Cervantes] o mesmo desprezo pelas condições materiais, a mesma coragem maluca e, sobretudo, a mesma capacidade de ver as coisas segundo a deformação do ideal, e não segundo o que realmente são”. Um elemento importante do Fogo morto é a construção de seu narrador. Um narrador, em terceira pessoa, que não intervém ou opina na narrativa, deixando os personagens ou as várias vozes se expressarem, através do discurso direto ou do indireto livre. Não intervém mas age nos bastidores – coordena, organiza o material narrativo de modo a fazer o leitor pensar, se posicionar, por choque ou justaposição das versões dos personagens, sobre a visão de mundo destes. Quem chama a atenção para isto é o citado (na coluna anterior) Eduardo F. Coutinho, que entende ainda que no livro se estabelece um outro choque, um outro contraste: aquele, não hierarquizado, entre a posição (de não expressar “pensamento próprio”) do narrador e as dos personagens. Contraste que desempenharia a função de “denunciar as ideologias” que as versões dos personagens passam, resultando num romance reflexivo, “questionador”. [Continua na próxima coluna]

 

 

(Minha coluna de crítica publicada mensalmente no jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, e no Correio das Artes, de João Pessoa; para acessar as demais colunas, clique em www.rascunho.com.br, no link “Rodapé”)

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h12
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Artigo

 

A HISTÓRIA DO HAITI É A HISTÓRIA

DO RACISMO NA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL 

 

 

 

 

    por Eduardo Galeano*

 

 

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

 

O voto e o veto

 

Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto. Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe: – Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido. 

 

O álibi demográfico

 

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

 E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

 Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

 Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

 

A tradição racista

 

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".  O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro". Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica:

"Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

 

A humilhação imperdoável

 

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão.

Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

 

O delito da dignidade

 

Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti, mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

 

 

 

 

* Este artigo de Eduardo Galeano está circulando pela internet.

 

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h52
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Informe

 

RITA NA UNICAMP 

Livro - Serenidade e Fúria - O Sublime Assismachadiano

 

    Livro de Ravel Giordano sobre

    Machado editado pela Nankin

 

 

O longo e primoroso ensaio, ainda inédito, “Até tu, Pet, ou Rita no Pomar e a arte de (des)pentear cachorros” que Ravel Giordano Paz, professor da Universidade Estadual de Goiás e doutor em Literatura Brasileira pela USP, produziu sobre meu romance acaba de ser aprovado para publicação, no segundo semestre de 2010, na Remate de Males, uma das principais revistas acadêmicas do país. A Remate de Males é uma publicação semestral do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). A notícia me foi dada pelo próprio professor Ravel, que é autor do livro Serenidade e fúria: o sublime assis machadiano, editado em 2009 pela Nankin e a EDUSP. Fico contente, pois o ensaio de Ravel – fui um de seus primeiros leitores – é mesmo maravilhoso!



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h34
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Entrevistado do mês

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA

COM ANTONIO CARLOS SECCHIN  

 

Antonio Carlos Secchin é poeta e ensaísta. Autor, entre outros, de Todos os ventos (poesia reunida – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002) e João Cabral: a poesia do menos (2a ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999). Publicou mais de três centenas de textos (poemas, contos, ensaios) nos principais periódicos literários do país e do exterior. Integrou a coletânea Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte (org. Rinaldo de Fernandes – São Paulo: Geração Editorial, 2008). Tornou-se, em 2004, o mais jovem membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira 19.

 

Rinaldo de Fernandes – Você, além de poeta, é ensaísta. Que características você vê na poesia que se faz hoje no Brasil? Destacaria que poetas?

Antonio Carlos Secchin – Nos trabalhos mais recentes que li, observo um resgate da subjetividade. Não a de um “eu” inteiriço, e sim polimorfo, instável. De qualquer modo, o primado da “poesia objetiva”, estabelecido desde Cabral e os concretos, e a obsessão metalinguística parecem parâmetros em baixa. Há vários anos citei, entre vários outros, os nomes de Adriano Espínola, Eucanaã Ferraz e Paulo Henriques Britto. A produção subsequente desses autores confirmou minhas expectativas.

 

Rinaldo de Fernandes – A poesia da MPB é válida? Letra de música pode ser vista como poema?

Antonio Carlos Secchin – A poesia da MPB certamente é válida, conquanto letra e poema não se confundam: embora compartilhem recursos linguísticos semelhantes, obedecem a estratégias diferentes. Isso não implica superioridade de um sobre a outra (ou vice-versa): significa, apenas, que os lugares de ambos, no círculo de produção e consumo da cultura, não são idênticos.

 

Rinaldo de Fernandes – Você se destaca como pesquisador da poesia de João Cabral de Melo Neto. Por que o considera um poeta singular dentro do Modernismo?

Antonio Carlos Secchin – Tratei longamente do autor em João Cabral: a poesia do menos e em vários ensaios de Poesia e desordem e Escritos sobre poesia & alguma ficção. Desenvolvo a ideia de que Cabral estabelece uma nova gramática em nossa poesia, exigindo um leitor que desautomatize suas expectativas sobre o que é considerado “poético”. Daí a relutância com que ele foi inicialmente admitido, até consagrar-se, pouco a pouco, como nosso último “clássico”.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h38
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Rinaldo de Fernandes – E a crítica atual? O resenhista tem função diferente do ensaísta?

Antonio Carlos Secchin – Não se deve subestimar a atividade do resenhista, imerso no clamor do momento, e responsável por uma sinalização arriscada e preliminar frente à imensa massa literária que chega diariamente à redação dos periódicos culturais do país. Em geral, o resenhista sofre dois constrangimentos: o da corrida contra o tempo, para não atrasar a encomenda, e a corrida contra o espaço, tendo de comprimir em duas laudas tudo o que pensa sobre um livro ou uma questão. O ensaísta, idealmente, não sofre constrangimento algum.

 

Rinaldo de Fernandes – Você é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como vê o ensino e as pesquisas de literatura no país?

Antonio Carlos Secchin – Observo, principalmente na Pós-Graduação, um enorme interesse na produção contemporânea, a ponto de autores surgidos, por exemplo, na década de 1970 já serem – equivocadamente – considerados “superados”. Tal premência do novo pelo novo me parece bastante discutível. Não é o caso de particularizar, mas quantos autores entusiasticamente aclamados há pouquíssimos anos já nos soam com prazo de validade literária vencido?

 

Rinaldo de Fernandes – Você foi o mais jovem escritor a entrar na Academia Brasileira de Letras, não é isto? Qual a verdadeira função da ABL?

Antonio Carlos Secchin – Na história recente da instituição, sim. Porém, quando foi fundada, um dos sócios (convidado por influência de Machado de Assis) foi Magalhães de Azeredo, à época com vinte e cinco anos. Morreu com 91, na Itália. Incrível: foi membro fundador, em 1897, atravessou duas guerras mundiais e ainda estava vivo na presidência de João Goulart. A Academia está mais atuante do que nunca, nas mais diversas atividades. Publica ou coedita cerca de quarenta livros por ano. Esteve na linha de frente da reforma ortográfica. Oferece cursos e palestras de alto nível. Convido todos a visitar o site www.academia.org.br Garanto que as surpresas positivas serão muitas.

 

Rinaldo de Fernandes – Como pensa a relação do escritor com a sociedade? A poesia deve ser engajada?

Antonio Carlos Secchin – Não necessariamente, em termos de conteúdo. Engajada sempre, em termos de compromisso com a renovação da linguagem.

 

(Leia as entrevistas anteriores do Blog: Moacyr Scliar em 12/12/2007; Nelson de Oliveira em 17/01/2008; Glauco Mattoso em 11/02/2008; Fabrício Carpinejar em 03/03/2008; André Sant’Anna em 23/03/2008; Luiz Ruffato em 27/04/2008; Fernando Bonassi em 20/05/2008; Marcelo Mirisola em 07/06/2008; Marçal Aquino em 21/07/2008; Ricardo Soares em 18/08/2008; Marcelino Freire em 13/09/2008; Raimundo Carrero em 27/10/2008; Hélio Pólvora em 14/12/2008; Ronaldo Correia de Brito em 30/03/2009; Affonso Romano de Sant’Anna em 26/04/2009; Daniel Piza em 25/05/2009; Lira Neto em 22/06/2009; Luiz Fernando Emediato em 13/07/2009; Deonísio da Silva em 29/08/2009; Manuel da Costa Pinto em 26/09/2009; José Nêumanne Pinto em 31/10/2009; Mário Chamie em 21/11/2009)

 

(Próximo entrevistado: Silviano Santiago)

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h27
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Feira do Livro de Porto Alegre/2009

 

CHICO BUARQUE DO BRASIL

ENTRE OS MAIS VENDIDOS EM PORTO ALEGRE

 

 

 

Matérias feitas por estudantes de jornalismo da Unisinos, na recente Feira do Livro de Porto Alegre, constataram que, entre os títulos mais vendidos, ficou Chico Buarque do Brasil, que organizei em 2004 para a Ed. Garamond e a Fundação Biblioteca Nacional. É incrível como, passados quase 5 anos de seu lançamento, Chico Buarque do Brasil, que virou referência para pesquisadores do país afora, ainda atrai o público – onde o livro fica exposto, vende. A Garamond acabou de fazer mais uma reimpressão dele. Leia, abaixo, a matéria assinada por Daniela Fanti sobre os livros mais procurados na Feira do Livro de Porto Alegre/2009:

 

 

Dentre as biografias mais procuradas estão as várias já lançadas do Rei do Pop, Michael Jackson. “Estou sem nenhum exemplar das biografias do Michael Jackson desde os primeiros dias de Feira”, afirma a expositora Gislaine Fogaça, que fez um novo pedido dos livros à editora para poder suprir a grande demanda.

Apesar de ser o “carro chefe” de muitos estandes, não só a vida de Michael Jackson anda fazendo sucesso na Feira. Títulos como Queimando tudo, de Timothy White, que conta em detalhes a envolvente trajetória de Bob Marley, Renato Russo, de Carlos Marcelo e Chico Buarque do Brasil, de Rinaldo de Fernandes, também são muito procurados pelos visitantes, segundo os expositores.

O livreiro Gustavo Hickman explica que a vida dos músicos inspira curiosidade tanto para os fãs quanto para o público em geral. “As pessoas querem saber como é viver nos palcos, quando tudo começou e como chegaram até ali. E mesmo aqueles cantores que não são exemplo de vida, as pessoas querem saber o porquê daquilo e como tudo aconteceu”, conta.

Já os cantores Erasmo Carlos e Eric Clapton se integram ao gênero contando suas próprias biografias. Em Minha fama de mau e Eric Clapton – A autobiografia, os artistas viram autores e narram suas fascinantes experiências adquiridas ao longo de suas carreiras.

E assim, a música vira livro na Feira. Lá estão desde as geniais sinfonias de Mozart até o estilo altamente sofisticado de Frank Sinatra. São histórias sedutoras dos que continuam cantando ou, até mesmo, dos que já partiram e deixam saudades.

 

 

Confira todas as matérias sobre os livros mais procurados na Feira do Livro de Porto Alegre clicando aqui



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h29
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Informe

 

ENSAIO DA PROFESSORA E PESQUISADORA

GLÓRIA MARIA OLIVEIRA GAMA     

     

 

Foi postado neste blog, em 10/01/2010, um comentário elogioso da professora e pesquisadora Glória Maria Oliveira Gama acerca da resenha, também postada aqui no blog, que o ficcionista e crítico Wilson Bueno escreveu sobre meu livro de contos O perfume de Roberta. Para quem não sabe, Glória Gama tem como objeto de seu doutorado em Letras na UFPB exatamente os contos de O perfume de Roberta. Há alguns meses, aconteceu em Natal (RN) um seminário de literatura, com pesquisadores de todo o país, do qual Glória participou palestrando acerca de meu conto “Rita e o cachorro”. Este conto gerou o romance Rita no Pomar, que publiquei em 2008 e que foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2009. Leia, no blog da escritora e professora Sônia van Dijck Lima, o ensaio escrito (e apresentado no seminário de Natal) por Glória Gama sobre “Rita e o cachorro” – é só clicar aqui.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 18h57
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Resenha

 

CENA DE RUA

 

 

por Wilson Bueno

 

    (in: Paraná-Online, 16/07/2006)

 

 

Alguns deles têm como cenário o que vai sendo visto numa viagem de carro (ruas de uma pequena cidade, sítios com plantas e árvores, o areal branco, “paisagem rubra, de pedras e raros arbustos, paisagem seca, de muitos gravetos”, uma venda ou um bar pobre de beira de estrada). Porém a capa, vista de um pedaço de cidade com seus edifícios e algo de um parque ou jardim se fundindo na bruma, sugere serem os contos de O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) de temática urbana. Assim, “Passarinho”, o drama do nordestino que chega a São Paulo para trabalhar; “Oferta” e “O perfume de Roberta”, aqueles das meninas que se prostituem por um quase nada. Assim, a revolta do mendigo, vítima da violência pelo furto praticado [“Ilhado”] ou a procura vã pelos seus direitos de que foi preterido, injustamente, num concurso [“Negro”].

Dilemas do indivíduo (amor não correspondido, solidão), ou daqueles impostos pela realidade do país (com suas desigualdades sociais e os cancros que delas advêm). Relatos em que a menção ao movimento do sol, do vento, do mar e aos gestos dos personagens se insere em meio à ação e lhes determina o ritmo; em que vozes narrativas, atendo-se ao que estão vendo, sabem, apenas em parte, o que efetivamente acontece. Em “Ilhado”, o forasteiro na cidade observa, de longe, o encontro do casal e fica sem saber quem são, como vivem. No conto “O cavalo”, o morador de um prédio acompanha, da varanda de seu apartamento, a briga do casal numa casa vizinha. Ou vozes de quem, embora participando da ação, não têm condições de saber de tudo que se passa, instaurando-se, então, no relato, zonas de dúvidas. No conto “A morta”, há quem afirme a presença de Suzana no quarto e há quem a negue. Há quem escute vozes na beira do rio e, diante dessa afirmativa, quem afirme estar apenas falando sozinho.

Entre os dezoito contos que formam o livro, muito breve e muito intenso o que tem por título “O último segredo”. É construído num único parágrafo de frases curtas que se enlaçam pelas vírgulas para contar o encontro da mãe com o filho, morto em praça pública. Mãe e filho em meio à presença dos curiosos, aos olhares dos que passam, ao som que anuncia uma promoção de tesouras, ao luminoso do colégio que pisca. No desespero, diante do irreversível, ela chora e grita, canta uma cantiga, encosta o rosto no rosto do filho, procura sentir-lhe as mãos, os olhos. Como parte do cenário, o menino que ri, a mulher que se olha no espelho, o velho que opina sobre o morto, a foto que é feita, o carro de polícia que chega, o sargento que procura escutar o que diz a mãe para o filho. No chão, tocos de cigarro, formigas que já se apossam dos pés do morto e palavras que não são ouvidas. As primeiras seqüências do relato dizem da mulher que se precipita “passa pelas pessoas, pede passagem, corre, cruza o sinal, atravessa a praça” para chegar junto ao corpo caído do rapaz. Ela está com “o vestido frouxo, uma só sandália”. Ele, “sujo e sem camisa, o corpo cortado de rajadas”, tem barro grudado nas pernas, os cabelos duros e a mãe o chama de Joca. E, nada mais é dado a ver, negando-se ao narrador e ao leitor o nome da mãe, a maneira como ela vive, como soube da morte do filho, quem o matou e por qual razão, as palavras ditas no seu ouvido nesse leito de morte que é o calçadão.

Rinaldo de Fernandes, doutor em Letras e professor de Literatura na Universidade Federal da Paraíba, estreou na ficção em 1997, com O Caçador [EDUFPB]. Depois, fez os textos da antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século (2001), organizada por José Nêumane Pinto, e organizou o volume O clarim e a oração: cem anos de Os Sertões (2002). Um produtivo interregno antes de retornar, com sapiência, ao conto. O perfume de Roberta é uma confirmação de que, não somente ele é dono de seu talento, mas, também, de seus recursos narrativos.

 

 

(Para ler esta resenha no Paraná Online, clique aqui



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h20
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