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BLOG DA BELEZA - por Rinaldo de Fernandes


 

Conto

 

A CÁRIE

 

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Rinaldo de Fernandes

 

 

O alojamento onde durmo abriga 120 recrutas. A corneta zune às cinco da manhã. O soldado da cama 98, não muito distante da minha, toda vez que acorda, o rosto como se inflamado por alguma moléstia, grita pelo nome da mãe: “mãããeeee!”. Ela morreu há uns seis meses numa calçada, atingida por um carro desgovernado, quando conduzia sua cachorrinha para urinar num beco. Dizem que o soldado ruiu sobre o corpo da mãe quando a encontrou destroçada na calçada, o sangue que escorria de um rasgo no joelho dela sendo lambido pela cachorrinha. O soldado, sempre o vejo de olhos vermelhos na pia do refeitório, enxugando o nariz com força no guardanapo. Eu tenho muita pena dele, especialmente quando o vejo desabado no colchão, beijando a blusa da mãe, mas isso não é o mais importante. O principal é que me bloquearam, não estão me permitindo ir, fins de semana, rever minha parentela. O comandante esbraveja que há muito pó para espanar, piso para ensaboar. Tenho repulsa pelo comandante, que tem os dentes cariados e uma de suas imensas cáries já está tomando o ouvido, a orelha como que já lhe destampou o crânio, cujos miolos ficam fervilhando à vista de todos. Quando ele fala perto da gente, é inevitável um recuo, e até já me abaixei para amarrar o coturno, pois o cheiro da cárie é tão forte que às vezes moscas tentam se infiltrar no canto de sua boca. Aqui, no alojamento, nas madrugadas, entrando pela janela, a luz que vem de um poste no pátio se alonga sobre o piso, sombras ficam difusas, ouço passos, rostos respiram no escuro. Já vi a luz de uma faca rebrilhando perto da escada – e esperei que, ao acordar de manhãzinha, o assassino já tivesse sido detido e o morto conduzido ao necrotério. Meu desassossego traz para cima de mim, no calado da madrugada, um travesseiro que me esmaga, que me comprime a respiração. Nessa hora eu me bato, me levanto. Cato os chinelos, saio para o pátio. Caminho para os lados das sombras, onde há uns arbustos que mais parecem ursos de braços abertos. Tenho vontade de me abraçar aos ursos, mas a brisa me encaminha para a quadra. Ao lado dela há um lago onde se executam treinamentos rigorosos, onde se afogam recrutas para testar-lhes os receios. Já fui afogado nesse lago e saí intacto, ileso. Mas um colega, além de ter um braço rompido, não conseguiu recobrar o fôlego – e o comandante cuidou em despistar o caso. No dia em que nos comunicou, no sol do pátio, que a família do meu colega fora assistida, a cárie do comandante estava ainda mais carregada. Além do cheiro de tripa de rês apodrecida, parecia que a cárie avançava para lhe roer a banda do nariz, que já expelia algumas larvas do pus. Na quadra há uma luz que reflete na arquibancada emporcalhada de excrementos – é a merda dos morcegos que voam baixo, triscam nas paredes e se assentam nas sobrancelhas de um homem amarrado há um ano no fundo da quadra. O homem mal respira e já há uma urna perto dele para acolher seu corpo franzino, com lesões das porretadas que lhe são desferidas todo entardecer. O comandante, uma manhã, com a cárie empretando um de seus incisivos, cujos farelos desabavam sobre a escrivaninha de onde falava, disse que o homem, além do defeito da unha seca, era hostil à temperança, a força dos povos, e que quem entra em desacordo com uma prescrição de Deus precisa receber a mão robusta do castigo. Quando um recruta levantou a mão e quis saber o que era o defeito da unha seca, um dos dentes do comandante fedeu bastante, infectou o auditório. O comandante aí, iracundo, avisou que os morcegos iriam entupir a boca e pousar nas sobrancelhas de quem ali fizesse mais alguma pergunta. E deixou o recinto. Aproximo-me do lago e, no entorno, sobre um extenso gramado, há rochas de nariz bicudo respirando com ruído, sorvendo a brisa que acorda a copa de uma gameleira onde estão dependurados cadáveres de gatos. O comandante gosta de praticar tiro ao alvo matando gatos. Assustam-me os gatos suspensos pelas cordas. O sangue do gato mais gordo pinga no gramado e escorre para o lago. Um lago ensanguentado e ainda, em alguns pontos, cercado por tartarugas emborcadas, cujos pescoços foram arrancados junto com as vísceras e os cascos pisoteados por vigorosos coturnos. O comandante adora ver, em certos dias cívicos, o espetáculo das tartarugas sendo descarnadas, o sangue vomitado no gramado, e pisoteadas pelos coturnos – já chegou a premiar o coturno mais lambuzado. Há um afogado que borbulha no lago e eu me abalo ao ver sua mão me clamando por socorro, me implorando com os dedos onde brilha uma aliança. Penso que é o soldado que ficou noivo no mês passado e que não compareceu mais ao alojamento. Esqueço o afogado, porque há tanques esquecidos no canto – são carcaças que o tempo carcomeu e empoeirou e de onde uma fumaça com um cheiro de cárie sai permanentemente dos motores. A cárie dos tanques em decomposição, de tão forte, alardeia o cachorro que, lá fora, late como se querendo transpor o muro, como se descontrolado com a suprema carniça que o alimentará. É um cachorro com fúria nas pestanas – e vejo que o fuzil do sentinela irá lhe estirar fogo, lhe espocar a vida. Do cachorro sobrarão apenas os latidos, que correrão pelo descampado adiante, por entre moitas e garranchos, e que derrubarão os frutos de um pomar distante. Latidos que também chegarão às palmeiras que se alinham na avenida do outro lado da ponte, onde, num bar, jovens riem e retardam confissões que a fumaça de seus cigarros oculta. Ainda vejo o crânio de um menino que foi jogado nas moitas por trás da quadra – um crânio que o comandante (numa tarde em que suas cáries lhe intumesciam o pescoço) utilizou para treinar bola ao ar, bola que, num pulo, precisa ser alcançada antes que o tiro bata contra os coturnos, resvale nas canelas. Estou já de volta para o alojamento, avisto de novo os ursos, os braços agora ainda mais abertos. Mas a brisa de repente me acompanha com um fedor que nunca senti antes. É o amanhecer também arreganhando seus dentes podres. Nuvens finas, como se fossem vermes avermelhados, já se destacam contra a luz que surge atrás de um monte, longe. Eu preciso me enrolar no meu lençol, abafar o nariz para escapar do mau cheiro intragável, da cárie imunda em que o ar se converteu. Preciso me guiar pelas sombras do alojamento, alcançar minha cama, depositar meus chinelos debaixo dela, como se nada tivesse ocorrido, como se eu tivesse ressonado a noite toda. Preciso cochilar um pouco, antes que o grito me sobressalte, zumba nos meus ouvidos como a corneta que irá me decapitar: “mãããeeee!”.


 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h43
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Informe

 

CONTOS DO BRASIL SERÁ LANÇADO EM JOÃO PESSOA

 

 

 

O escritor Rinaldo de Fernandes irá lançar dia 07 de junho (quinta-feira), a partir das 19h30, no bar Cabaré Brasil, em Tambaú, o seu novo livro, intitulado Contos do Brasil.

O livro reúne aqueles que o autor considera os seus melhores contos. Rinaldo de Fernandes, escritor premiado, tido como “Mestre do conto” por Regina Zilberman, uma das mais importantes estudiosas de literatura do Brasil, já publicou três livros de contos, O perfume de Roberta, O professor de piano e Confidências de um amante quase idiota, e dois romances, Rita no pomar e Romeu na estrada.

Os contos deste novo livro abordam doze temas brasileiros: a violência, a prostituição, o sem-teto, o patrão e o empregado, a corrupção, o machismo, a velhice, o preconceito racial, a religião e a cobiça, o carnaval, o consumo e o sertão profundo. A divisão dos contos em seções temáticas decorre de uma necessidade didática: a ficção de Rinaldo de Fernandes tem sido objeto de estudos em universidades. Já saíram inúmeros ensaios, monografias de conclusão do Curso de Letras, dissertações e teses sobre seus contos e romances. Como destaca o próprio escritor em nota introdutória, a divisão “é, antes, para facilitar a vida do leitor, serve de porta de entrada aos contos. Já a porta de saída... O conto nunca anda em linha reta rumo a um ponto final”.

Do livro constam contos soberbos de Rinaldo de Fernandes, como “Beleza”, vencedor do Prêmio Nacional de Contos do Paraná de 2006. O absurdo da situação vivida pelo protagonista torna esse conto um dos mais comoventes da literatura brasileira contemporânea. Como comovente e bizarro é “O perfume de Roberta”, um relato sobre uma adolescente prostituída por um advogado nas madrugadas frias de São Paulo. Aterrorizante é “Duas margens”, que narra as angústias de duas mulheres traídas e cujo desfecho é um dos mais terríveis do nosso conto recente. “Duas margens” já virou um curta de Ian Abé que foi selecionado para vários festivais de cinema no Brasil. “O professor de piano”, com um fluxo de consciência intenso e um personagem agônico, quase leva o leitor às lágrimas. “Ilhado” ganhou na ‘Folha de S. Paulo’ comentário de Marcelo Coelho, que o situa entre os contos mais violentos de nossa literatura desde os anos 60. “Confidências de um amante quase idiota”, conforme o escritor Nelson de Oliveira, “é um dos contos mais canalhas que já foram produzidos em língua portuguesa”. E tem também “O cavalo”, muito aplaudido pela crítica (o poeta Mário Chamie foi um dos que o comentaram, enaltecendo-lhe a construção). “O cavalo”, que retrata um rompimento amoroso, é cinematográfico – e de um lirismo arrebatador, com as imagens da mulher, montada num cavalo, seguindo à noite pela praia em meio às sombras dos coqueiros, o mar rebrilhando.   

Rinaldo de Fernandes já foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura com o romance Rita no pomar, que, além de ter gerado inúmeros estudos acadêmicos, já caiu em vestibulares. É doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor de literatura da UFPB. É também muito conhecido pelos livros que publicou sobre Chico Buarque, como o Chico Buarque do Brasil, que saiu em 2004 por esta Garamond e que virou best-seller. 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 08h21
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Artigo

 

VOCÊ SABE POR QUE LULA FOI PRESO?

 


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por Rinaldo de Fernandes

 

Eu tenho interrogado algumas pessoas menos armadas e agressivas sobre o principal motivo da prisão de Lula. E boa parte delas já traz a resposta na ponta da língua: foi por corrupção.

Outras titubeiam, vacilam, não emitem de pronto uma resposta, mas, se tentam responder, não conseguem elaborar um discurso minimamente lógico que explique as razões de o ex-presidente se encontrar neste momento encarcerado. São, num caso e no outro, pessoas distintas, que querem honestamente a punição para os corruptos. E eu, já adianto, me posto ao lado delas.

Bom, mas Lula está preso por qual tipo de corrupção? Há modalidades de corrupção? Ou a corrupção no Brasil é só uma e deve, portanto, botar todos no mesmo calabouço?

Professor que sou, e conforme os meus modestos conhecimentos, vou tentar expor aqui essa questão.

 

*

 

A partir da criação da Lava Jato, que congrega promotores, policiais federais e juízes, passou-se a saber, por uma imprensa atenta e de plantão, que havia um truque partidário de arrecadação de dinheiro para as campanhas. E que agentes partidários se beneficiavam amplamente do truque.

Assim, e sendo didático, constatou-se que a corrupção no país tem duas modalidades: a SISTÊMICA e a PRIVADA.

Primeiro, a corrupção SISTÊMICA:

A Lava Jato mostrou que praticamente todos os partidos políticos se beneficiavam de propinas de grandes empresas (Petrobrás, Odebrecht e outras) para fazer as suas campanhas. Havia, assim, uma corrupção estrutural no sistema partidário brasileiro. E mais: havia uma verdadeira cultura da propina para partidos. Montanhas e montanhas de dinheiro envolvendo empresários e agentes políticos dos partidos. Os partidos que estavam no poder ou que tinham estado em tempos recentes, e para garantir os seus grandes ou pequenos nacos de poder, foram os mais beneficiados por esse truque da propina sistêmica. Que partidos eram esses? PT, PMDB, PP e, logo veio também à tona com o chamado “mensalão mineiro”, o PSDB. Portanto, os principais partidos foram pegos na corrupção, se beneficiaram com ela em seus projetos de poder. A malha partidária brasileiro, repetindo, toda apodrecida pela corrupção.

Mas aí incorreu-se num dilema. A quem punir por tamanho descalabro? Que dados concretos poderiam levar os beneficiários da corrupção sistêmica para a prisão? Foi aí que entrou em cena a segunda modalidade de corrupção.

 

*

 

Segunda modalidade: a corrupção PRIVADA.

A Lava Jato, sempre tendo a mídia de perto, e passando cada vez mais a sofrer cobranças, precisava dar uma resposta para a sociedade, precisava objetiva e concretamente processar pessoas.

Não foi fácil então descobrir, dentro da corrupção SISTÊMICA, aqueles agentes políticos que, para além de beneficiar seus partidos e suas campanhas com a rede de propinas, se beneficiavam a si próprio. Agentes que enriqueciam, acumulavam muito, tomando para si parte do dinheiro ilícito da propina. Alguns desses agentes, como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, já tinham um modelo de corrupção privada aberto, descarado. O próprio sistema político, e mesmo antes da Lava Jato, já sabia dos trambiques de Eduardo Cunha, que desde o governo Garotinho metia a mão no dinheiro público. Sérgio Cabral, idem, já se vinha desconfiando de suas ostentações, de suas festas em Paris lavadas a champanhes caríssimas.

Na sequência, a Lava Jato foi alcançando outros agentes privados da corrupção. Membros do PT (José Dirceu, por exemplo), do PP (Pedro Corrêa), do PR (Valdemar Costa Neto) – todos trancafiados por se terem colhidos, conforme os promotores, provas robustas contra eles. A imprensa cuidou logo em festejar tais prisões ao tempo que pregava um discurso de que a corrupção, acima de todos os outros, era o grande impasse do país, era o nosso principal problema. E isso pegou fortemente entre os brasileiros da classe média. Tanto que, no bojo das manifestações de 2013, já não dava para esconder que a corrupção tinha virado um grande tema nacional. E aí começaram a surgir articulistas na grande mídia eletrônica e impressa que, afinados com esse sentimento da classe média, especialmente a de São Paulo, passaram a se utilizar de uma linguagem agressiva, estimulando uma resposta também agressiva desses estratos médios nas ruas, nas diversas manifestações que terminaram na deposição de Dilma Rousseff e, em seguida, na caçada ao ex-presidente Lula.

E por que, afinal, Lula foi preso? Em que tipo de corrupção ele se envolveu?

 

*

 

A Lava Jato em certo ponto começou a ter um tipo de atuação que, por não caçar ou punir nenhum agente do PSDB, alguns deles sabidamente envolvidos em corrupção (o caso mais notório foi o de Eduardo Azeredo, de alta patente no partido, que foi governador de Minas Gerais e cabeça do citado “mensalão mineiro”; depois, Aécio Neves, já com bastante provas contra ele após as denúncias do dono da JBS) – a Lava Javo começou a ser criticada por suas escolhas, por sua “seletividade”. Sérgio Moro tirou fotografias com Aécio Neves – e passou a ter relações fortes e visíveis com o Grupo Globo, que, tendo ascendido economicamente durante os governos militares, faz oposição histórica à esquerda, notadamente ao PT.

Daí se gestou um processo contra Lula. Um processo que tenta ligar o ex-presidente com a mencionada corrupção PRIVADA. Ou seja, Lula teria se beneficiado pessoalmente com a propina de uma empreiteira. Ocorre que muitos juristas já se manifestaram indicando as falhas do processo contra Lula, afirmando que as provas são débeis, inconsistentes. 

Portanto, pelo exposto, a lógica do juiz Sérgio Moro para condenar Lula foi simples. Ele não poderia condenar o PT enquanto instância partidária – porque teria também que assim o fazer com os demais partidos do establishment político (PMDB, PP e PSDB). Teria portanto que condenar a corrupção SISTÊMICA. 

Partiu então para atuar contra a corrupção PRIVADA. Daí o imbróglio do triplex. Um processo, como já indiquei, polêmico, discutível, para muitos uma fraude, mas que já submeteu Lula à prisão.

Para fechar o argumento: uma juíza ontem impediu que floresça na Lava Jato um processo contra Geraldo Alckmin, cujo codinome é “santo” no submundo das propinas. Foi noticiado esta semana que Alckmin se beneficiou, com propinas de empreiteiras, com cerca de 10 milhões de reais em duas de suas últimas campanhas. Alckmin, portanto, integra a estrutura da nossa corrupção SISTÊMICA. Assim como Lula e outros políticos brasileiros.

Mas Alckmin não tem, e nem terá, um Moro no seu pé, para o acossar com um processo incerto, duvidoso!

É isso.

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h38
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Depoimento

 

O CHORO DE LULA

 

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por Rinaldo de Fernandes

 

 

Lula está comovido. Tomado de emoção. Hoje é um dia muito difícil para ele – ocorre uma missa em homenagem à Marisa e é chegada a hora de ele ir cumprir sua pena.

Para gravar um áudio, no qual rememora a sua trajetória de menino pobre, que, junto com a mãe e cinco irmãos, se deslocou num pau-de-arara de Pernambuco para São Paulo, ele não se conteve. Chorou e tomou de emoção os que estavam assistindo à gravação do áudio, que também foram aos prantos.

Um irmão meu, já falecido, que chegou a ser presidente do PT do Maranhão, e que conheceu Lula de muito perto, me falava desse lado emotivo dele, da emoção verdadeira que o toma nos bons e maus momentos. Lula é um personagem humano. Não é o personagem histórico frio, que se apresenta às pessoas como alguém que apenas racionaliza, que recorre ao raciocínio para arrolar seus feitos e pretensões. Lula é lógico e afetuoso, inteligente e sensível, reivindicador e receptivo, rechaçador e amistoso.

O choro dele, neste momento, é de tantos. Entendo que seu choro tem como razão de ser uma verdade: a de um homem que se sente injustiçado. Lula tem afirmado com uma coerência ímpar que é inocente. Assusta seus inimigos políticos o quanto ele diz com firmeza que o processo é uma fraude. E inúmeros juristas já afiançaram os argumentos do ex-presidente. Portanto, Lula, tudo leva a crer, é um perseguido. É, a partir deste momento, um preso político. O preso político mais importante da história deste país.

Estou do lado de Lula. Agora há pouco, fui buscar meu filho num curso de desenho que ele faz aos sábados. Ele, sentadinho no banco de trás, notou que eu dirigia emocionado, e quis saber o que se passava. Não me contive e derramei lágrimas diante do meu filho: “Lula vai ser preso”.

Eu sinto a injustiça que Lula está sentido. Sinto com muita verdade. Por isso eu chorei diante do meu filho. E a um filho não se pode esconder a verdade de uma emoção.

Beijos! Vamos ter fé!

 

 

[publicado em meu facebook em 07/04/2018; o texto já teve perto de 100 compartilhamentos e já contabilizou cerca de 50.000 leitores e inúmeros comentários; agradeço!]

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 13h54
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Artigo

 

AFINAL, O QUE SÃO

OS DIREITOS HUMANOS?

MARIELLE FRANCO JÁ

NÃO PODE RESPONDER...

 

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por Rinaldo de Fernandes

 

 

Tenho debatido com meus alunos de graduação, até para iniciá-los no tema dos direitos humanos, o primoroso ensaio “O direito à literatura”, de Antonio Candido. Nesse ensaio Candido define com clareza e força de argumento o que são os direitos humanos. Aponto abaixo quatro aspectos relevantes da fala do grande crítico:

1) é favorável e/ou defende os direitos humanos aquele que tem consciência funda de que os bens indispensáveis para ele são também indispensáveis para o outro;

2) há bens que são indispensáveis e, portanto, não podem ser negados a ninguém – a ninguém, absolutamente. São bens indispensáveis ou direitos que todos têm: o direito, conforme o crítico, “à alimentação, à moradia, ao vestuário, à instrução, à saúde, à liberdade individual, ao amparo da justiça pública, à resistência à opressão, [...] à crença, à opinião, ao lazer e [...] à arte e à literatura”;

3) defender os direitos humanos, assim, é defender esses direitos que todos possuem. É estar do lado da CIVILIZAÇÃO. É ser CIVILIZADO;

4) o nosso tempo, pelas conquistas do conhecimento, ou seja, da ciência e da tecnologia, já permite resolver os problemas da miséria. O que, em nosso tempo, impossibilita que a miséria e/ou a iniquidade social seja sanada é o irracionalismo dos comportamentos ou a BARBÁRIE.

O irracionalismo dos comportamentos ou a BARBÁRIE está na sociedade, está no Estado, e é determinado por posicionamentos políticos (por ideologias identificáveis, não só, mas especialmente com a direita e com a extrema-direita).

Portanto, defender direitos humanos é atuar pela dignidade da pessoa, é defender que todos tenham os bens e/ou direitos indispensáveis para viver decentemente.

Há um sério problema moral naquele que condena os direitos humanos. Ele está se situando a favor da BARBÁRIE e condenando abertamente a CIVILIZAÇÃO. 

Eu perdoo as pessoas que dizem que aqueles que defendem os direitos humanos estão defendendo os direitos “dos bandidos” (ou os “direitos dos manos”). Eu perdoo pelo desconhecimento ou pela grande ignorância. Eu perdoo pela forma rasa de enfrentar o debate. Essas pessoas, via de regra, lavam as mãos para os problemas, são indiferentes ou insensíveis às iniquidades sociais. 

Eu não sou. Eu não sou bárbaro. Eu me posto do lado da CIVILIZAÇÃO. 

Ontem, no Rio de Janeiro, a BARBÁRIE brasileira deu mais um exemplo do que é capaz. Ontem foi a vereadora Marielle Franco. Hoje e amanhã continuarão sendo, sobretudo, os favelados, os favelados, os favelados...

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 17h25
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Informe

 


ROMEU NA ESTRADA É TEMA DE MONOGRAFIA

DE CONCLUSÃO DO CURSO DE LETRAS NA UFCG

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Trago essa notícia sobre mais um estudo acadêmico sobre um de meus romances. Só tenho que agradecer à pesquisadora Rayana Melo e à sua orientadora, a professora e ótima ensaísta Rosângela Melo Rodrigues:

DEFESA DE MONOGRAFIA NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE

ESTUDANTE: Rayana Melo Barbosa

TÍTULO: "AS PERSONAGENS FEMININAS NA FICÇÃO CONTEMPORÂNEA: AS MULHERES NO ROMANCE ROMEU NA ESTRADA, DE RINALDO DE FERNANDES"

ORIENTADORA: Drª. Rosângela de Melo Rodrigues (UAL/UFCG)
BANCA EXAMINADORA: Dr. José Edilson Amorim (UAL/UFCG)
e Ms. José Mário da S. Branco (UAL/UFCG)

LOCAL: AUDITÓRIO DA UAL – (UFCG) 
DATA: 14/03/2018 (QUARTA-FEIRA)
HORÁRIO: 19h30

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 09h02
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Informe

 

CAPA DO MEU NOVO LIVRO!!!

SAI EM MARÇO, PELA EDITORA GARAMOND!!!

LIVRO REÚNE MEUS MELHORES CONTOS!!!

 

 

 


Acabo de receber a boa notícia de Ari Roitman, da editora Garamond, do Rio de Janeiro. O meu livro Contos do Brasil (205 págs.), uma reunião especial com meus 34 melhores contos, alguns inéditos em livro, irá para as livrarias em março. É um belo projeto editorial. Os contos do livro estão divididos em 12 seções temáticas. Mais à frente informo os primeiros locais de lançamento. Leia abaixo, com exclusividade, o texto da quarta capa e o texto da orelha do livro.

 

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Texto da quarta capa do Contos do Brasil:

 

Os contos deste livro abordam doze temas brasileiros: a violência, a prostituição, o sem-teto, o patrão e o empregado, a corrupção, o machismo, a velhice, o preconceito racial, a religião e a cobiça, o carnaval, o consumo e o sertão profundo. A divisão dos contos em seções temáticas decorre de uma necessidade didática: a ficção de Rinaldo de Fernandes tem sido objeto de estudos em universidades. Já saíram inúmeros ensaios, monografias de conclusão do Curso de Letras, dissertações e teses sobre seus contos e romances. Como destaca o próprio escritor em nota introdutória, a divisão “é, antes, para facilitar a vida do leitor, serve de porta de entrada aos contos. Já a porta de saída... O conto nunca anda em linha reta rumo a um ponto final”.

 

Texto da orelha do Contos do Brasil:

 

Este livro reúne aqueles que o autor considera os seus melhores contos. Rinaldo de Fernandes, escritor premiado, tido como “Mestre do conto” por Regina Zilberman, uma das mais importantes estudiosas de literatura do Brasil, já publicou três livros de contos, O perfume de Roberta, O professor de piano e Confidências de um amante quase idiota, e dois romances, Rita no pomar e Romeu na estrada.

Aqui estão contos soberbos de Rinaldo de Fernandes, como “Beleza”, vencedor do Prêmio Nacional de Contos do Paraná de 2006. O absurdo da situação vivida pelo protagonista torna esse conto um dos mais comoventes da literatura brasileira contemporânea. Como comovente e bizarro é “O perfume de Roberta”, um relato sobre uma adolescente prostituída por um advogado nas madrugadas frias de São Paulo. Aterrorizante é “Duas margens”, que narra as angústias de duas mulheres traídas e cujo desfecho é um dos mais terríveis do nosso conto recente. “Duas margens” já virou um curta de Ian Abé que foi selecionado para vários festivais de cinema no Brasil. “O professor de piano”, com um fluxo de consciência intenso e um personagem agônico, quase leva o leitor às lágrimas. “Ilhado” ganhou na Folha de S. Paulo comentário de Marcelo Coelho, que o situa entre os contos mais violentos de nossa literatura desde os anos 60. “Confidências de um amante quase idiota”, conforme o escritor Nelson de Oliveira, “é um dos contos mais canalhas que já foram produzidos em língua portuguesa”. E tem também “O cavalo”, muito aplaudido pela crítica (o poeta Mário Chamie foi um dos que o comentaram, enaltecendo-lhe a construção). “O cavalo”, que retrata um rompimento amoroso, é cinematográfico – e de um lirismo arrebatador, com as imagens da mulher, montada num cavalo, seguindo à noite pela praia em meio às sombras dos coqueiros, o mar rebrilhando.    


Rinaldo de Fernandes já foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura com o romance Rita no pomar, que, além de ter gerado inúmeros estudos acadêmicos, já caiu em vestibulares. É doutor em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e professor de literatura da UFPB. É também muito conhecido pelos livros que publicou sobre Chico Buarque, como o Chico Buarque do Brasil, que saiu em 2004 por esta Garamond e que virou best-seller.  

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h30
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Informe

LITERATURA BRASILEIRA 
CONTEMPORÂNEA E VIOLÊNCIA

 


Lúcido, bem pesquisado e bem composto o ensaio “Prosa contemporânea brasileira e violência”, de Cristhiano Aguiar, Doutor em Letras e professor do Programa de Pós-Graduação em Letras do Mackenzie (SP). O ensaio acaba de ser postado no site da revista Continente e está muito bem editado, fácil de ler. Cristhiano faz uma arqueologia da origem da literatura da violência no Brasil, reconhecendo o impacto que, para certos autores contemporâneos, tiveram obras publicadas nos anos 60 por Carolina Maria de Jesus, João Antonio, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Daí ele indicar, entre esses autores contemporâneos que trouxeram as marcas da ficção violenta dos anos 60, os nomes de Patricia Melo, Ana Paula Maia, Santiago Nazarian, Marcelino Freire, Sheila Smanioto, Rinaldo de Fernandes, Luiz Ruffato e Paulo Lins. Na sequencia o ensaísta dá destaque a três outros autores que, neste momento, segundo pensa, trariam uma nova dicção acerca da literatura da violência no Brasil: o paulista Marcelo Maluf, a mineira Conceição Evaristo e o cearense Sidney Rocha. Agradeço ao Cristhiano Aguiar por citar o meu nome em seu ensaio. Os estudiosos da vertente da literatura da violência têm, não raro, citado meus contos e romances na lista de obras representativas dessa vertente da literatura brasileira atual. Um bom artigo nesse sentido foi o “Literatura da violência” (que está na internet), do jornalista e articulista da Folha de S. Paulo Marcelo Coelho, no qual é abordado o meu conto “Ilhado”, que é tido por Marcelo como representante da literatura brutal, de extração rubem fonsequiana. Ana Lúcia Rodrigues Guterra também estudou meu conto  Duas Margens em sua dissertação de Mestrado defendida no Rio Grande do Sul e que ela transformou no livro Literatura, violência e vida social na sala de aula: práticas e reflexões. Também no Rio Grande do Sul a pesquisadora Gabriela de Oliveira Vieira defendeu a dissertação de Mestrado intitulada Configuração dos personagens e o papel da violência na sociedade brasileira em releituras de contos de Machado de Assis, em que aborda, entre outras narrativas curtas, o meu conto Beleza. Devo dizer que o tema da violência entra em certas obras minhas, e não poderia deixar de ser, como busca para gerar algum tipo de reflexão crítica do leitor, ou mesmo algum desconforto nele pelo tipo de enquadramento proposto. Só tenho que agradecer mesmo a esses estudiosos e articulistas! O ótimo ensaio “Prosa contemporânea brasileira e violência”, de Cristhiano Aguiar, pode ser lido colando endereço abaixo: 

https://www.revistacontinente.com.br/edicoes/203/prosa-contemporanea-brasileira-e-violencia



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 19h33
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Depoimento

 

A AVE IMPONENTE E O INSETO

 


por Rinaldo de Fernandes

 

Há entre os romancistas, mesmo que muito distantes no talento, alguns aspectos da recepção de determinadas obras e de seus processos criativos que os aproximam. E há também o adágio que diz: junte-se aos bons que serás um deles. Sempre desconfiei desse adágio – já houve de eu me juntar a carregadores de pérolas e nenhum pérola me cair nas mãos. Mas hoje irei me juntar a um dos bons, melhor dizendo, a um extraordinário escritor, para ver se consigo tocar, mesmo que levemente, em sua sombra. Porque já há algum tempo verifiquei, com surpresa, algumas coincidências entre ele e eu. Adianto: não é a coincidência da glória, da reputação e muito menos da fortuna. Verifiquei que houve certos elementos, embora aleatórios, que envolveram a recepção e que estiveram na base da elaboração do principal romance de Gabriel García Márquez e na base da elaboração do meu modesto Rita no pomar.

Antecipadamente, peço-lhes perdão pela comparação. Se cometo um crime aqui, podem me denunciar. E merecerei ser trancafiado.

Há 50 anos, ganhou voo para os céus de todos os continentes uma ave imponente – Cem anos de solidão, de García Márquez, romance publicado em junho de 1967 pela editora argentina Sudamericana, cujo diretor era Francisco Porrúa, que se tornaria lendário (foi também o descobridor de Júlio Cortázar) e que vira no livro e no autor um excelente empreendimento. Embora o desejo de García Márquez fosse o de ser publicado pela editora Losada, dirigida por Guillermo de Torre, e também argentina. Guillermo de Torre já recusara a publicação de A Revoada (O Enterro do Diabo), primeiro romance de García Márquez, de 1955, e, mesmo, o aconselhara a abandonar o ofício de escritor.

 

Inseguro, entendendo que Cem anos de solidão poderia o estar levando a uma “aventura que tanto podia ser afortunada quanto catastrófica”, e até pela não tão boa acolhida do romance de 1955 (que é apontado pela crítica, conforme lembrou Héctor Abad, em artigo para a “Ilustríssima”, como o mais fraco – “imaturo e malogrado” – dos romances do colombiano), García Márquez de fato não desconfiava da gigantesca recepção do romance de l967. Quando lançado, Cem anos de solidão vendeu em duas semanas 8.000 exemplares; após um ano, vendeu 600 mil exemplares; foram 2 milhões vendidos em 3 anos. E estima-se que, até agora, o romance tenha vendido 50 milhões de exemplares. De formidável fortuna crítica, já se acumularam 50 anos de estudos dessa obra-prima, dessa, repito, ave imponente. 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h39
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Um pequeno inseto veio ao mundo em 2008, o meu romance Rita no pomar, que, ano que vem, se a matemática não mudar, completa 10 anos de publicado. Um pequeno inseto que, nesses 10 anos, e para a minha surpresa (pois nunca pensei que o livro viesse a desfrutar da recepção que vem desfrutando), tem dado suas revoadas, tentando alçar vôo mais largo. Como García Márquez, também tive insegurança quanto à recepção do romance – e também pensei em catástrofe, pensei seriamente. Não me alcançaram, como o autor colombiano, repito, a glória, a reputação e nem a fortuna. Mas se hoje vocês se encontram aqui comigo, e as professoras que já há algum tempo se dedicam à análise do inseto, é porque o inseto tem alguma tripa. É isso – Rita no pomar tem sido destripado nessa sua primeira década de existência por gente de porte intelectual e que respeito muito. Cito uma parte dessa gente: os ensaístas Silviano Santiago (autor do posfácio), Rosângela de Melo Rodrigues, Paloma Oliveira, Ravel Giordano Paz, Luiz Antonio Mousinho, Sônia van Dijck, Bruna Belmont, Alcir Pécora (mesmo que pra dizer que o inseto é da família dos tísicos literários, ou seja, é dos livros que fazem enfermar a boa tradição do gênero romance).

García Márquez penou para escrever Cem anos de solidão. Penúria material mesmo, pois, no período da escrita do romance, junto com a mulher Mercedes, e com dois filhos pequenos, ele estava passando por sérios problemas financeiros. Os amigos acudiram o casal García Márquez diversas vezes – além do aluguel e do alimento, havia a obsessão do escritor por corrigir seu texto, o que o levava a consumir resmas e mais resmas de papel. E a aquisição de mais resmas, em certo momento da escrita do livro, se tornou uma questão séria, quase um obstáculo. Os apuros financeiros do escritor colombiano eram tantos, que o obrigaram a enviar em dois pacotes os originais de Cem anos de solidão – isso da Cidade do México, onde ele vivia, para o editor na Argentina. O dinheiro que o casal García Márquez dispunha não permitiu, por conta do peso, o envio de uma só vez, num único pacote, dos originais do romance. E o dado curioso: o pacote que seguiu primeiro pelos Correios para o editor em Buenos Aires correspondia à parte final do romance.

O casal García Márquez, durante a escrita de Cem anos de solidão, se virava como podia, inclusive recorrendo à penhora de alguns bens. Em “A odisséia literária de um manuscrito”, saborosa narrativa sobre a gênese e as dificuldades para a produção de Cem anos de solidão, García Márquez se refere, com humor, ao momento em que ele e Mercedes precisaram penhorar algumas jóias da família:

 

 

O joalheiro do penhor examinou-as com um rigor cirúrgico, pesou e revisou com seu olho mágico os diamantes dos brincos, as esmeraldas de um colar, os rubis dos anéis, e por final nos devolveu peça por peça:

– Isto é puro vidro!

 

 

Não precisei, felizmente, penhorar bens para poder compor Rita no pomar e nem precisei enviar pelos Correios, aos pedaços, a obra para o meu editor da 7Letras no Rio de Janeiro. Mas, no meu passado de estudante de Letras no Ceará, e que foi muito importante para a minha formação de ficcionista, eu passei por uma situação muito parecida com essa do joalheiro, narrada por García Márquez. Ainda não havia computador e eu usava uma máquina de escrever emprestada de um amigo. O amigo precisou da máquina e eu não tinha dinheiro sequer para comprar canetas. E eu já começara a escrever contos e vinha rabiscando, mais com teima do que talento, um romance. Sem as canetas, fiquei uma semana impossibilitado de escrever. Eu, com esse e outros tormentos financeiros, era praticamente um escritor inviável, sem qualquer chance. Mas aí me ocorreu um fato parecido com essa história do joalheiro de García Márquez (e que alguns amigos e familiares conhecem muito bem e que ainda hoje sorriem quando o narro). Uma vez, finalzinho de tarde, em Fortaleza, eu caminhava pela praça em frente à Faculdade de Direito, quando avistei, a poucos passos de mim, uma cobra brilhosa – uma pequena serpente inteiriça, estirada no cimento, entre alguns capins nas rachaduras. Livrei-me da serpente dando um salto – e que salto! – à frente. Creio que, de tanto medo, proferi um palavrão, daqueles bem pelados. O coração ainda aos pulos, a visão do brilho da cobra me fez de repente parar e, em seguida, recuar: que tanto brilho era aquele? Que dorso mais cintilante? Não era uma cobra, mas um fornido cordão de ouro, caído ali. Ah, o sentimento de achar uma coisa de valor é formidável! Se há algumas alegrias nesta terra, uma delas é encontrar, às 6 da tarde, dormindo no cimento ainda morno pela tarde cearense, um cordão de ouro luzente. Os dedos se descontrolam, é enorme o impulso de correr para avisar alguém: “Olhe o que encontrei!”. Passei um tempo ostentando o cordão. Mas, para proteger-me de assaltos, exibia-o apenas em ocasiões especiais. Me achava o todo onipotente com aquele bicho no peito, a camisa entreaberta. Mas, pobre estudante, vieram os apertos financeiros, os apuros. Uma manhã de segunda-feira, e após um fim de semana terrível de liseira, de eu não ter sequer um trocado no domingo para adquirir o jornal com o suplemento literário que acabara de publicar o primeiro conto que escrevi, peguei um ônibus, me dirigi ao setor de penhoras da Caixa Econômica. Chegando lá, enfrentei uma fila. Uma fila de taciturnos – de tristonhos desendinheirados como eu. E ao entregar, pela janelinha do caixa, embrulhado num papel, o cordão para o exame do funcionário (e foi também um “exame cirúrgico”), ele me jogou de volta: “É Denorex!”. Creio que alguns aqui já ouviram falar no comercial do Denorex, o que parecia remédio, mas que não era...

Foi um fim de semana numa praia (a de Acapulco, no México) que fez García Márquez encontrar, fazer crescer e permitir voar a sua portentosa ave Cem anos de solidão. Ele mesmo conta:

 

 

...fazia muito tempo que eu era atormentado pela idéia de um romance desmesurado, não somente distinto de tudo que já havia sido escrito antes, mas como também de tudo que já se havia lido até então. Era uma espécie de terror sem origem. Em meados de 1965, eu ia com Mercedes e meus dois filhos para um fim de semana em Acapulco, quando me senti fulminado por um cataclismo na alma, tão intenso e arrasador, que apenas consegui desviar de uma vaca que atravessava a estrada. Rodrigo [o filho] deu um grito de felicidade:

– Eu também, quando crescer, vou matar vacas pela estrada.

 

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h36
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O cataclismo, está claro, foi a idéia que de repente lhe ocorreu para a escrita do romance. E o escritor prossegue:

 

 

Não tive um minuto de sossego na praia. Na quarta-feira, quando regressamos ao México, me sentei em frente da máquina de escrever, para datilografar uma frase inicial que já não podia suportar dentro de mim: ‘Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo’. Desde então, não me interrompi um só dia como se eu estivesse numa espécie de sonho avassalador, até a conclusão, onde Macondo vai pra casa do caralho.

 

 

O meu inseto Rita no pomar ganhou suas asas tênues numa noite de sábado, de repente, quando ouvi esta frase: “Ela, quando se separou, foi viver numa praia com um cachorro”. Mas que frase terrível! Foi o meu cataclismo! Não tive também um momento de paz... não numa praia, mas no meu próprio quarto. Passei a madrugada pensando nessa imagem de uma mulher solitária vivendo com um cachorro à beira-mar. Já voavam ondas, que respingavam em mim, o vento descerrava a cortina, revolvia o quarto. E eu via, nítidas, as areias e ainda sombras sobre as águas, o mar encurtado. Fedia um mangue próximo. Ocorriam-me os gritos da mulher para o cachorro – e eu o via latindo, exasperado, ou às vezes defecando sobre uma duna. Via um barco, o pano todo esfrangalhado, que passava ao largo e lhe escorriam dos fundos as águas – e ele emborcava no seco, pendia na areia. E dois indivíduos deixavam o barco e saíam, um numa direção e outro, noutra, examinando o mangue. Dois indivíduos que só meses depois identifiquei como sendo os dois maridos de Rita. Foi, repito, o meu cataclismo. Depois dele, passei a escrever obsessivamente o romance, durante nove meses.

García Márquez, como lembrou Ronaldo Bressane no artigo “Meio século do romance do século XX”, teve a preocupação, antes de publicar o romance, de testar com leitores capítulos de Cem anos de solidão. Para o teste, publicou nada mais, nada menos do que 7 capítulos do livro: 1) em El Espectador, de Bogotá, em 1º de maio de 1966; 2) na revista Mundo Nuevo, de Paris, em agosto de 1966 (a Mundo Nuevo divulgava autores do boom latino-americano); 3) na peruana Amaru, tida como uma revista vanguardista; 4) na Eco, revista literária colombiana; 5) novamente na parisiense Mundo Nuevo, em março de 1967; 6) na Diálogos, mexicana, em abril de 1967; 7) na argentina Primera plana, em junho de 1967, um pouco antes da publicação do romance.

Também tive necessidade, com Rita no pomar, de fazer testes com os leitores. Ou, por outra, de trazer para o romance textos já examinados e até passados pelo crivo da crítica. Primeiro, aproveitei o conto “Rita e o cachorro”, do livro O perfume de Roberta, de 2005. O conto corresponde aos 4 primeiros capítulos de Rita no pomar. Os capítulos “Telma e o filho morto” (nº 15), “A senhora do edifício” (nº 28) e “Nosso filho” (n° 30) do romance foram publicados em livros (O perfume de Roberta e O Caçador) e revistas literárias como contos. Os capítulos “Café da manhã de minha mãe com Telma” (nº 13) e “A invenção de André” (nº 17), também de Rita no pomar, foram escritos em São Paulo, onde os apresentei, para um devido exame crítico, a amigos escritores – e bem antes da escrita contínua do romance, que foi em João Pessoa.

Portanto, e repetindo, assim como a ave magnífica de Garcia Marquez, também foram necessárias provas com leitores para que o meu inseto tramasse um tremor de asas.

Concluindo, desculpem-me, foram apenas algumas aproximações desimportantes. Mas, em literatura, pode haver alguma felicidade no contraste – o livro imenso e o livro miúdo têm suas gigantescas diferenças, mas têm também seus pontos em comum, confluências às vezes insuspeitadas e que só um relato responsável pode revelar.

Ah... E uma ave imponente será sempre uma ave imponente diante de um inseto.

Muito obrigado!

   

[Depoimento proferido no Curso de Letras da Universidade Federal de Campina Grande, em 25/10/2017, quando do lançamento da segunda edição de Rita no Pomar]



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h34
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Conto

 

A PRIMEIRA VEZ DO MENINO

 



 

por Rinaldo de Fernandes

 

 

Foi no dia seguinte à morte da mãe. A irmã maior lhe impôs: “Vá lá”. E foi o primeiro dia do menino. Foi a primeira vez dentro de suas próprias calças. Foi a iniciação debaixo da escura marquise que sempre abrigava a família.

Voavam moscas, que irrompiam de um bueiro, e o menino embaixo da marquise, vendo adiante os latões de lixo atulhados. Pensava na mãe e estava acanhado para ir até os latões, descair para fuçar lá dentro. Ele tinha uma namoradinha e achava que ela podia despontar do nada na esquina. A mãe, mais hábil que a irmã, fuçava os latões com disposição, emergia deles com fiapos grudados no cabelo – e sempre achava a gordura do feijão, um pedaço de toucinho já entrado em decomposição. O menino ficava esperando debaixo da marquise, observando as rachaduras no cimento da calçada. Rachaduras que lhe lembravam veias – as veias do braço da irmã ferido um dia nas bordas de um latão empenado. Calçada onde brincava de enfiar palitos numa carcomida folha de alface, de conceber um elefante com asas, vendo-as vibrar. Sempre achava que elefante é verde.

O menino nunca tinha se dirigido aos latões. A mãe o impedia, tinha medo de ele se “talhar em vidro”. Revolver os latões era ocupação apenas da mãe e da irmã maior, ou de “pessoas já de altura”, como orientava a mãe. A irmã maior revirava todos os latões das redondezas, de ruas remotas: já se vestira para o Ano Novo com roupa de um único latão. A mãe, e já havia anos, arrancava os calçados de toda a família de dentro dos latões. A mãe já atravessara de saltos altos a curta ponte que ia dar na favela onde moravam. A mãe já festejara o aniversário da caçula com os recheados que achara, por acaso, no fundo de um grande latão atochado de cadáveres de computador. Um latão onde, uma vez, vomitou o vigia do prédio próximo. O mesmo vigia que aqui e ali disparava uma piada mal cheirosa para a mãe. O que fazia com que o menino retirasse com raiva os palitos do alface, amputando as pernas do seu elefante.

Mas o menino agora... o menino pensava na mãe e sentia tristeza ao observar as rachaduras na calçada – via as asas verdes do elefante caladas. E tinha vergonha de se enfiar no latão, de extrair dali o alimento que iria empurrar a irmã caçula para a bandeira (ela dormia sobre uma bandeira que, numa tarde de tempestade, a mãe encontrou voando numa avenida). O menino, sobretudo, tinha vergonha de ser flagrado pela namoradinha – via-a com seu vestido azul estampada na esquina. O menino observava as janelas dos prédios – achava que um olho o vigiava. E continha-se, sempre acanhado.


Até que resolveu ir depressa e, como a mãe, ficar de cócoras dentro do latão. Vez por outra, colocava a cabeça de fora para ver se vinha alguém – e se o vestido azul da namorada desaparecera na esquina. E, ali no latão, rápido, reuniu coisas numa mochila esfrangalhada, de onde pulavam fedores. Foi a primeira vez do menino. Ali, escarafunchando, encontrou uma pulseira de elástico rompida e um estropiado calção de banho com a estampa de um Super Herói. A pulseira ele emendou e vestiu o braço, esperançoso de, em breve, ir ter com a namorada. O calção fez a careta de alegria da irmã caçula. Que, na primeira noite sem a mãe, e alimentada com uma espécie de sopa feita das dobras de um mamão, foi dormir uniformizada de Homem Aranha.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 13h20
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Lançamento

 

JÁ À VENDA NA AMAZON!

 


 

Já está na pré-venda da Amazon a segunda edição do meu romance Rita no Pomar (editora Novo Século), cujo preço de capa é 35,00 reais. Mas os interessados podem também adquirir o livro diretamente comigo ao preço super promocional de 20,00 reais (para remessa, AUGTOGRAFADO, pelos Correios custa 25,00 reais). Quem tiver interesse, passe mensagem aqui no blog, dando o nome para uma lista que estou montando. E aí em setembro eu entrego o livro devidamente AUTOGRAFADO (no nome do comprador ou de terceiros). Esta segunda edição de Rita no Pomar, que, em 2009, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Zaffari & Bourbon, traz, além do posfácio de Silviano Santiago, onze estudos sobre o romance. O lançamento nacional será próximo dia 9/09, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h06
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Pesquisa

 

LITERATURA E VIOLÊNCIA:

ENTREVISTA A PESQUISADOR DA UFBA

 

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Trecho de entrevista que acabo de conceder ao pesquisador Murilo Melo, que está fazendo um estudo na Universidade Federal da Bahia sobre a coletânea Contos cruéis, que organizei em 2006 para a Geração Editorial e que, em 2009, foi um dos livros escolhidos do PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola), do Ministério da Educação. Segue:

 

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- Quais imagens de violência e crueldade escolhidas para o livro Contos cruéis mais chamaram a sua atenção?

Rinaldo de Fernandes – As do conto “Feliz Ano Novo”, de Rubem Fonseca, com bandidos estuprando e matando impiedosamente os indivíduos que participam de uma festa de réveillon. A cena do tiro para testar se o atingido gruda na parede é, de fato, muito cruel. Há também a cena do conto da Lygia Fagundes Telles, em que um indivíduo deixa a ex-namorada presa num cemitério. São, aí, dois tipos de violência, igualmente impiedosas – a que decorre das desigualdades sociais e a que o individuo carrega consigo, a que nos é inerente e que pode se manifestar a qualquer momento.

 

- O que o senhor analisa de semelhante entre o livro Contos cruéis e O professor de piano?

 

Rinaldo de Fernandes – A crítica já apontou meu conto “Ilhado”, que consta de O professor de piano, como uma narrativa que dá prosseguimento à linha da literatura da violência urbana inaugurada, desde os anos 60, por Rubem Fonseca. Para mim é uma honra dar prosseguimento a essa vertente proposta por um autor da minha mais profunda admiração. Nesse quesito, sugiro a leitura do artigo “Literatura da violência”, de Marcelo Coelho, da Folha de S. Paulo, no qual ele aponta os autores da literatura brasileira contemporânea que dariam prosseguimento, em certos textos, à vertente violenta inaugurada por Rubem Fonseca. Seriam autores da escola fonsequiana: Patrícia Melo, Paulo Lins, Ferréz, Marçal Aquino, Fernando Bonassi e eu. Esse artigo foi produto de uma palestra que Marcelo Coelho proferiu numa universidade americana. Creio que ele percebeu bem a questão da escola da violência que tem Rubem Fonseca como mestre. Em O professor de piano, há varias modulações da violência. Além da violência decorrente de problemas sociais, como é o caso de “Ilhado”, há aquela decorrente de frustrações amorosas e que envolvem, por exemplo, o machismo: caso de “Você não quis um poeta” e mesmo o conto “O professor de piano”. Aqui a frustração individual, a rejeição, desencadeia a brutalidade. Ou seja, a violência vem de fora mas também parte de dentro do indivíduo. Todos somos potencialmente vítimas e sujeitos da violência.

 

- Como surgiu essa predileção pelo tema "violência"? Por que o senhor acha importante trabalhar com a violência dentro da literatura?

 

Rinaldo de Fernandes – Minha predileção pelo tema veio, seguramente, de minha leitura de Rubem Fonseca. Este autor me ofereceu modos mais brutais, sem meios tons, para retratar a violência. Ele tem uma literatura que, por assim dizer, dá uma porrada na cara da vida brasileira. E eu queria fazer algo parecido. Rubem Fonseca me permitiu enfrentar o tema sem muitas vacilações, indo direto ao ponto, criando personagens e situações cruas, duras, intensas em seu realismo. A literatura, para nos humanizar, tem que mostrar a vida ou “fazer viver”, como defende Antonio Candido no seu notável ensaio “Direito à literatura”. E fazer viver é mostrar também, de forma crua, o quanto de cruel há no real, no cotidiano das grandes cidades.

 

- Acha que a violência é pouco retratada na literatura?

 

Rinaldo de Fernandes – Não, sempre houve violências, de vários matizes, configuradas na literatura. Machado de Assis, no conto “Pai contra mãe”, trata da violência decorrente do regime escravocrata. Euclides da Cunha, em Os sertões, denuncia a violência da República, a violência do Estado brasileiro contra uma população sertaneja indefesa. Guimarães Rosa mostra a violência que decorre da cultura de defesa da honra no conto “A hora e vez de Augusto Matraga”. Paulo Honório, protagonista do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, carrega consigo a violência de classe, a do burguês contra o individuo que ele explora. E por aí vai.


- Existe incômodo ao retratar o assunto no meio literário?

 

Rinaldo de Fernandes – Não. A violência está na vida, na sociedade. E a literatura traz sempre uma imagem da vida. Sobretudo depois de Rubem Fonseca o tema da violência entrou de vez na literatura brasileira, tornou-se um tema primordial.



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 10h15
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Miniconto

 

O FILHO

 

 

  

 

por Rinaldo de Fernandes

 

 

      (para Júlio de Fernandes)

 

 

É límpido, o teu chão. Não há nele nódoas, asperezas. Pise bem firme: acomode os dedos nos pés e os pés nos passos. É límpido. E é o chão que meu sonho te estende, meu filho.

 

 



Escrito por Rinaldo de Fernandes às 11h28
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