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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Informe

LITERATURA BRASILEIRA 
CONTEMPORÂNEA E VIOLÊNCIA

 


Lúcido, bem pesquisado e bem composto o ensaio “Prosa contemporânea brasileira e violência”, de Cristhiano Aguiar, Doutor em Letras e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras do Mackenzie (SP). O ensaio acaba de ser postado no site da revista Continente e está muito bem editado, fácil de ler. Cristhiano faz uma arqueologia da origem da literatura da violência no Brasil, reconhecendo o impacto que, para certos autores contemporâneos, tiveram obras publicadas nos anos 60 por Carolina Maria de Jesus, João Antonio, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Daí ele indicar, entre esses autores contemporâneos que trouxeram as marcas da ficção violenta dos anos 60, os nomes de Patricia Melo, Ana Paula Maia, Santiago Nazarian, Marcelino Freire, Sheila Smanioto, Rinaldo de Fernandes, Luiz Ruffato e Paulo Lins. Na sequencia o ensaísta dá destaque a três outros autores que, neste momento, segundo pensa, trariam uma nova dicção acerca da literatura da violência no Brasil: o paulista Marcelo Maluf, a mineira Conceição Evaristo e o cearense Sidney Rocha. Agradeço ao Cristhiano Aguiar por citar o meu nome em seu ensaio. Os estudiosos da vertente da literatura da violência têm, não raro, citado meus contos e romances na lista de obras representativas dessa vertente da literatura brasileira atual. Um bom artigo nesse sentido foi o “Literatura da violência” (que está na internet), do jornalista e articulista da Folha de S. Paulo Marcelo Coelho, no qual é abordado o meu conto “Ilhado”, que é tido por Marcelo como representante da literatura brutal, de extração rubem fonsequiana. Ana Lúcia Rodrigues Guterra também estudou meu conto  Duas Margens em sua dissertação de Mestrado defendida no Rio Grande do Sul e que ela transformou no livro Literatura, violência e vida social na sala de aula: práticas e reflexões. Também no Rio Grande do Sul a pesquisadora Gabriela de Oliveira Vieira defendeu a dissertação de Mestrado intitulada Configuração dos personagens e o papel da violência na sociedade brasileira em releituras de contos de Machado de Assis, em que aborda, entre outras narrativas curtas, o meu conto Beleza. Devo dizer que o tema da violência entra em certas obras minhas, e não poderia deixar de ser, como busca para gerar algum tipo de reflexão crítica do leitor, ou mesmo algum desconforto nele pelo tipo de enquadramento proposto. Só tenho que agradecer mesmo a esses estudiosos e articulistas! O ótimo ensaio “Prosa contemporânea brasileira e violência”, de Cristhiano Aguiar, pode ser lido colando endereço abaixo: 

https://www.revistacontinente.com.br/edicoes/203/prosa-contemporanea-brasileira-e-violencia



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h33
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Depoimento

 

A AVE IMPONENTE E O INSETO

 


por Rinaldo de Fernandes

 

Há entre os romancistas, mesmo que muito distantes no talento, alguns aspectos da recepção de determinadas obras e de seus processos criativos que os aproximam. E há também o adágio que diz: junte-se aos bons que serás um deles. Sempre desconfiei desse adágio – já houve de eu me juntar a carregadores de pérolas e nenhum pérola me cair nas mãos. Mas hoje irei me juntar a um dos bons, melhor dizendo, a um extraordinário escritor, para ver se consigo tocar, mesmo que levemente, em sua sombra. Porque já há algum tempo verifiquei, com surpresa, algumas coincidências entre ele e eu. Adianto: não é a coincidência da glória, da reputação e muito menos da fortuna. Verifiquei que houve certos elementos, embora aleatórios, que envolveram a recepção e que estiveram na base da elaboração do principal romance de Gabriel García Márquez e na base da elaboração do meu modesto Rita no pomar.

Antecipadamente, peço-lhes perdão pela comparação. Se cometo um crime aqui, podem me denunciar. E merecerei ser trancafiado.

Há 50 anos, ganhou voo para os céus de todos os continentes uma ave imponente – Cem anos de solidão, de García Márquez, romance publicado em junho de 1967 pela editora argentina Sudamericana, cujo diretor era Francisco Porrúa, que se tornaria lendário (foi também o descobridor de Júlio Cortázar) e que vira no livro e no autor um excelente empreendimento. Embora o desejo de García Márquez fosse o de ser publicado pela editora Losada, dirigida por Guillermo de Torre, e também argentina. Guillermo de Torre já recusara a publicação de A Revoada (O Enterro do Diabo), primeiro romance de García Márquez, de 1955, e, mesmo, o aconselhara a abandonar o ofício de escritor.

 

Inseguro, entendendo que Cem anos de solidão poderia o estar levando a uma “aventura que tanto podia ser afortunada quanto catastrófica”, e até pela não tão boa acolhida do romance de 1955 (que é apontado pela crítica, conforme lembrou Héctor Abad, em artigo para a “Ilustríssima”, como o mais fraco – “imaturo e malogrado” – dos romances do colombiano), García Márquez de fato não desconfiava da gigantesca recepção do romance de l967. Quando lançado, Cem anos de solidão vendeu em duas semanas 8.000 exemplares; após um ano, vendeu 600 mil exemplares; foram 2 milhões vendidos em 3 anos. E estima-se que, até agora, o romance tenha vendido 50 milhões de exemplares. De formidável fortuna crítica, já se acumularam 50 anos de estudos dessa obra-prima, dessa, repito, ave imponente. 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h39
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Um pequeno inseto veio ao mundo em 2008, o meu romance Rita no pomar, que, ano que vem, se a matemática não mudar, completa 10 anos de publicado. Um pequeno inseto que, nesses 10 anos, e para a minha surpresa (pois nunca pensei que o livro viesse a desfrutar da recepção que vem desfrutando), tem dado suas revoadas, tentando alçar vôo mais largo. Como García Márquez, também tive insegurança quanto à recepção do romance – e também pensei em catástrofe, pensei seriamente. Não me alcançaram, como o autor colombiano, repito, a glória, a reputação e nem a fortuna. Mas se hoje vocês se encontram aqui comigo, e as professoras que já há algum tempo se dedicam à análise do inseto, é porque o inseto tem alguma tripa. É isso – Rita no pomar tem sido destripado nessa sua primeira década de existência por gente de porte intelectual e que respeito muito. Cito uma parte dessa gente: os ensaístas Silviano Santiago (autor do posfácio), Rosângela de Melo Rodrigues, Paloma Oliveira, Ravel Giordano Paz, Luiz Antonio Mousinho, Sônia van Dijck, Bruna Belmont, Alcir Pécora (mesmo que pra dizer que o inseto é da família dos tísicos literários, ou seja, é dos livros que fazem enfermar a boa tradição do gênero romance).

García Márquez penou para escrever Cem anos de solidão. Penúria material mesmo, pois, no período da escrita do romance, junto com a mulher Mercedes, e com dois filhos pequenos, ele estava passando por sérios problemas financeiros. Os amigos acudiram o casal García Márquez diversas vezes – além do aluguel e do alimento, havia a obsessão do escritor por corrigir seu texto, o que o levava a consumir resmas e mais resmas de papel. E a aquisição de mais resmas, em certo momento da escrita do livro, se tornou uma questão séria, quase um obstáculo. Os apuros financeiros do escritor colombiano eram tantos, que o obrigaram a enviar em dois pacotes os originais de Cem anos de solidão – isso da Cidade do México, onde ele vivia, para o editor na Argentina. O dinheiro que o casal García Márquez dispunha não permitiu, por conta do peso, o envio de uma só vez, num único pacote, dos originais do romance. E o dado curioso: o pacote que seguiu primeiro pelos Correios para o editor em Buenos Aires correspondia à parte final do romance.

O casal García Márquez, durante a escrita de Cem anos de solidão, se virava como podia, inclusive recorrendo à penhora de alguns bens. Em “A odisséia literária de um manuscrito”, saborosa narrativa sobre a gênese e as dificuldades para a produção de Cem anos de solidão, García Márquez se refere, com humor, ao momento em que ele e Mercedes precisaram penhorar algumas jóias da família:

 

 

O joalheiro do penhor examinou-as com um rigor cirúrgico, pesou e revisou com seu olho mágico os diamantes dos brincos, as esmeraldas de um colar, os rubis dos anéis, e por final nos devolveu peça por peça:

– Isto é puro vidro!

 

 

Não precisei, felizmente, penhorar bens para poder compor Rita no pomar e nem precisei enviar pelos Correios, aos pedaços, a obra para o meu editor da 7Letras no Rio de Janeiro. Mas, no meu passado de estudante de Letras no Ceará, e que foi muito importante para a minha formação de ficcionista, eu passei por uma situação muito parecida com essa do joalheiro, narrada por García Márquez. Ainda não havia computador e eu usava uma máquina de escrever emprestada de um amigo. O amigo precisou da máquina e eu não tinha dinheiro sequer para comprar canetas. E eu já começara a escrever contos e vinha rabiscando, mais com teima do que talento, um romance. Sem as canetas, fiquei uma semana impossibilitado de escrever. Eu, com esse e outros tormentos financeiros, era praticamente um escritor inviável, sem qualquer chance. Mas aí me ocorreu um fato parecido com essa história do joalheiro de García Márquez (e que alguns amigos e familiares conhecem muito bem e que ainda hoje sorriem quando o narro). Uma vez, finalzinho de tarde, em Fortaleza, eu caminhava pela praça em frente à Faculdade de Direito, quando avistei, a poucos passos de mim, uma cobra brilhosa – uma pequena serpente inteiriça, estirada no cimento, entre alguns capins nas rachaduras. Livrei-me da serpente dando um salto – e que salto! – à frente. Creio que, de tanto medo, proferi um palavrão, daqueles bem pelados. O coração ainda aos pulos, a visão do brilho da cobra me fez de repente parar e, em seguida, recuar: que tanto brilho era aquele? Que dorso mais cintilante? Não era uma cobra, mas um fornido cordão de ouro, caído ali. Ah, o sentimento de achar uma coisa de valor é formidável! Se há algumas alegrias nesta terra, uma delas é encontrar, às 6 da tarde, dormindo no cimento ainda morno pela tarde cearense, um cordão de ouro luzente. Os dedos se descontrolam, é enorme o impulso de correr para avisar alguém: “Olhe o que encontrei!”. Passei um tempo ostentando o cordão. Mas, para proteger-me de assaltos, exibia-o apenas em ocasiões especiais. Me achava o todo onipotente com aquele bicho no peito, a camisa entreaberta. Mas, pobre estudante, vieram os apertos financeiros, os apuros. Uma manhã de segunda-feira, e após um fim de semana terrível de liseira, de eu não ter sequer um trocado no domingo para adquirir o jornal com o suplemento literário que acabara de publicar o primeiro conto que escrevi, peguei um ônibus, me dirigi ao setor de penhoras da Caixa Econômica. Chegando lá, enfrentei uma fila. Uma fila de taciturnos – de tristonhos desendinheirados como eu. E ao entregar, pela janelinha do caixa, embrulhado num papel, o cordão para o exame do funcionário (e foi também um “exame cirúrgico”), ele me jogou de volta: “É Denorex!”. Creio que alguns aqui já ouviram falar no comercial do Denorex, o que parecia remédio, mas que não era...

Foi um fim de semana numa praia (a de Acapulco, no México) que fez García Márquez encontrar, fazer crescer e permitir voar a sua portentosa ave Cem anos de solidão. Ele mesmo conta:

 

 

...fazia muito tempo que eu era atormentado pela idéia de um romance desmesurado, não somente distinto de tudo que já havia sido escrito antes, mas como também de tudo que já se havia lido até então. Era uma espécie de terror sem origem. Em meados de 1965, eu ia com Mercedes e meus dois filhos para um fim de semana em Acapulco, quando me senti fulminado por um cataclismo na alma, tão intenso e arrasador, que apenas consegui desviar de uma vaca que atravessava a estrada. Rodrigo [o filho] deu um grito de felicidade:

– Eu também, quando crescer, vou matar vacas pela estrada.

 

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h36
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O cataclismo, está claro, foi a idéia que de repente lhe ocorreu para a escrita do romance. E o escritor prossegue:

 

 

Não tive um minuto de sossego na praia. Na quarta-feira, quando regressamos ao México, me sentei em frente da máquina de escrever, para datilografar uma frase inicial que já não podia suportar dentro de mim: ‘Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo’. Desde então, não me interrompi um só dia como se eu estivesse numa espécie de sonho avassalador, até a conclusão, onde Macondo vai pra casa do caralho.

 

 

O meu inseto Rita no pomar ganhou suas asas tênues numa noite de sábado, de repente, quando ouvi esta frase: “Ela, quando se separou, foi viver numa praia com um cachorro”. Mas que frase terrível! Foi o meu cataclismo! Não tive também um momento de paz... não numa praia, mas no meu próprio quarto. Passei a madrugada pensando nessa imagem de uma mulher solitária vivendo com um cachorro à beira-mar. Já voavam ondas, que respingavam em mim, o vento descerrava a cortina, revolvia o quarto. E eu via, nítidas, as areias e ainda sombras sobre as águas, o mar encurtado. Fedia um mangue próximo. Ocorriam-me os gritos da mulher para o cachorro – e eu o via latindo, exasperado, ou às vezes defecando sobre uma duna. Via um barco, o pano todo esfrangalhado, que passava ao largo e lhe escorriam dos fundos as águas – e ele emborcava no seco, pendia na areia. E dois indivíduos deixavam o barco e saíam, um numa direção e outro, noutra, examinando o mangue. Dois indivíduos que só meses depois identifiquei como sendo os dois maridos de Rita. Foi, repito, o meu cataclismo. Depois dele, passei a escrever obsessivamente o romance, durante nove meses.

García Márquez, como lembrou Ronaldo Bressane no artigo “Meio século do romance do século XX”, teve a preocupação, antes de publicar o romance, de testar com leitores capítulos de Cem anos de solidão. Para o teste, publicou nada mais, nada menos do que 7 capítulos do livro: 1) em El Espectador, de Bogotá, em 1º de maio de 1966; 2) na revista Mundo Nuevo, de Paris, em agosto de 1966 (a Mundo Nuevo divulgava autores do boom latino-americano); 3) na peruana Amaru, tida como uma revista vanguardista; 4) na Eco, revista literária colombiana; 5) novamente na parisiense Mundo Nuevo, em março de 1967; 6) na Diálogos, mexicana, em abril de 1967; 7) na argentina Primera plana, em junho de 1967, um pouco antes da publicação do romance.

Também tive necessidade, com Rita no pomar, de fazer testes com os leitores. Ou, por outra, de trazer para o romance textos já examinados e até passados pelo crivo da crítica. Primeiro, aproveitei o conto “Rita e o cachorro”, do livro O perfume de Roberta, de 2005. O conto corresponde aos 4 primeiros capítulos de Rita no pomar. Os capítulos “Telma e o filho morto” (nº 15), “A senhora do edifício” (nº 28) e “Nosso filho” (n° 30) do romance foram publicados em livros (O perfume de Roberta e O Caçador) e revistas literárias como contos. Os capítulos “Café da manhã de minha mãe com Telma” (nº 13) e “A invenção de André” (nº 17), também de Rita no pomar, foram escritos em São Paulo, onde os apresentei, para um devido exame crítico, a amigos escritores – e bem antes da escrita contínua do romance, que foi em João Pessoa.

Portanto, e repetindo, assim como a ave magnífica de Garcia Marquez, também foram necessárias provas com leitores para que o meu inseto tramasse um tremor de asas.

Concluindo, desculpem-me, foram apenas algumas aproximações desimportantes. Mas, em literatura, pode haver alguma felicidade no contraste – o livro imenso e o livro miúdo têm suas gigantescas diferenças, mas têm também seus pontos em comum, confluências às vezes insuspeitadas e que só um relato responsável pode revelar.

Ah... E uma ave imponente será sempre uma ave imponente diante de um inseto.

Muito obrigado!

   

[Depoimento proferido no Curso de Letras da Universidade Federal de Campina Grande, em 25/10/2017, quando do lançamento da segunda edição de Rita no Pomar]



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h34
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Conto

 

A PRIMEIRA VEZ DO MENINO

 



 

por Rinaldo de Fernandes

 

 

Foi no dia seguinte à morte da mãe. A irmã maior lhe impôs: “Vá lá”. E foi o primeiro dia do menino. Foi a primeira vez dentro de suas próprias calças. Foi a iniciação debaixo da escura marquise que sempre abrigava a família.

Voavam moscas, que irrompiam de um bueiro, e o menino embaixo da marquise, vendo adiante os latões de lixo atulhados. Pensava na mãe e estava acanhado para ir até os latões, descair para fuçar lá dentro. Ele tinha uma namoradinha e achava que ela podia despontar do nada na esquina. A mãe, mais hábil que a irmã, fuçava os latões com disposição, emergia deles com fiapos grudados no cabelo – e sempre achava a gordura do feijão, um pedaço de toucinho já entrado em decomposição. O menino ficava esperando debaixo da marquise, observando as rachaduras no cimento da calçada. Rachaduras que lhe lembravam veias – as veias do braço da irmã ferido um dia nas bordas de um latão empenado. Calçada onde brincava de enfiar palitos numa carcomida folha de alface, de conceber um elefante com asas, vendo-as vibrar. Sempre achava que elefante é verde.

O menino nunca tinha se dirigido aos latões. A mãe o impedia, tinha medo de ele se “talhar em vidro”. Revolver os latões era ocupação apenas da mãe e da irmã maior, ou de “pessoas já de altura”, como orientava a mãe. A irmã maior revirava todos os latões das redondezas, de ruas remotas: já se vestira para o Ano Novo com roupa de um único latão. A mãe, e já havia anos, arrancava os calçados de toda a família de dentro dos latões. A mãe já atravessara de saltos altos a curta ponte que ia dar na favela onde moravam. A mãe já festejara o aniversário da caçula com os recheados que achara, por acaso, no fundo de um grande latão atochado de cadáveres de computador. Um latão onde, uma vez, vomitou o vigia do prédio próximo. O mesmo vigia que aqui e ali disparava uma piada mal cheirosa para a mãe. O que fazia com que o menino retirasse com raiva os palitos do alface, amputando as pernas do seu elefante.

Mas o menino agora... o menino pensava na mãe e sentia tristeza ao observar as rachaduras na calçada – via as asas verdes do elefante caladas. E tinha vergonha de se enfiar no latão, de extrair dali o alimento que iria empurrar a irmã caçula para a bandeira (ela dormia sobre uma bandeira que, numa tarde de tempestade, a mãe encontrou voando numa avenida). O menino, sobretudo, tinha vergonha de ser flagrado pela namoradinha – via-a com seu vestido azul estampada na esquina. O menino observava as janelas dos prédios – achava que um olho o vigiava. E continha-se, sempre acanhado.


Até que resolveu ir depressa e, como a mãe, ficar de cócoras dentro do latão. Vez por outra, colocava a cabeça de fora para ver se vinha alguém – e se o vestido azul da namorada desaparecera na esquina. E, ali no latão, rápido, reuniu coisas numa mochila esfrangalhada, de onde pulavam fedores. Foi a primeira vez do menino. Ali, escarafunchando, encontrou uma pulseira de elástico rompida e um estropiado calção de banho com a estampa de um Super Herói. A pulseira ele emendou e vestiu o braço, esperançoso de, em breve, ir ter com a namorada. O calção fez a careta de alegria da irmã caçula. Que, na primeira noite sem a mãe, e alimentada com uma espécie de sopa feita das dobras de um mamão, foi dormir uniformizada de Homem Aranha.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 13h20
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Lançamento

 

JÁ À VENDA NA AMAZON!

 


 

Já está na pré-venda da Amazon a segunda edição do meu romance Rita no Pomar (editora Novo Século), cujo preço de capa é 35,00 reais. Mas os interessados podem também adquirir o livro diretamente comigo ao preço super promocional de 20,00 reais (para remessa, AUGTOGRAFADO, pelos Correios custa 25,00 reais). Quem tiver interesse, passe mensagem aqui no blog, dando o nome para uma lista que estou montando. E aí em setembro eu entrego o livro devidamente AUTOGRAFADO (no nome do comprador ou de terceiros). Esta segunda edição de Rita no Pomar, que, em 2009, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Zaffari & Bourbon, traz, além do posfácio de Silviano Santiago, onze estudos sobre o romance. O lançamento nacional será próximo dia 9/09, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h06
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Pesquisa

 

LITERATURA E VIOLÊNCIA:

ENTREVISTA A PESQUISADOR DA UFBA

 

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Trecho de entrevista que acabo de conceder ao pesquisador Murilo Melo, que está fazendo um estudo na Universidade Federal da Bahia sobre a coletânea Contos cruéis, que organizei em 2006 para a Geração Editorial e que, em 2009, foi um dos livros escolhidos do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do Ministério da Educação. Segue:

 

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- Quais imagens de violência e crueldade escolhidas para o livro Contos cruéis mais chamaram a sua atenção?

Rinaldo de Fernandes – As do conto “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, com bandidos estuprando e matando impiedosamente os indivíduos que participam de uma festa de réveillon. A cena do tiro para testar se o atingido gruda na parede é, de fato, muito cruel. Há também a cena do conto da Lygia Fagundes Telles, em que um indivíduo deixa a ex-namorada presa num cemitério. São, aí, dois tipos de violência, igualmente impiedosas – a que decorre das desigualdades sociais e a que o individuo carrega consigo, a que nos é inerente e que pode se manifestar a qualquer momento.

 

- O que o senhor analisa de semelhante entre o livro Contos cruéis e O professor de piano?

 

Rinaldo de Fernandes – A crítica já apontou meu conto “Ilhado”, que consta de O professor de piano, como uma narrativa que dá prosseguimento à linha da literatura da violência urbana inaugurada, desde os anos 60, por Rubem Fonseca. Para mim é uma honra dar prosseguimento a essa vertente proposta por um autor da minha mais profunda admiração. Nesse quesito, sugiro a leitura do artigo “Literatura da violência”, de Marcelo Coelho, da Folha de S. Paulo, no qual ele aponta os autores da literatura brasileira contemporânea que dariam prosseguimento, em certos textos, à vertente violenta inaugurada por Rubem Fonseca. Seriam autores da escola fonsequiana: Patrícia Melo, Paulo Lins, Ferréz, Marçal Aquino, Fernando Bonassi e eu. Esse artigo foi produto de uma palestra que Marcelo Coelho proferiu numa universidade americana. Creio que ele percebeu bem a questão da escola da violência que tem Rubem Fonseca como mestre. Em O professor de piano, há varias modulações da violência. Além da violência decorrente de problemas sociais, como é o caso de “Ilhado”, há aquela decorrente de frustrações amorosas e que envolvem, por exemplo, o machismo: caso de “Você não quis um poeta” e mesmo o conto “O professor de piano”. Aqui a frustração individual, a rejeição, desencadeia a brutalidade. Ou seja, a violência vem de fora mas também parte de dentro do indivíduo. Todos somos potencialmente vítimas e sujeitos da violência.

 

- Como surgiu essa predileção pelo tema "violência"? Por que o senhor acha importante trabalhar com a violência dentro da literatura?

 

Rinaldo de Fernandes – Minha predileção pelo tema veio, seguramente, de minha leitura de Rubem Fonseca. Este autor me ofereceu modos mais brutais, sem meios tons, para retratar a violência. Ele tem uma literatura que, por assim dizer, dá uma porrada na cara da vida brasileira. E eu queria fazer algo parecido. Rubem Fonseca me permitiu enfrentar o tema sem muitas vacilações, indo direto ao ponto, criando personagens e situações cruas, duras, intensas em seu realismo. A literatura, para nos humanizar, tem que mostrar a vida ou “fazer viver”, como defende Antonio Candido no seu notável ensaio “Direito à literatura”. E fazer viver é mostrar também, de forma crua, o quanto de cruel há no real, no cotidiano das grandes cidades.

 

- Acha que a violência é pouco retratada na literatura?

 

Rinaldo de Fernandes – Não, sempre houve violências, de vários matizes, configuradas na literatura. Machado de Assis, no conto “Pai contra mãe”, trata da violência decorrente do regime escravocrata. Euclides da Cunha, em Os sertões, denuncia a violência da República, a violência do Estado brasileiro contra uma população sertaneja indefesa. Guimarães Rosa mostra a violência que decorre da cultura de defesa da honra no conto “A hora e vez de Augusto Matraga”. Paulo Honório, protagonista do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, carrega consigo a violência de classe, a do burguês contra o individuo que ele explora. E por aí vai.


- Existe incômodo ao retratar o assunto no meio literário?

 

Rinaldo de Fernandes – Não. A violência está na vida, na sociedade. E a literatura traz sempre uma imagem da vida. Sobretudo depois de Rubem Fonseca o tema da violência entrou de vez na literatura brasileira, tornou-se um tema primordial.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h15
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Miniconto

 

O FILHO

 

 

  

 

por Rinaldo de Fernandes

 

 

      (para Júlio de Fernandes)

 

 

É límpido, o teu chão. Não há nele nódoas, asperezas. Pise bem firme: acomode os dedos nos pés e os pés nos passos. É límpido. E é o chão que meu sonho te estende, meu filho.

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h28
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Ficção infanto-juvenil

 

O GRANDE GATO DA ILHA LAÇADO

                  (Um conto de amor paterno) 

 

 

 

por Rinaldo de Fernandes

 

        (para Júlio de Fernandes)

 

Uma ilha ontem abotoou o meu sono. Uma ilha onde um velho tinha que cuidar, sozinho, de nove crianças. Nove crianças que lhe chegaram uma noite de barco. Um barco que veio, o velho não sabe de onde – porque nenhuma das crianças tinha pensamento encadeado para dizer de onde elas procediam. O velho, já viúvo, e infectado pela antiga paixão de ter filhos, ao invés de esquecê-las, de largá-las à míngua nos escuros e escavados da ilha, adotou as nove crianças. Cresceu então dentro da ilha um amor desmedido. Cresceu um zelo que cuidava de braços, canelas, cabelos. Que fazia colher catarro empoeirado, que pingava entre os dedos. Que fazia rolar futebol na praia com um coco seco. Que matava mosquito antes de ele zunir. Que afogava choro antes de ele correr nos queixos. Que limpava dente antes de ele torrar. Um amor que vigiava a ilha de tudo quanto é peçonha. Que espiava os mares à cata de jangadas que pudessem vir sequestrar uma das crianças, que viessem lavar o rosto do velho de padecimento. As crianças se agarravam à saúde do velho para puxá-lo para a praia, para tomarem banho com o vermelho do sol fervendo no horizonte. E a vida era feliz como as areias onde folgavam branquelos siris. A vida confortava o suor que semear roçado espreme. Até que o único leão que havia na ilha, jogado ali por um barco de panos puídos que atravessava da África, começou a imprimir suas pegadas nas areias da praia. Começou a rugir de dentro da terra ao entardecer. O velho não sabia onde o leão se enterrava. Apenas se apavorava com o esturro – as patas do bicho empurrando força que faziam tremer as grandes pedras da ilha. E o leão uma madrugada meteu os olhos pela janela da cabana onde o velho vivia com as crianças. O velho, no susto, tomou a espingarda e chegou fogo contra a testa do bicho. Porém o leão pendeu para o lado e escapou, foi de novo para o seu refúgio. Dia seguinte, as crianças encontraram pelos, muitos pelos, nas cercanias da cabana. E passaram a amontoá-los, fizeram deles uma bola. E disputavam a bola, cheiravam a bola, dormiam com a bola. Uma das crianças, a única que não sabia jogar bola, queria saber, um tanto descontente, de onde tinham vindo os pelos – “de um grande gato, um bicho alegre”, adoçou-a o velho. Mas o que era diversão para as crianças vinha agora para o velho como um barulho. Porque ele ficou vigilante aos esturros e aos tropeços do leão pelos caminhos da ilha. O grande gato de pelos largados, perdidos, que botaram um brinquedo leve e empolgante nos pés das crianças, era o chamado maior do velho. Que passou a empunhar todas as madrugadas uma vara, com uma corda na ponta, que continha um laço. Enquanto as crianças ressonavam, sonhando sabidamente com tufos de pelos, com a bola prodigiosa, o velho esperava o esturro, os passos que viriam. E, com o laço pronto, mirava a janela. Sabia que os olhos do leão apareceriam ali. Sabia que o grande gato iria meter a cabeça na janela, tentando invadir a cabana. E essa seria a hora exata. A hora de laçar o leão. De alcançá-lo e, em seguida, mesmo com dificuldade, mesmo já sem muita força nos braços, enovelá-lo com a corda, amarrá-lo a um tronco lá fora. E deixá-lo preso, rendido. E depois domar o grande gato com a mão. Fazê-lo adormecer. Fazer de tudo para o grande gato dormir, engolir o esturro, e esperar o dia amanhecer. Para o velho então ir acordar as suas crianças. Ir buscá-las para ver o grande gato. Para elas lhe passarem as mãos. Para lhe possuírem os pelos. Para provarem do presente que só o imenso amor de um pai é capaz de amansar.   



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 16h44
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Pesquisa

 

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO SOBRE

CONTOS DE O PERFUME DE ROBERTA

 

 

 

 

Nesta sexta-feira (19/05), será a defesa da dissertação de Mestrado de Frederico de Lima Silva, intitulada “Literatura e Violência: efeitos do desmentido na contística de Rinaldo de Fernandes”. Frederico de Lima defende a dissertação na Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba. A defesa será às 09h30, na Sala de Reunião do CCHLA. Conforme mensagem que Frederico me enviou, na dissertação ele apresenta uma análise de dois dos meus contos: “O Perfume de Roberta” e “Ilhado”, do livro O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005). Diz o pesquisador: “A análise, que usa a teoria psicanalítica como base, parte da premissa que sua contística incorpora elementos que metaforizam o mal-estar na sociedade contemporânea”. Agradeço imensamente ao Frederico, que é um pesquisador muito empenhado, além de escritor! E estarei nesta sexta-feira, mais que honrado, assistindo a defesa de sua dissertação!



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h33
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Homenagem

 

LOUVEMOS ANTONIO CANDIDO

 

 

 

 

 

 

 

Em 2004, quando estava preparando o livro Chico Buarque do Brasil, que foi lançado pela Garamond/Fundação Biblioteca Nacional e que estourou no Brasil, entrando em listas de mais vendidos, pedi ao professor e crítico Antonio Candido um depoimento acerca da produção de Chico Buarque. O meu pedido foi através de uma carta. Passadas umas três semanas, recebo um envelope com uma letra miúda que trazia uma folha com um pequeno texto assinado por Antonio Candido. Um depoimento agudo, de um crítico agudo, sabedor das coisas do Brasil. Em homenagem ao mestre Candido, reproduzo aqui o texto que ele escreveu exclusivamente para o livro Chico Buarque do Brasil:

 

 

“Conheço Chico Buarque praticamente desde que nasceu, e à medida que a vida passou fui vendo cada vez mais a solidez das suas qualidades morais, intelectuais, artísticas. É um homem realmente exemplar, cuja integridade pode servir de modelo e cuja variedade de aptidões chega a causar espanto. Como compositor (de textos e de melodias) denota essa coisa rara que é a sobranceria em relação às modas, a absoluta indiferença ao êxito, que pode ou não coroá-lo, mas não o fará jamais desviar-se do seu caminho para seguir essa ou aquela voga. Como homem de teatro, poucos foram capazes, como ele, de fundir harmoniosamente a maestria artística e a consciência social, completando um perfil de cidadão serenamente destemido e participante, sempre na linha da melhor orientação política. Para coroar, a surpreendente vocação de ficcionista, que revelou um dos melhores praticantes do gênero no país. Os seus romances são densos, sem concessões, muito inventivos, com um toque pouco frequente de originalidade. No entanto, comunicam-se bem e fizeram dele uma revelação que não foi apenas fogacho, pois a sua carreira nesse campo prossegue em vôo alto. Nisso tudo vejo a diretriz básica da integridade mencionada no começo. Ela lhe permite ser tão expressivo quanto significativo para o nosso tempo, sem máscara de qualquer espécie. Louvemos Chico Buarque.”



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h17
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Lançamento

 

LANÇAMENTO NO I ENCONTRO DE LETRAS

DO LITORAL NORTE DA PARAÍBA

 

 

  

Estarei nesta quarta-feira, a partir das 17h00, a convite da coordenação do I ENCONTRO DE LETRAS DO LITORAL NORTE DA PARAÍBA, que se realiza deste dia 10 ao dia 12/05/2017 no Campus IV da UFPB, em Mamanguape, e cuja temática é “Lingua, Literatura e Ensino: diálogos necessários”, fazendo o lançamento do meu livro Contos reunidos (Ed. Novo Século, 2016). O livro estará à venda por um preço promocional. Você pode também ter o seu exemplar autografado, e a preço promocional, comprando-o aqui mesmo pelo blog. É só passar mensagem!



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h02
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Pesquisa

 

 

DEFESA DE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

SOBRE CONTOS DE O PERFUME DE ROBERTA

 

 

 

 

 

Acabo de receber um convite para a defesa da dissertação de Mestrado de Frederico Lima, da Pós-Graduação em Letras da UFPB. Além do convite, Frederico diz ainda em mensagem que me enviou: “Quero informá-lo que minha dissertação será defendida dia 19/05/2017, às 09h30, na Sala 500 do CCHLA. O título do trabalho é: ‘Literatura e Violência: efeitos do desmentido na contística de Rinaldo de Fernandes’. Nele, apresento uma análise de dois de seus contos: ‘O Perfume de Roberta’ e ‘Ilhado’. A análise, que usa a teoria psicanalítica como base, parte da premissa que sua contística incorpora elementos que metaforizam o mal-estar na sociedade contemporânea”. E Frederico conclui sua mensagem: “Este será, se Deus permitir, apenas mais um de meus trabalhos que utilizarão sua obra como corpus para análise. Caso passe para o doutorado, tentarei analisar um de seus romances”. Só fico feliz com um pesquisador da qualidade e competência de Frederico Lima, que também é escritor. Frederico já fez sua monografia de conclusão do Curso de Letras sobre contos meus. Agradeço-o imensamente! E estarei, dia 19, muito honrado, assistindo a defesa de sua dissertação!



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 22h06
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Conto

 

CREMATÓRIO

 

 

 

 

por Rinaldo de Fernandes

      

        Toda semana apareciam corpos jogados no terreno baldio vizinho ao depósito de construção do bairro. Jogavam gente com os pés empoeirados, jogavam outras totalmente nuas. Jogavam cabeças, jogavam tíbias. O sangue que escorria das perfurações nos corpos ali jogados era lambido pelos cachorros – e o gordo da oficina, na outra ponta da rua, ralhava toda vez que o seu vira-lata lhe aparecia com o focinho pingando, o sangue bem fresco. Duas meninas que brincavam na calçada, sempre à tardinha, tinham curiosidade com os pés empoeirados – e ficavam apontando para as unhas mais encardidas. Os funcionários do depósito, quando empilhavam sacos de cimento, botavam a cara na janela, olhavam para o terreno baldio, para o monte de corpos – e achavam que um bom muro deveria vedar aquilo, aquelas coisas que criança não devia estar vendo. Um dia veio pela rua uma velha vestindo fúrias, dizendo-se abandonada pela filha. Uma velha pendendo como quem está para desabar em qualquer soleira. E era isso mesmo que ela queria – desabar, morrer num lugar onde, fora informada, mortos eram incinerados quase todos os dias. Porque a velha queria porque queria ser cremada, sem qualquer custo para ninguém. E foi assim que, na sexta-feira, o proprietário do depósito, responsável pela queima dos corpos, empurrou, com uma mangueira, o querosene na garganta da velha, que amanhecera morta, e lhe ateou fogo. Nesse dia as duas meninas viram uma fumaça subindo grossa e amarela, grudando-se e pingando dos fios dos postes. E o gordo da oficina garantiu, circunspecto, que a velha não subira na fumaça. O que subira foi o vômito dela para a filha.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h38
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Release

 

2ª EDIÇÃO DE RITA NO POMAR

SERÁ LANÇADA NA

BIENAL DO LIVRO DO RIO DE JANEIRO/2017

 

 

  

 

 

O escritor Rinaldo de Fernandes, que também é professor de literatura da UFPB, acabou de assinar contrato com a editora Novo Século para a publicação da 2ª edição do seu romance Rita no Pomar, que, quando lançado em 2008 pela 7Letras, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura.

Rita no Pomar, que já foi objeto de vários estudos acadêmicos, já caiu em vestibulares e foi roteirizado por Marcus Villar e Vinícius Rodrigues Camêlo para virar um longa-metragem. A nova edição, que fará parte das comemorações dos 10 anos de lançamento do romance, virá, além do posfácio de Silviano Santiago (um dos principais críticos brasileiros, além de grande romancista), com estudos críticos de excelente qualidade, feitos por vários acadêmicos e escritores. E deverá ser lançada na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no começo de setembro. O livro já está indo para a produção.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 14h01
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