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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


Resenha

 

O BIZARRO E O POÉTICO

EM TÉRCIA MONTENEGRO  

  

 

  

por Rinaldo de Fernandes

 

 

É da força dos contrários que Tércia Montenegro extrai a substância de seus contos em O tempo em estado sólido, livro vencedor do Prêmio Governo do Estado de Minas Gerais 2010, publicado agora, em 2012, pela Ed. Grua, de São Paulo.

Tércia é uma contista tchekoviana. Pouco enreda e extrai das situações narradas sentidos fortes, profundos, da natureza humana. Consegue em poucos passos jogar o leitor na interioridade intrincada de seus personagens.

Seus protagonistas, permanentemente, vivem sentimentos antagônicos. Há nos contos uma mistura de afeto e desafeto, de amor e ódio. Acomodam-se, no mesmo enredo, o bizarro e o poético.

Bizarra é a personagem Leila, de "A alma e o peso", como liberada, intensa, é Larissa, em "Pleno trânsito". É muito bem armada a intriga de "As paisagens", em que o trágico e o estético se sobrepõem, quando da visita do protagonista à galeria de arte. "O mágico" é um belo conto, que mistura miséria (a do avô cego de uma garota) e magia (transposta com engenho, na narrativa, para o campo semântico da malícia – a do artista seduzindo a garota para partir com ele). Outro excelente conto é "Serpentina", que flagra o ciúme forte de uma mulher. Mulher e marido estão diante de uma adolescente que, num hotel, morre afogada diante do casal (o marido estava visivelmente desejando a adolescente) – Eros e Tânatos, tragédia e sadismo, porfiam no enredo.

Em "O que reluz e arde no ar", o tema da prostituição é explorado com poesia e sutileza, sem que o narrador deixe de lançar sobre a protagonista um olhar impiedoso, profundamente realista. "Aquarela com bonsai", criando um intertexto com a pintura (como em outros momentos no livro), narra uma cena de sexo a três, da qual participa uma negra bela. Conto bizarro e de atmosfera lírica. "A ignorância" tematiza a incomunicabilidade humana, os silêncios instransponíveis entre os indivíduos.

"Cartografia de instantes" é onírico, com personagem solitária, extraindo do vazio as suas mais fortes sensações (aliás, a solidão é um tema central no livro).

"O lado imóvel", mais uma vez trazendo o intertexto com a pintura, narra a aventura de dois garotos que seguem para tentar pegar os quadros de um pintor (pai de um dos garotos) que foram confiscados e estão no depósito da alfândega. Um enigma envolve os quadros. Trata-se de uma narrativa mais fluída, de ritmo mais acelerado, abrigando o suspense.

Em "A sugestão", o protagonista, um escritor (escritor, pintor ou fotógrafo são tipos presentes no livro), sofre de síndrome do pânico. Conto que flerta com o fantástico. Traz mais uma vez uma situação bizarra, misturando de novo sentimentos opostos – enquanto o marido, inseguro e incerto por conta da doença, segue para um enterro, a mulher o trai num motel. No final, o casal se recompõe na sua (falsa ou fantasiosa) harmonia.

"Carceragem", também inserido no contexto familiar, tematiza a demência, codificada na desarmonia entre duas irmãs. "Exposição" (o próprio título remetendo à pintura) traz um interessante diálogo de um casal sobre sedução e sentimento. "As moedas" narra um crime num circo, de um homem frustrado por não ter filhos. Também é uma narrativa mais fluída, que difere da densidade da maioria dos contos.

"Semelhante ao mar" encerra o volume. Lembra um pouco "Venha ver o pôr do sol", de Lygia Fagundes Telles (de quem, alias, vejo influências em Tércia). A protagonista se dirige para um cemitério, para o velório do pai na capela. Ela carrega um ódio profundo pelo pai, mesmo ele estando morto: “Não aceita a simbólica pazinha de enterrar, nem trouxe flores que derramasse num gesto bailarino”. No fim, a protagonista segue para tentar rever um amor da adolescência. Ódio e afeto (metaforizado na memória de uma paixão) se entrelaçam neste que é provavelmente o melhor conto do livro.

Há ainda nos contos metáforas muito bem elaboradas, que se afinam, perfeitas, precisas, às situações narradas. Tudo isso fazendo de Tércia Montenegro um dos nomes mais expressivos do conto brasileiro contemporâneo. Uma autora para ser lida e aplaudida.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h18
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Novo livro 

 

SOBRE LLOSA, ZÉ LINS E OUTROS ENSAIOS

 

Vargas Llosa, escritor peruano, Prêmio Nobel de Literatura de 2010.

 

por Audaci Junior

     

            (in: Jornal da Paraíba, Caderno “Vida & Arte”, 08/05/2012)

 

 

 

No começo dos anos 1980, o peruano Mario Vargas Llosa – vencedor do Nobel de Literatura em 2010 – lançava A Guerra do Fim do Mundo, um romance que mesclava ficção e a realidade de Canudos, com base na prosa 'euclidiana' de Os Sertões.

A obra serviu como base do doutorado defendido, há 10 anos, pelo escritor paraibano Rinaldo de Fernandes, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Textos de sua tese também estarão presentes no seu próximo livro, Vargas Llosa: Um Prêmio Nobel em Canudos - Ensaios de Literatura Brasileira e Hispano-Americana (Garamond, 300 páginas, preço não definido), que tem previsão de lançamento para agosto.

“É um livro eclético que faz abordagens de vários gêneros da literatura, sempre com autores contemporâneos, com exceção de Euclides da Cunha e Machado de Assis [e alguns outros]”, resume o autor, que reúne ensaios [...] sobre literatura [...] publicados em jornais como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil, entre 2000 e 2010.

De acordo com o escritor, são analisados 30 contistas brasileiros contemporâneos no longo ensaio 'O conto brasileiro do Século 21', que abre o livro. Também são dissecados nomes nacionais e da literatura hispano-americana como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Ferreira Gullar, Miguel Sanches Neto, Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro, Renato Tardivo, entre outros.

No âmbito musical, o autor revisita o trabalho de Chico Buarque, comparando-o com a poesia do maestro Tom Jobim (1927-1994), além de uma cronologia de [sua] vida e obra [constante] do livro Chico Buarque do Brasil (Garamond), lançado por Fernandes em 2004.

Entre os autores paraibanos na coletânea, um exame da recepção crítica de clássicos de José Lins do Rêgo, como Menino de Engenho e Fogo Morto.

Nas páginas de Vargas Llosa: Um Prêmio Nobel em Canudos haverá também um extenso ensaio sobre obras de autores paraibanos (ou radicados no Estado) contemporâneos, como Sérgio de Castro Pinto, Mercedes 'Pepita' Cavalcanti, Antônio Mariano, André Aguiar, W. J. Solha, entre outros. “É uma nova perspectiva para quem não conhece os autores que moram ou nasceram aqui”, aponta Rinaldo, sublinhando a importância de ser lançado pela editora carioca Garamond. 

 

Clique aqui para ler a matéria no Jornal da Paraíba.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 23h45
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Release

de pré-lançamento

 

RINALDO DE FERNANDES

LANÇARÁ LIVRO DE ENSAIOS

 

 

        

 

 

Livros de Rinaldo de Fernandes já publicados pela Ed. Garamond (RJ).

 

 

 

 

O escritor Rinaldo de Fernandes acaba de assinar contrato com a Ed. Garamond, do Rio de Janeiro, que irá publicar o seu novo livro em julho próximo. O livro, de 300 páginas, é uma reunião dos ensaios do escritor. Textos publicados em jornais como “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” (Caderno “Idéias”), “Jornal Rascunho” (de Curitiba), “Correio das Artes” (de João Pessoa), além de revistas acadêmicas e coletâneas das quais o autor participou. São textos produzidos sobretudo entre 2000 e 2010, alguns deles retirados de sua tese de doutorado sobre Vargas Llosa defendida em 2002 na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas/SP).

Os ensaios são de literatura brasileira e hispano-americana. Entre os autores estudados, além de cerca de 30 contistas brasileiros contemporâneos (contemplados no longo ensaio “O conto brasileiro do século 21”, que abre o livro), estão: Euclides da Cunha, Vargas Llosa, García Márquez, Julio Cortázar, Machado de Assis, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Ferreira Gullar, Chico Buarque, Tom Jobim, Miguel Sanches Neto, Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro, Renato Tardivo, etc. Há também um ensaio sobre obras de autores paraibanos publicadas em 2004 e 2005. O livro traz ainda duas entrevistas – uma sobre Euclides da Cunha e outra sobre Chico Buarque – concedidas ao jornalista Linaldo Guedes.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 12h03
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Coluna Rodapé

Abr./2012

 

O NAMORO DAS PÁGINAS:

LITERATURA E HISTÓRIA (6)

   

 

 

 

  

Tanto a ficção como a historiografia, segundo Hayden White, visam uma coerência (algo que, em termos de narrativa literária, aponta para a lógica interna produzida pela verossimilhança). Essa coerência é que confere plausibilidade ao relato. E ambas — ficção e historiografia — visam ainda corresponder à realidade: “O escopo do escritor de um romance deve ser o mesmo que o do escritor de uma história. Ambos desejam oferecer uma imagem verbal da ‘realidade’. O romancista pode apresentar a sua noção desta realidade de maneira indireta, isto é, mediante técnicas figurativas, em vez de fazê-lo diretamente, ou seja, registrando uma série de proposições que supostamente devem corresponder detalhe por detalhe a algum domínio extratextual de ocorrências ou acontecimentos, como o historiador afirma fazer. Mas a imagem da realidade assim construída pelo romancista pretende corresponder, em seu esquema geral, a algum domínio da experiência humana que não é menos ‘real’ do que o referido pelo historiador. Não se trata, pois, de um conflito entre dois tipos de verdade (que o preconceito ocidental com relação ao empirismo como única via de acesso à realidade nos impingiu), de um conflito entre a verdade de correspondência, de um lado, e a verdade de coerência, de outro. Toda história precisa submeter-se tanto a padrões de coerência quanto a padrões de correspondência se quiser ser um relato plausível do ‘modo como as coisas realmente aconteceram’. Pois o preconceito empirista é reforçado pela convicção de que a ‘realidade’ é não só perceptível como coerente na sua estrutura. Uma simples lista de afirmações existenciais singulares, passíveis de confirmação, não indica um relato da realidade se não houver alguma coerência, lógica ou estética, que as ligue entre si. Da mesma forma, toda ficção deve passar por um teste de correspondência (deve ser ‘adequada’ como imagem de alguma coisa que está além de si mesma), se pretender apresentar uma visão ou iluminação da experiência humana do mundo” (in: “As ficções da representação factual”. In: Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 1994, p. 138). É bom atentar para o que White diz aí sobre os modos como a ficção e a historiografia apresentam uma visão de mundo. O romancista apresenta uma imagem da realidade “de maneira indireta” e “mediante técnicas figurativas”, enquanto o historiador busca fazer isso “diretamente” e “registrando uma série de proposições que supostamente devem corresponder detalhe por detalhe a algum domínio extratextual de ocorrências ou acontecimentos”. E a imagem da realidade apresentada pelo romancista remete “a algum domínio da experiência humana que não é menos real do que o referido pelo historiador”.

 

 

(Minha coluna de crítica publicada mensalmente no jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, e no Correio das Artes, de João Pessoa. Para acessar as demais colunas, clique aqui)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h00
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Informe

 

CRÍTICO THIAGO PININGA

COMENTA RITA NO POMAR

NA RÁDIO FOLHA FM, DE RECIFE

 

 

 

 

 

 

O crítico pernambucano Thiago Pininga teceu recentemente um comentário sobre o meu romance Rita no Pomar, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009, no programa Observatório Literário, da Rádio Folha FM, de Recife. Thiago me confessou que gosta muito do romance. Agradeço e fico honrado com o seu comentário, que está disponível no YouTube! Ouça-o clicando aqui.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 18h42
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Informe

 

NOVOS LANÇAMENTOS

DA EDITORA HORIZONTE

 

  

 

 

 

 

A Editora Horizonte, de Vinhedo (SP), cuja editora-proprietária é Eliane Alves, nossa amiga aqui do Blog da Beleza, prossegue publicando ótimos títulos na área dos estudos literários. Confira os mais recentes:

 

 

1. Derrida, Escritura & diferença no limite ético-estético,

organizado por Piero Eyben e Fabrícia Wallace

2. Realismo e realidade – Revista estudos de Literatura Brasileira Contemporânea n. 39

3. Um território em disputa: a literatura brasileira contemporânea,

de Regina Dalcastagnè

4. Entre fronteiras: terras indígenas no sertão fluminense,

de Marina Machado

5. Teoria política e feminismo: abordagens brasileira,

organizado por Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel

6. Santas (im)possíveis: religião e gênero na literatura contemporânea,

de Cristina Maria Teixeira e Willian Alves Biserra

7. Escritura do retorno: Mallarmé, Joyce e meta-signo,

de Piero Eyben

8. Teoria política feminista contemporânea: textos centrais,

organizado por Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli

 

 

 

Visite o site da Editora Horizonte. É só clicar:

 

http://www.editorahorizonte.com.br/

 

 

 

Serviço

 

Editora Horizonte

Rua Geraldo Pinhata, 32 sl. 3

13280-000 - Vinhedo - SP

(19) 3876-5162



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h58
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Promoção Em Busca

de Leitores (vai até o São João)

 

PROMOÇÃO IMPERDÍVEL!

DOIS LIVROS AUTOGRAFADOS

PELA METADE DE UM!  

 

   

 

 

Os livros de contos O Perfume de Roberta (Ed. Garamond/RJ) e O Professor de Piano (Ed. 7Letras/RJ)

em promoção imperdível do Blog. E autografados!



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h06
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O Blog da Beleza, mais uma vez, faz uma promoção imperdível! Adquira por apenas 12,90 (doze reais e noventa centavos) um kit, para você ou para presentar os seus bons amigos, com os meus dois livros de contos: O PERFUME DE ROBERTA (que tem prefácio de Moacyr Scliar e do qual constam os contos “Duas Margens”, que virou recentemente um média-metragem de Ian Abé, “Negro”, que virou um curta de Renato Alves, “A poeira azul”, que integrou a antologia 90-00 cuentos brasileños contemporáneos, editada no Peru, pelas Edições Copé, com organização de Maria Alzira Brum Lemos e Nelson de Oliveira, e “O Cavalo”, que integrou a antologia Tempo Bom, da Ed. Iluminuras – org. Cristhiano Aguiar e Sidney Rocha) e O PROFESSOR DE PIANO (livro, com posfácio de Regina Zilberman, que abre com "Beleza", vencedor do Prêmio Nacional de Contos do Paraná de 2006, e do qual consta ainda “Onde está o agente?”, conto que integrou a coletânea Futuro presente, da Ed. Record – org. Nelson de Oliveira).


Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h03
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FRETE GRÁTIS! Faça seu pedido agora mesmo pelo e-mail: blogdabeleza@bol.com.br Ou ainda através aqui do Blog da Beleza.
 
Lembrando: cada um dos livros, nas livrarias ou em sites de vendas, custa em média 29,00 (vinte e nove reais). Portanto, é uma super promoção!

 

 

Como proceder:

 

Deposite os 12,90 para Rinaldo N. Fernandes na conta 79.029-X, agencia 1619-5, do Banco do Brasil. Depois confirme o depósito, dizendo o dia em que foi feito, e informe direitinho o endereço para onde os livros deverão seguir. É fácil!



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h02
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Resenha

 

O PROFESSOR DE PIANO,

RINALDO DE FERNANDES

 

 

 

 

por Whisner Fraga*

 

 

(24/03/2012 – resenha postada originalmente no blog "Cidade Devolvida")
 

 

 

Há escritores que gostam de nocautear. Mal começam uma luta e já tentam acertar um gancho ou um direto, para derrubar de vez o oponente e terminar com a história. É arriscado, porque o lutador se expõe e um pequeno erro pode levá-lo a uma derrota. Outros, mais pacientes, encaixam um jab de vez em quando, minando aos poucos a resistência do adversário. Vai vencendo devagar, a cada golpe e eventualmente pode levar o outro ao chão, o que não é tão importante. O que lhe interessa é a vitória e ele a constrói com calma, meticulosamente.

Rinaldo de Fernandes é o segundo tipo de boxeador. Pelo menos é a conclusão que tiro ao ler seu livro de contos O professor de piano, lançado pela 7letras, em 2010. Não estou tentando defender que um estilo é melhor do que o outro, são apenas dois jeitos diferentes de contar uma história, ambos com suas características. Rinaldo vai tateando, testando seu leitor, entregando aos poucos a trama, deixando lacunas, dúvidas, vai encaixando um gancho aqui, outro ali.

Suas narrativas curtas seguem o conceito tradicional de conto: o roteiro se prende a curtos intervalos de tempo, as personagens são poucas, as histórias narradas em dez, doze páginas e todas têm início, meio e fim. O que, na verdade, não importa muito, pois o que vale é a poesia presente, o domínio da arte e a convicção de que a obra não é descartável. Rinaldo é, como o apresenta Regina Zilberman, um mestre do conto.

Apesar de o belo e instigante “Beleza” abrir o volume, é em “O professor de piano” que podemos começar a perceber a maestria a que Regina se refere. Em poucos parágrafos ficamos sabendo que há um plano e que só teremos mais dados à medida que formos nos embrenhando pelas páginas. É assim que Rinaldo nos hipnotiza e é assim que somos pegos de surpresa. Uma surpresa atrás da outra.

Não o espanto do nocaute, mas a paciência sobre a qual comentei no início deste texto. Depois, há outro conto, “Ilhado”, uma construção perfeita. Nos colocam a par de um casal que frequenta um bar. Ele, habitante de uma ilha, ela sua namorada. E há um freguês em uma mesa próxima, que pretende ser apenas um voyeur. Não deseja se intrometer em nada. Mas é aí que o conceito de observador isento entra em ação. Ninguém é independente, há em tudo uma cumplicidade tácita, entretecida de olhares, gestos, de modo que já desconfiamos que os três se envolverão em alguma intriga.

Há o conto “Oferta”, em que uma garota deseja intensamente possuir uma mochila, “Dois buracos para os meus olhos”, uma ficção venenosa, em que tudo parece ser suspeita, os fatos não são entregues ao leitor e o que é fato pode estar corrompido pelo álcool ou por alguma alucinação. Ainda “O caçador”, em que um sujeito invade uma casa e resolve lá morar, dividindo-a com o dono, sem que ele saiba. É um jogo sutil de desencontros.

São onze contos que desafiam o leitor, que nos instigam a seguir para o parágrafo seguinte e ver o que acontece. E o que acontece é que saímos da leitura das quase cem páginas de sustos, de assombros, convictos de que a literatura brasileira contemporânea vai cada vez melhor, mas parece que o grande público ainda não se deu conta disso.

 

 

 

* Whisner Fraga, mineiro, de Ituiutaba, vive em Ribeirão Preto (SP). É escritor e engenheiro. Autor de 7 livros, entre eles O livro da carne (7Letras, 2010) e Sol entre noites (Ficções, 2011). Publica resenhas em seu blog Cidade Devolvida. Para acessá-lo, clique aqui.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h29
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Ficção

 

7 MICROCONTOS ERÓTICOS

 

 

 


               por Rinaldo de Fernandes

 

SALIVA
Porque ele mordera a orelha dela, a noite lhe virou saliva.

 

NO CINEMA
A mão aprendeu logo o que é uma calcinha molhada.

 

OS MINUTOS
Ouviu os latidos. Foi à janela, correu a cortina - o cachorro empurrando a cadela contra o muro. Então, no sofá, a almofada entre as coxas, ficou mordendo os minutos.

 

FRIO E QUENTE

Frio é o destino da ponte – os pés sempre na água. Quente é o sonho da moradora do 809 – os seios derretendo-se na boca do porteiro.

 

PIZZAS
Foi a língua do entregador de pizzas que a acordou para os sábados.

 

MARIA NA TEMPESTADE

A chuva é a queda dos ventos. E Maria, sozinha, é quem umedece os relâmpagos.

 

AO VIZINHO CASCA-GROSSA

A estrela lhe contou que os ruídos da cama são os estalos do carinho.

 

 

                (publicado originalmente no site MusaRara. Clique aqui para ler)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h32
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Coluna Rodapé

Mar./2012

O NAMORO DAS PÁGINAS:

LITERATURA E HISTÓRIA (5)

   

 

 

  

No trabalho de armação da intriga, o historiador se valeria, segundo Hayden White, dos tropos da retórica clássica (metáfora, metonímia, sinédoque e ironia) para produzir uma narrativa mais eficaz. A busca desses elementos retóricos — próprios da literatura — pelo historiador serve para enriquecer o sentido do acontecimento histórico. Serve para preservar esse sentido. Utilizando-se desses recursos retóricos, o historiador faz mais viva a sua narrativa, já que a função dos tropos é mesmo dar ao pensamento mais vivacidade, energia; às vezes, imprimir mais graça, beleza ao enunciado. O historiador constrói a sua obra juntando, por um lado, os elementos retóricos que governam a sua narração/exposição dos fatos, e, por outro, a lógica que comanda as suas deduções, as suas conclusões, numa palavra, as suas explicações desses mesmos fatos. O historiador, portanto, usa retórica e lógica no seu discurso. Ou seja, ele narra, expõe o fato e, ao narrar, se utiliza da retórica para que a sua argumentação surta um melhor efeito. A sua descrição do fato é de caráter narrativo, utilizando-se da retórica; a sua explicação é de caráter argumentativo/dedutivo, valendo-se da lógica. A retórica, assim, imbricando-se na narração e funcionando a favor da explicação dos fatos, constitui, em historiografia, uma peça-chave para que esses fatos passem por verdadeiros. Hayden White, com isso, tenta estabelecer o princípio básico do que chama de “imaginação histórica”. Tenta mostrar o lado ficcional da historiografia, o quanto é intercambiável a elaboração romanesca e a historiográfica: “Os leitores de histórias e de romances dificilmente deixam de se surpreender com as semelhanças entre eles. Há muitas histórias que poderiam passar por romance, e muitos romances que poderiam passar por histórias, considerados em termos puramente formais (ou, diríamos, formalistas). Vistos apenas como artefatos verbais, as histórias e os romances são indistinguíveis uns dos outros. Não podemos distinguir com facilidade entre eles, em bases formais, a menos que os abordemos com pré-concepções específicas sobre os tipos de verdade de que cada um supostamente se ocupa” (in: As ficções da representação factual”. In: Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: EDUSP, 1994, p. 137-38).

 

 

(Minha coluna de crítica publicada mensalmente no jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, e no Correio das Artes, de João Pessoa. Para acessar as demais colunas, clique em aqui)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 14h41
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Ficção

 

VIAGEM

(6 MICROCONTOS)

 

 

 

 

  

por Rinaldo de Fernandes

 

 

 

VIAGEM I

A borboleta veio amarela, largou a cor no pára-brisa do carro.

 

 

VIAGEM II

Rolinhas pingam do galho, longe.

 

 

VIAGEM III

Urubus revoam ao crepúsculo, aguardam a lua. Estará apodrecida?

 

 

VIAGEM IV

Velha churrascaria onde o pôr do sol cochila no teto roído de rato.

 

 

VIAGEM V

Na curva, a cruz enroscada na ramaria seca, anuns nas pedras feito padres solenes.

 

 

VIAGEM VI

O êxito de toda estrela é brilhar sobre um morro.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 23h17
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Informe

 

NÚCLEO LITERÁRIO BLECAUTE

PROMOVE EM CAMPINA GRANDE

EVENTO SOBRE FICÇÃO CIENTÍFICA

 

 
No próximo dia 18/02, sábado, durante o XXI Encontro da Nova Consciência, ocorrerá em Campina Grande, Paraíba, no Centro de Educação (CEDUC II) da Universidade Estadual da Paraíba, o III Encontro de Literatura Contemporânea, que terá como tema: “Saudades do futuro: a ficção científica no Brasil e no Mundo”.

O evento tem como objetivo possibilitar um espaço de discussão voltado para a literatura de ficção científica, tanto nacional como internacional, desenvolvendo debates próximos ao enfoque principal, como o tema do realismo fantástico, das relações entre literatura e ciência, entre outras abordagens.

Composto por palestras, bate-papos literários, lançamentos e sorteios de livros, o III Encontro de Literatura Contemporânea, contará com nomes importantes da literatura brasileira atual. Destaque para os ficcionistas e antologistas Bráulio Tavares e Rinaldo de Fernandes. Aliás, Bráulio Tavares, natural de Campina Grande, é reconhecido como um dos principais autores de ficção científica no país.

Além disso, o evento contará com jovens promissores da literatura paraibana e pernambucana, como o escritor André de Sena, o crítico literário Germano Silva, o escritor Wander Shirukaya, o filósofo Eustáquio Silva, o escritor e físico Roberto Menezes, o cientista Tiago Massoni e o escritor cearense radicado em São Paulo Ricardo Kelmer.

No intervalo entre as atividades, haverá uma série de lançamentos de livros de escritores paraibanos: Balelas, de Wander Shirukaya, Despoemas, de Roberto Menezes, O Irresistível Charme da Insanidade, de Ricardo Kelmer, Assinatura, de Valberto Cardoso, além do relançamento do O Professor de Piano e O Perfume de Roberta, de Rinaldo de Fernandes.

Além das palestras, bate-papos literários e dos lançamentos e sorteios de livros, o público poderá prestigiar também, no final do evento, um sarau literário, promovido pelo Núcleo Literário Caixa Baixa, no Vitrola Bar, localizado no centro de Campina Grande, com a presença dos vários membros da entidade fundada em janeiro de 2011 em João Pessoa.

Nas edições anteriores, ocorridas nos anos de 2010 e 2011, em média, mais de 80 pessoas estiveram presentes durante os dias do Encontro de Literatura Contemporânea, comprovando assim o devido sucesso e interesse do público no assunto, mesmo durante o período do carnaval.

O III Encontro de Literatura Contemporânea é uma realização do Núcleo Literário Blecaute, de Campina Grande, juntamente com o apoio da ONG Nova Consciência, responsável pela organização do XX Encontro da Nova Consciência (http://novaconsciencia.multiply.com/journal).

O Núcleo Literário Blecaute, é formado pelos escritores Bruno Gaudêncio, Flaw Mendes, Jãn Macêdo e João Matias de Oliveira, editores da revista Blecaute, na cidade de Campina Grande (http://sites.uepb.edu.br/revistablecaute/)

 

O evento é gratuito, e não necessita de inscrição prévia.

 

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA:

 

09h00 – Palestra de Abertura: “A edição e tradução de Ficção Científica no Brasil” – com o escritor Bráulio Tavares (PB) – Mediação: Bruno Gaudêncio.

10h30 – Bate-papo I- “Ficção científica: um gênero político?” – com o crítico literário Germano Silva (PE) e o filósofo Eustáquio Silva (PE) – Mediação: Janailson Macêdo

14h00 – Bate-papo II – “Verdades científicas em ficções imaginadas” - com o escritor e físico Roberto Menezes (PB) e o cientista Tiago Massoni (PB) - Mediação: João Matias de Oliveira.

15h15 – Lançamento dos livros: Balelas, de Wander Shirukaya (Contos, Mutuus), e Despoemas, de Roberto Menezes (Contos, Atalho)

15h30 – Bate-papo III – “Realismo fantástico, RPG e a escrita de ficção científica” - com os escritores André de Sena (PE), Wander Shirukaya (PB) e Ricardo Kelmer (SP) - Mediação: Bruno Ribeiro.

16h45 – Lançamento dos livros: O Irresistível Charme da Insanidade, de Ricardo Kelmer (Romance - Editora Arte Paubrasil), Assinatura, de Valberto Cardoso (Poesia, editora idéia),

17h00 – Palestra de Encerramento – "Narrativas de realismo fantástico, de ficção científica e de teor místico/macabro no conto brasileiro recente" – com o escritor e crítico literário Rinaldo de Fernandes (PB) – Mediação: Flaw Mendes

18h15 – Relançamento dos livros: O Professor de Piano (Contos, 7letras) e O Perfume de Roberta (Contos, Garamund), de Rinaldo de Fernandes.

18h30 – Sorteio de livros e lançamento de Poluição Mental, E-book de Bruno R. R. Santos

19h00 - Sarau do Caixa Baixa (Vitrola Bar)

Sábado, Dia 18/02/2012, no CEDUC II (Centro de Educação da UEPB), em Campina Grande, Paraíba.

 

Realização:

Núcleo Literário Blecaute: http://sites.uepb.edu.br/revistablecaute/
XXI Encontro da Nova Consciência: http://novaconsciencia.com.br/

Informações:

(83) 88.44.9131 / revistablecaute@gmail.com



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h40
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Coluna Rodapé

Fev./2012

 

O NAMORO DAS PÁGINAS:

LITERATURA E HISTÓRIA (4)

  

 

   

Vejamos como o debate acerca da relação entre literatura e história se situa em autores mais recentes (alguns deles em diálogo, aberto ou tácito, com Aristóteles). Hayden White (Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. Trad. José Laurênio de Melo. 2a ed. São Paulo: EDUSP, 1995) entende que a história é uma narrativa entre outras. O historiador tem como tarefa mais importante produzir uma versão plausível do passado. De algum modo, ele cria um passado. Daí a idéia de White de que a obra histórica é um artefato verbal — como o é a obra literária. A narrativa historiográfica, para ele, é artefato verbal na medida em que tenta ser um modelo de compreensão de acontecimentos passados. As formas da narrativa historiográfica têm mais a ver com a literatura do que com a ciência. E o conteúdo da história pode ser encontrado como, de algum modo, inventado pelo historiador. Hayden White, neste ponto, põe a questão de que todo relato histórico está a serviço do fato examinado. Haveria uma correspondência forte entre a construção narrativa e o acontecimento de que o historiador trata. Isto é que garantiria a verossimilhança do relato, o seu poder de persuasão — e o faz passar por verdadeiro. É o mesmo que ocorre com uma narrativa literária. White, com isso, tenta combater uma concepção de história — em especial, a história positivista do século 19 — que apostaria em critérios científicos fechados, tomando como modelo os métodos das ciências naturais. Nesse sentido, história é, para ele, mais literatura do que ciência. A preocupação de Hayden White em ver a obra histórica como estrutura narrativa que se quer um modelo do passado faz o ensaísta propor uma teoria dos tropos. A tropologia de White, assim, se baseia na hipótese de que o discurso histórico se funda num duplo movimento: 1) a fidelidade ao passado (a partir dos documentos de que o historiador dispõe); 2) a utilização de uma forma para dizer esse passado (ou a armação de uma intriga apropriada a esse passado). Isto significa dizer que o historiador, antes de fazer a sua narrativa/interpretação de um fato, seleciona e agrupa os documentos disponíveis de uma certa maneira. Ou seja, configura os acontecimentos de antemão, desenha itinerários. Essa armação de um enredo seria uma operação poética. Entrariam nela, de algum modo, componentes imaginários — ou, pelo menos, arbitrários. Se a obra histórica é uma representação do passado, a armação da intriga, repita-se, é uma representação de antemão desse passado.

 

(Minha coluna de crítica publicada mensalmente no jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, e no Correio das Artes, de João Pessoa. Para ler as demais colunas, clique aqui)



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h35
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